A Aegea, uma das maiores operadoras privadas de saneamento do país, entrou no centro das atenções do mercado de crédito privado após anunciar que adiaria e republicaria seus balanços de 2024 e 2025. A decisão provocou forte reação nos preços de suas dívidas, que passaram a ser negociadas em patamar típico de empresas sob estresse financeiro.Para Conrado Rocha, sócio da Polo Capital, a reação foi exagerada. Em entrevista ao Stock Pickers, podcast comandado por Lucas Collazo, o gestor afirmou que a Polo manteve posição comprada nos papéis da companhia, uma das principais apostas de seus fundos mais líquidos.O que assustou o mercadoO primeiro ponto de tensão foi o formato do anúncio. A Aegea comunicou, por fato relevante publicado às 7h, que não divulgaria os resultados na data prevista. Nos dias seguintes, os papéis da empresa passaram a negociar perto de CDI mais 10 pontos percentuais, nível associado a companhias em situação mais delicada.Segundo Rocha, o mercado ignorou uma informação relevante do próprio comunicado: a empresa afirmou que os ajustes não teriam impacto em caixa nem provocariam vencimento antecipado de dívidas. Na prática, isso significava que não haveria quebra de covenants, cláusulas que permitem aos credores cobrar o pagamento imediato em caso de descumprimento de determinadas condições.A sequência de adiamentos, porém, aumentou o nervosismo. A companhia remarcou a divulgação dos resultados três vezes e só publicou os números perto das 23h50 do último dia do prazo regulatório.Ajustes contábeis, não de caixaNa avaliação da Polo, os ajustes divulgados tinham natureza contábil. Eles envolviam reclassificações de receita, mudanças no registro de juros e no tratamento de pagamentos de outorga, valores ligados aos contratos de concessão vencidos em leilões de saneamento.Essas alterações reduziram de forma relevante o patrimônio líquido da Aegea, de cerca de R$ 11 bilhões para algo entre R$ 5 bilhões e R$ 6 bilhões. Ainda assim, segundo Rocha, não mudaram a geração de caixa nem a operação das concessões.A tese da gestora é que a essência do negócio permaneceu preservada. O caixa da companhia foi mantido, os acionistas de peso continuaram no controle — entre eles GIC e Itaúsa (ITSA4) — e a auditoria seguiu com a KPMG, sem troca de firma responsável pelos balanços.Para Rocha, o caso não se compara a episódios mais graves de fraude ou manipulação contábil. Após o susto inicial, os papéis da Aegea se recuperaram parcialmente: saíram do pico próximo de CDI mais 10 e voltaram para algo em torno de CDI mais 5.Master também entrou no radarA mesma disciplina de análise de crédito levou Rocha a examinar o Banco Master. Nesse caso, o ponto de partida foi a exposição da instituição à Oncoclínicas (ONCO3), empresa em que a Polo mantinha posição vendida desde a estreia na bolsa.Segundo Rocha, o aporte de R$ 1,5 bilhão feito pelo Master na companhia, em 2024, chamou atenção depois que parte relevante dos recursos apareceu aplicada a 130% do CDI. Para ele, a taxa indicava que o dinheiro provavelmente havia voltado ao próprio banco.A partir daí, o gestor afirma ter passado cerca de seis semanas analisando documentos públicos do Master e do Banco Central. No balanço do banco, diz ter encontrado uma estrutura atípica, com captação concentrada em CDBs e mais de 50% dos ativos alocados em fundos de investimento, títulos privados e precatórios.Rocha também afirmou que uma linha de R$ 8 bilhões em precatórios incluía, na prática, apenas cerca de R$ 200 milhões em precatórios já reconhecidos. O restante corresponderia a direitos ainda dependentes de decisão final na Justiça.Fundos em cascataA análise levou ainda a uma cadeia de fundos em cascata, com participações em empresas como Gafisa (GFSA3), Light (LIGT3), Aliança e GetNinjas. Segundo ele, havia fundos de crédito com ações no portfólio, fundos com CDBs do próprio Master e sucessivas cisões que dificultavam o rastreamento das operações.Um dos exemplos citados foi o fundo Marsani, que, após uma cisão no fim de 2023, teria gerado cerca de R$ 400 milhões em lucro contábil em poucos dias por meio da reavaliação de ativos.Na avaliação de Rocha, o caso ganhou tração após o veto de analistas da Caixa Econômica Federal a uma emissão de letras financeiras do Master e, depois, com a proposta de compra do banco pelo BRB (BSLI4). The post Aegea testa leitura do mercado sobre ajustes contábeis appeared first on InfoMoney.
