Alemanha e Japão voltam a se rearmar, 80 anos após a Segunda Guerra Mundial

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Berlim — Em 1940, os regimes imperiais da Alemanha e do Japão se uniram no que viria a ser conhecido como o Eixo, ligados pela oposição comum aos Estados Unidos. Travaram uma guerra mundial, foram derrotados e passaram os 85 anos seguintes com forças armadas reduzidas e forte dependência de seu antigo inimigo, os EUA, para garantir sua segurança.Agora, a desconfiança em relação aos Estados Unidos voltou a crescer nos dois países, ao mesmo tempo em que aumentam os temores diante da ascensão da China e da postura agressiva da Rússia. Tóquio e Berlim correm para reconstruir suas capacidades militares. E, mais uma vez, estreitam seus laços.A expectativa é que essa cooperação ganhe impulso nesta semana, durante a reunião dos líderes do G7 em Evian, na França. Ela já inclui o compartilhamento de conhecimento, tecnologia e armamentos — como drones e helicópteros — considerados essenciais para os esforços de rearmamento de ambos os países.Não se trata, porém, de uma reedição do Eixo. Desta vez, Japão e Alemanha se aproximam a partir de uma postura defensiva: Berlim apoia a defesa da Ucrânia contra a Rússia, enquanto Tóquio está em alerta para as ameaças representadas por China e Coreia do Norte. Os dois também vêm se alinhando a outras “potências médias” com visões semelhantes, como Reino Unido, Canadá e França — antigos inimigos na Segunda Guerra. E procuram se apresentar como defensores do direito internacional e das instituições multilaterais, vistas como barreiras contra a intimidação exercida pelas maiores potências do mundo.Leia também: Gasto militar global atingiu US$ 2,9 tri em 2025 e expectativa é de alta em 2026Leia também: Alemanha abandona a austeridade e vira “mais um” a aliviar regras de controle fiscalComo afirmou Boris Pistorius, ministro da Defesa da Alemanha, em março, durante visita a uma base naval japonesa, países como Alemanha e Japão, “que continuam comprometidos com a ordem internacional baseada em regras, precisam se aproximar ainda mais e deixar claro o que defendem”.Alemanha e Japão saíram da devastação da Segunda Guerra com o foco voltado para a reconstrução de cidades arrasadas e para o crescimento econômico. Deixaram que os Estados Unidos e outros aliados assumissem grande parte do peso de garantir a segurança de suas populações.Depois da divisão da Alemanha, os EUA construíram grandes bases militares e mantiveram dezenas de milhares de soldados na Alemanha Ocidental, que se tornou uma linha de frente da Guerra Fria contra a União Soviética. Os governos da Alemanha Ocidental e da Alemanha Oriental mantinham seus próprios grandes exércitos, mas, após a queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria, o país reunificado passou a gastar muito mais com programas sociais do que com defesa.No Japão do pós-guerra, foi adotada uma Constituição imposta pelos Estados Unidos e elaborada sob a supervisão do general Douglas MacArthur. O texto obrigava os japoneses a renunciar à guerra e proibia a manutenção de forças armadas, exceto para fins defensivos. Isso levou à criação das Forças de Autodefesa, nome oficial das forças militares do país até hoje.Nas décadas seguintes ao conflito, movimentos antimilitaristas ganharam força nos dois países, promovendo ideais de paz, diplomacia, livre comércio e intercâmbio cultural.Mas esse sentimento foi perdendo força nos últimos anos, sobretudo desde a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022, e da postura militar e econômica cada vez mais assertiva da China sob a liderança de Xi Jinping.As ameaças do presidente Donald Trump de abandonar compromissos de segurança na Europa e sua disposição para fechar um acordo comercial com Xi aceleraram, nos dois países, o impulso em direção ao rearmamento.Thomas Berger, professor da Universidade de Boston que estuda a história do pós-guerra no Japão e na Alemanha, afirmou que os dois países foram responsáveis por “talvez a maior catástrofe do século 20” — referência à Segunda Guerra Mundial — e que suas derrotas “destruíram seus ideais e crenças no império e na militarização”.Mas a mudança recente no cenário global de segurança, em especial a volatilidade de Trump, aumentou o senso de ansiedade e urgência entre os líderes relativamente novos dos dois países, ambos conservadores e inclinados a priorizar a defesa. “Existe esse medo justificável de que os Estados Unidos possam abandoná-los”, disse Berger.Pouco antes de assumir o cargo, há um ano, o chanceler alemão Friedrich Merz liderou com sucesso um esforço para suspender os limites ao endividamento público da Alemanha, a fim de ampliar drasticamente os gastos militares. Em alguns anos, o orçamento de defesa alemão poderá superar, somado, o da França e o do Reino Unido.O Japão compromete metade desse valor, mas ainda assim figura entre os maiores gastadores em defesa no mundo, com um orçamento de cerca de US$ 58 bilhões neste ano.A primeira-ministra Sanae Takaichi, uma política conservadora, chegou ao poder no ano passado com apelos nacionalistas para revitalizar as forças armadas. Ela posicionou mísseis de longo alcance — capazes de alcançar a China — no sul do Japão e reverteu proibições do pós-guerra à exportação de armamentos.Tanto Merz quanto Takaichi fizeram questão de tentar manter relações cordiais com Trump, mas ambos também passaram a buscar, cada vez mais, alianças militares para além de Washington.Recentemente, o Japão fechou um acordo de US$ 6,5 bilhões para fornecer navios de guerra à Austrália e negocia com Filipinas e Indonésia a exportação de embarcações militares. A Alemanha estreitou os laços com a Ucrânia no desenvolvimento e na implantação de novos armamentos e pediu à França ajuda para lhe oferecer dissuasão nuclear.China e Rússia acusaram Takaichi de tentar ressuscitar o militarismo da era da Segunda Guerra. Ela, porém, afirma que suas políticas são necessárias porque o Japão enfrenta o ambiente de segurança “mais severo e complexo” desde aquele período, citando as ameaças da China e da Coreia do Norte.“Hoje, nenhum país consegue proteger sozinho sua própria paz e segurança”, disse ela recentemente. “Não houve absolutamente nenhuma mudança em nosso compromisso de seguir o caminho que trilhamos como uma nação amante da paz por mais de 80 anos.”A sociedade alemã abraçou o rearmamento com relutância, mas mais rapidamente do que a japonesa.Pesquisas recentes sugerem que a maioria dos alemães vê o mundo atual como mais perigoso do que era durante a Guerra Fria. Também indicam que dois terços da população apoiam o aumento dos gastos militares, embora as Forças Armadas alemãs, que não adotam o serviço militar obrigatório, tenham dificuldade para convencer os jovens a se alistar.Em Tóquio, nesta primavera, dezenas de milhares de pessoas protestaram contra as políticas de segurança de Takaichi, incluindo a decisão de exportar mais armas e de criar uma agência nacional de inteligência. Os manifestantes temem que Takaichi tente, em seguida, abolir o Artigo 9º da Constituição, que renuncia à guerra.Nahoko Hishiyama, 37, que ajudou a organizar alguns dos protestos, afirmou que as políticas de Takaichi “são profundamente preocupantes, porque buscam transformar o Japão em uma potência militar”.Alexandra Sakaki, pesquisadora do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança, em Berlim, e estudiosa do Japão, afirmou que o rearmamento exigirá novas mudanças de mentalidade tanto na Alemanha quanto no Japão, especialmente se as autoridades passarem a considerar políticas como o alistamento obrigatório.“Eles precisam repensar completamente a relação entre militares e sociedade”, disse ela. “Estarão prontos para o combate? Estarão prontos para lutar? Japão e Alemanha precisam que a opinião pública apoie essa visão.”Há um país que aplaudiu as mudanças na Alemanha e no Japão: os Estados Unidos.Trump há muito pressiona aliados a gastar mais com a própria defesa, para que as Forças Armadas americanas possam se concentrar em outras frentes. Em encontro com Merz no ano passado, ele elogiou a disparada dos gastos militares alemães — embora não sem alguma ressalva. Em tom de piada, Trump observou que uma Alemanha remilitarizada talvez não agradasse aos líderes americanos que derrotaram a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial.“Não tenho certeza de que o general MacArthur diria que isso é algo positivo, sabe?”, afirmou.Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times.c.2026 The New York Times CompanyThe post Alemanha e Japão voltam a se rearmar, 80 anos após a Segunda Guerra Mundial appeared first on InfoMoney.

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