Desde o início do ano, o rendimento dos títulos do Tesouro dos EUA (Treasuries) de 10 anos subiu cerca de 40 pontos-base, oscilando entre uma mínima de 3,93% em 27 de fevereiro e uma máxima de 4,66% em 19 de maio. O JPMorgan vê os rendimentos indo além, projetando que o rendimento dos títulos de 10 anos chegue a 4,70% levando em conta os ativos de 26 anos (antes era de 4,50%). Desta forma, a equipe de estratégia do JPMorgan analisou como um aumento repentino nos rendimentos dos EUA pode impactar as ações da América Latina – incluindo o Brasil – ao examinar episódios desde 2013, quando o rendimento dos títulos de 10 anos subiu mais de 50 pontos-base.Conforme apontam os estrategistas, a América Latina é um mercado de alto beta (volatilidade) e o impacto é bastante consistente: uma alta rápida nos rendimentos dos EUA aperta as condições financeiras, fortalece o dólar, eleva a taxa de desconto e desencadeia saídas de capital. Ainda assim, existem diferenças importantes no desempenho ao se considerar se a valorização dos títulos do Tesouro americano se deve à inflação ou ao crescimento econômico. “Contrariamente à intuição, a América Latina tende a ter um desempenho melhor quando a valorização dos títulos do Tesouro americano se deve à inflação mais alta. Talvez o fluxo de capital para os EUA ocorra quando o forte crescimento é a razão por trás da alta dos títulos do Tesouro americano”, avalia a equipe de análise do banco.Contudo, reforça, é preciso considerar que as notícias locais também desempenham um papel importante. Embora os títulos do Tesouro americano tenham se valorizado em 2022 com o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, a América Latina teve um desempenho relativamente bom (especialmente no primeiro semestre), por ser rica em commodities. Leia tambémIbovespa Hoje Ao Vivo: Bolsa sobe e tenta sustentar os 169 mil pontosBolsas dos EUA operam mistas com indefinição sobre a guerra No início do governo Lula, principalmente a partir do segundo trimestre, o mercado reagiu muito bem às novas iniciativas do plano fiscal, enquanto os títulos do Tesouro americano estavam em alta, aponta. Curiosamente, aponta o banco, do ponto de vista setorial, os setores de petróleo e matérias-primas tendem a ser mais resilientes em momentos de alto dos títulos, pois isso geralmente vem acompanhado de moedas latino-americanas mais fracas (o que é positivo para as exportações).Análise históricaAo longo do período analisado (2013–2025), os rendimentos subiram 80 pontos-base em média, e a duração média da alta foi de 81 dias. A América Latina registrou um retorno absoluto médio de -2%, com retornos negativos em 67% dos episódios, impulsionados principalmente pelo Brasil e pela Colômbia. Petróleo, imobiliário e matérias-primas foram os únicos setores a apresentar desempenho positivo, enquanto saúde e consumo discricionário foram os que apresentaram pior desempenho. Dos 12 períodos analisados, 9 estiveram associados principalmente a um crescimento mais forte do que o esperado, em vez de inflação pura, enquanto 3 refletiram choques de inflação pura que elevaram os rendimentos. Ao dividir a amostra, o JPMorgan aponta que os aumentos nos rendimentos impulsionados pelo crescimento coincidiram com um desempenho regional inferior de -3,7%, enquanto os aumentos nos rendimentos impulsionados pela inflação estiveram associados a um desempenho de +3,2%. Por fim, as moedas depreciaram cerca de 3% em média, com uma frequência de 75%. Conforme aponta o JPMorgan, a primeira fase do movimento nos Treasuries ocorreu logo após o início da guerra com o Irã. No entanto, o desempenho da América Latina se manteve, já que a região foi considerada um porto seguro por estar longe do epicentro geográfico do conflito e ser rica em petróleo (exceto Peru e Chile). Leia também“Somos traders, não freiras”: Xavier, da SPX, explica mudanças e planeja reviravoltaPrincipal acionista da gestora afirma que ninguém articulou um golpe para derrubá-lo do comando, nem houve troca de socos entre os sóciosContudo, a região não resistiu à segunda fase da alta dos yields, o que foi claramente um sinal de maiores pressões inflacionárias pela frente, com os mercados já começando a precificar um aumento da taxa de juros pelo Fed em 2026. “Neste momento, acreditamos que o pico dos títulos do Tesouro já foi atingido, próximo a 4,7%. Olhando para o futuro, com os rendimentos dos títulos do Tesouro potencialmente próximos de um pico, o impacto marginal de novos aumentos de rendimento pode ser limitado”, avalia. Poucos catalisadores no curto prazoPara os estrategistas, a América Latina parece mais atraente em termos de avaliação e posicionamento, mas o cenário macroeconômico ainda não é um catalisador para uma reavaliação generalizada. As commodities continuam sendo um fator positivo, com expectativa de maior valorização do cobre, níquel e ouro. Com o petróleo se estabilizando próximo aos níveis atuais, os lucros do setor devem permanecer sustentados nos próximos trimestres. “Dito isso, o cenário macroeconômico oferece poucos gatilhos de curto prazo — as taxas de juros no Brasil dificilmente cairão, o crescimento está vacilante (México, Chile) e as pressões inflacionárias persistem em toda a região. Isso deve acabar afetando as expectativas de lucros, especialmente no Brasil”, avalia.Acima de tudo, o banco ainda acredita que as eleições no Peru, na Colômbia e no Brasil estão tendo um impacto crucial sobre os preços, tornando esses eventos importantes para acompanhar no futuro, principalmente porque podem mudar o panorama ideológico da região.The post América Latina barata, mas sem gatilhos: o fator de pressão no mercado com Treasuries appeared first on InfoMoney.
