Após crises sucessivas, a Boeing tenta virar a página

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EVERETT, Washington — Em uma manhã deste mês, a porta de um enorme hangar de fábrica da Boeing ao norte de Seattle se abriu, e trabalhadores levaram para dentro uma fuselagem verde-esmeralda.Era apenas o segundo 737 Max a entrar em produção nessa fábrica em Everett, no estado de Washington, e isso representava um marco para a Boeing.Leia tambémVolvo abandona meta de crescimento de vendas após piora do mercado chinêsA fraqueza da demanda na China pressionou a rentabilidade da companhia no segundo trimestreSpaceX caminha para perder US$ 1 trilhão em valor de mercadoTombo das ações após problema no Starship pressiona tese de IA da empresaDesde que o 737 estreou, em 1967, o avião era produzido quase exclusivamente em uma fábrica em Renton, subúrbio de Seattle. Mas Renton está perto de seu limite de capacidade, e a adição de um segundo local de produção em Everett ajudará a Boeing a cumprir sua ambição de fabricar mais unidades do 737 Max, de longe seu avião mais popular.De forma mais ampla, a expansão da produção do 737 é um sinal do progresso que a Boeing vem fazendo em seu esforço de recuperação, mais de dois anos após sua última grande crise. Em janeiro de 2024, um painel mal instalado se desprendeu de um jato 737 Max durante um voo, provocando nova supervisão federal e renovado escrutínio público sobre a Boeing. Na época, a empresa mal havia começado a se recuperar de forma mais consistente de uma crise muito mais grave provocada pelos acidentes com o Max em 2018 e 2019, nos quais 346 pessoas morreram.O episódio do painel levou a Boeing a mexer novamente em sua liderança, cultura e práticas, e essas mudanças parecem estar dando resultado. A Boeing entregou 314 jatos no primeiro semestre do ano, seu melhor desempenho nesse período desde 2018. No início deste ano, tinha US$ 576 bilhões em pedidos de aviões comerciais, o maior volume de sua história.E, na sexta-feira, a Administração Federal de Aviação dos EUA (FAA) disse que permitirá que a Boeing volte a emitir certificados de aeronavegabilidade para todos os seus aviões 737 Max e 787, um avanço importante em relação à supervisão imposta pelos reguladores nos últimos anos. Há um ano, a FAA havia restaurado parcialmente essa autoridade à empresa, permitindo que ela emitisse certificados em semanas alternadas. Agora, a Boeing poderá aprovar todos os seus aviões, informou a agência, citando “qualidade de produção consistente”.“A Boeing está em uma trajetória claramente ascendente”, disse Jerry Lundquist, consultor do setor cuja empresa, a Lundquist Group, assessora executivos da indústria aeroespacial, mas atualmente não trabalha para a Boeing. “Ela ainda não chegou a um voo de cruzeiro suave, estável e sustentado, mas continua indo bem. É uma história muito positiva.”Também ajuda o fato de que as companhias aéreas estão desesperadas por novos jatos para atender à crescente demanda global por viagens. Espera-se que centenas de novos pedidos sejam anunciados nos próximos dias, quando Boeing e outras empresas se reunirem em um aeroporto perto de Londres para um dos maiores eventos aeroespaciais do mundo, o Farnborough International Airshow, realizado a cada dois anos.“Tem sido uma verdadeira febre de encomendas”, disse Stuart Hatcher, economista-chefe e diretor de dados da IBA, consultoria de aviação, durante um seminário nesta semana.Na maioria dos casos, um pedido de avião feito hoje à Boeing ou à sua rival europeia Airbus não deverá ser atendido antes da década de 2030. Ainda assim, a Boeing segue atrás da Airbus, que recebeu mais do que o dobro de pedidos neste ano e tem uma carteira maior.Apesar dessa diferença, a Boeing trabalha para atender seu próprio backlog de cerca de 6.200 pedidos de aviões. Isso é uma boa notícia para seus resultados financeiros. Mas executivos da Boeing alertaram que a divisão de aviões comerciais ainda não gerará lucros consistentes por algum tempo, em parte por causa de investimentos como o US$ 1 bilhão gasto para expandir a produção do Max em Everett.Cerca de 1.000 funcionários estão envolvidos nesse esforço. Metade dos mecânicos que montam o avião trabalhava antes em Renton, enquanto a outra metade é de novos contratados, segundo Jennifer Boland-Masterson, diretora sênior responsável pela expansão.A FAA está auditando o processo e precisa aprovar a linha de produção, conhecida como North Line, antes que aviões fabricados ali possam ser entregues. Mas o trabalho já começou, lentamente, e a Boeing afirma que quase todas as etapas do processo espelham as das três linhas de produção do Max em Renton.O trabalho está sendo realizado em um espaço anteriormente usado para fabricar o muito maior 787 Dreamliner, um avião de fuselagem larga cuja produção foi concentrada em uma fábrica na Carolina do Sul. A Boeing também fabrica em Everett o 777, o cargueiro 767 e o tanque militar KC-46A Pegasus. A fábrica, descrita pelo Guinness World Records como a maior do mundo em volume, também foi um dia a casa do icônico 747, cuja última unidade foi entregue em 2023.O 737 Max responde por cerca de 70% da carteira de pedidos de aviões comerciais da Boeing. As entregas do modelo ficaram congeladas por quase dois anos após os acidentes fatais. Durante esse período, reguladores exigiram que a Boeing fizesse várias mudanças no avião, que voltou a voar no fim de 2020.Depois do incidente do painel em 2024, no qual ninguém ficou gravemente ferido, a FAA limitou a produção do Max a 38 aviões por mês até que estivesse satisfeita de que a Boeing havia melhorado a qualidade da fabricação. Posteriormente, a empresa implementou um regime de controle de qualidade que descreveu como uma “guerra contra defeitos”, e a FAA autorizou a Boeing, no fim do ano passado, a produzir 42 jatos por mês e, neste ano, 47 por mês.A Boeing está trabalhando para atingir de forma sustentada a taxa de 47 aviões por mês, e a linha de Everett foi adicionada para ajudar a empresa a alcançar sua próxima meta de produzir 52 por mês e, futuramente, ainda mais.“Isso é bastante importante”, disse Sheila Kahyaoglu, analista de ações da Jefferies especializada em empresas aeroespaciais e de defesa. “Aumentar o ritmo ajuda muito.”Kahyaoglu estima que cada 737 entregue pode gerar entre US$ 10 milhões e US$ 20 milhões em caixa, já descontados custos e investimentos necessários.Embora a Boeing tenha avançado na produção do Max, ela ainda vem sendo prejudicada por três aviões com longos atrasos. Mas a empresa agora diz estar perto de certificar cada um deles.A Boeing afirmou que o trabalho de certificação das menores e maiores variantes do Max, o Max 7 e o Max 10, está bastante avançado. A empresa também disse estar fazendo progresso substancial com o 777-9, um gigante projetado para viagens internacionais de longa distância. Os três aviões estão anos atrasados, mas a Boeing disse esperar começar as entregas de todos eles no próximo ano.“O caminho está claro”, disse Mike Sinnett, vice-presidente sênior da Boeing, a repórteres neste mês. “Sabemos o que temos de fazer. Nos reunimos com a FAA com muita, muita frequência.”O Max 10 será entregue com um novo sistema exigido em decorrência dos acidentes. Esse sistema, conhecido como Enhanced Angle of Attack, foi projetado para simplificar os alertas recebidos pelos pilotos quando é detectado um erro em um sensor que mede o ângulo do avião em relação ao fluxo de ar que se aproxima, conhecido como ângulo de ataque.Investigadores afirmaram que múltiplos alertas relacionados a dados incorretos desse sensor dificultaram a reação dos pilotos nos acidentes fatais. Uma vez certificado, o novo sistema deverá ser incorporado a todos os aviões Max em até dois anos.Tanto o Max 7 quanto o Max 10 também contarão com uma correção no sistema anti-gelo do motor para resolver preocupações com superaquecimento em determinadas condições.O 777-9, um avião de fuselagem larga capaz de transportar mais de 400 passageiros em longas distâncias, também está avançando, disse a empresa. O modelo já realizou mais de 1.700 voos de teste, e a Boeing espera entregar o primeiro 777-9 no ano que vem.Em um pátio próximo à fábrica de Everett, a Boeing submete um 777-9 a testes que simulam o voo real, incluindo flexão de asas e fuselagem, além de repetidas pressurizações e despressurizações da cabine. Até agora, esse avião já suportou o equivalente a quase o dobro do número de voos que a empresa espera que ele faça ao longo de toda a sua operação, sem grandes defeitos estruturais.Desde o incidente do painel em 2024, a Boeing também vem trabalhando para reformular a qualidade da fabricação e a cultura corporativa. A empresa substituiu vários executivos de alto escalão, ampliou treinamentos e inspeções, simplificou a documentação e reduziu permissões para que certos trabalhos fossem realizados fora de sequência. A Boeing afirmou que, como resultado, nos três primeiros meses do ano os funcionários gastaram quase 20% menos tempo corrigindo defeitos ou consertando ou substituindo peças na linha do 737 do que no mesmo período do ano passado.A Boeing também passou a intervir mais nas operações de seus fornecedores em um esforço para melhorar qualidade e capacidade. Em 2025, comprou um fornecedor em dificuldades, a Spirit AeroSystems, que fabricava a fuselagem do Max. A Boeing afirmou que o número de fuselagens que chegaram com defeitos neste ano caiu 40% em relação a 2025.E, na tentativa de melhorar sua cultura, a empresa coletou por muitos meses opiniões de dezenas de milhares de funcionários. Esse processo levou à criação de cinco valores orientadores e 15 comportamentos recomendados aos empregados.Essas diretrizes são, em grande parte, diretas e convencionais, como “vá até o fim” e “colabore com respeito”. Mas uma delas fala de forma crua às frustrações dos trabalhadores que enfrentaram crises sucessivas e ao esforço da companhia para recuperar a confiança do público: “Importe-se de verdade!”c.2026 The New York Times CompanyThe post Após crises sucessivas, a Boeing tenta virar a página appeared first on InfoMoney.

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