Investidores estrangeiros fizeram uma compra líquida de US$ 6,84 bilhões em dólar por meio de derivativos negociados na B3 na segunda-feira (26), primeiro pregão após o segundo turno da eleição presidencial.Foi a maior compra líquida diária dos estrangeiros, ao menos desde julho de 2022, conforme dados da B3, compilados por traders e obtidos pelo InfoMoney. O cálculo considera dólar futuro cheio (DOL), minidólar (WDO) e cupom cambial (DDI).Para André Moraes, analista, fundador e CEO da Trade ao Vivo e chairman da BFR Investimentos, o movimento representa, ao menos neste primeiro momento, uma reversão de parte das posições construídas antes da votação decisiva.“Por enquanto, é um ajuste concentrado pós-eleição”, disse ao InfoMoney, sobre o movimento de segunda-feira, pós eleição, quando a moeda americana fechou com alta de 8,2%, a R$ 5,40, na maior disparada em 23 anos. Na máxima, chegou aos R$ 5,60.O tamanho do fluxo mostra um forte reposicionamento no mercado de câmbio depois da eleição. Os números, porém, não permitem determinar quanto dessa compra representou posição direcional no dólar, encerramento de operações anteriores ou proteção cambial.Leia tambémDólar hoje cai mais de 1%, a R$ 5,34, após forte alta registrada com vitória de LulaNo ano, a divisa passou a acumular baixa de 2,55%Dólar futuro concentrou 61% da compraA maior parcela da movimentação ocorreu no contrato cheio de dólar.ContratoCompra líquida estrangeiraDOLUS$ 4,16 bilhõesWDOUS$ 2,58 bilhõesDDIUS$ 100 milhõesTotalUS$ 6,84 bilhõesFonte: B3/DataWise. Elaboração: Traders.O DOL respondeu por cerca de 61% do total, enquanto o minidólar concentrou outros 38%.Juntos, DOL e WDO representaram praticamente 99% da compra líquida de dólares realizada pelos estrangeiros naquele pregão.O recorde anterior havia ocorrido em 4 de abril de 2025, quando a compra líquida chegou a aproximadamente US$ 6,47 bilhões.Na ocasião, o dólar saltou 3,72%, a R$ 5,83, acompanhando a valorização da moeda norte-americana no exterior após a China anunciar retaliação ao tarifaço dos EUA, ampliando a guerra comercial e os temores de desaceleração da economia global.Maior fluxo da sérieCompra líquida26/10/2026US$ 6,84 bilhões04/04/2025US$ 6,47 bilhõesFonte: B3/DataWise. Elaboração: Traders.O novo recorde supera o anterior em aproximadamente 5,7%.Na avaliação de Moraes, o tamanho do ajuste precisa ser observado à luz das posições construídas entre os dois turnos. O ponto agora é saber se essa reorganização ficará restrita ao curto prazo ou ganhará duração.Um pregão respondeu por 61% do fluxo de outubroO peso da segunda-feira fica ainda mais evidente quando o dado é comparado ao acumulado mensal.Até 26 de outubro, os estrangeiros registravam US$ 11,15 bilhões em compras líquidas de dólar nos instrumentos considerados pelo levantamento.Somente o primeiro pregão após a eleição respondeu por 61,3% desse total.Outubro de 2026Compra líquidaAcumulado até 23/10US$ 4,31 bilhõesSomente 26/10US$ 6,84 bilhõesAcumulado até 26/10US$ 11,15 bilhõesFonte: B3/DataWise. Elaboração: Traders.Em um único dia, portanto, os estrangeiros compraram cerca de US$ 2,53 bilhões a mais do que haviam comprado, somados, nos demais pregões do mês até então.Com US$ 11,15 bilhões, outubro já aparecia, até o dia 26, como o terceiro maior mês de compras líquidas de dólar da série.MêsCompra líquida estrangeiraOutubro/2025US$ 15,92 bilhõesJunho/2024US$ 12,26 bilhõesOutubro/2026*US$ 11,15 bilhõesAté 26 de outubro. Fonte: B3/DataWise. Elaboração: Traders.Quem estava do outro lado?A abertura dos dados por tipo de participante ajuda a mostrar como ocorreu essa transferência de exposição cambial.Enquanto os estrangeiros compraram US$ 6,84 bilhões em dólar, fundos e instituições financeiras apresentaram venda líquida conjunta de aproximadamente US$ 5,07 bilhões.Empresas não financeiras venderam outros US$ 1,68 bilhão.InvestidorFluxo líquido em dólarEstrangeiros+US$ 6,84 bilhõesFundos + instituições financeiras-US$ 5,07 bilhõesEmpresas não financeiras-US$ 1,68 bilhãoPessoas físicas-US$ 92 milhõesFonte: B3/DataWise. Elaboração: Traders.A fotografia mostra uma grande troca de exposição entre diferentes participantes no primeiro pregão depois da eleição.Há, contudo, uma ressalva importante: a base mede o saldo das compras e vendas realizadas no dia. Ela não representa necessariamente toda a posição que cada grupo mantém carregada no mercado.Por isso, Matheus Medeiros, o Madruga, analista da Nomos, considera cedo para interpretar o recorde como evidência de uma mudança estrutural no câmbio.Para ele, parte do movimento pode refletir o encerramento de posições vendidas em dólar montadas anteriormente ou uma reprecificação após o resultado eleitoral.“É muito cedo para tomar uma decisão. Pode ser a finalização de uma operação vendida; precisamos identificar melhor o movimento”, diz.Giro praticamente dobra nos futuros de dólarSe os dados do DataWise mostram o saldo líquido do estrangeiro, números da plataforma ProfitUltra, da Nelogica, ajudam a dimensionar a intensidade das negociações naquele pregão.No DOLX26, contrato cheio de dólar com vencimento em novembro, o volume financeiro passou de R$ 83,08 bilhões em 23 de outubro, último pregão antes da eleição, para R$ 179,09 bilhões no dia 26.DOLX26Volume financeiro23/10R$ 83,08 bilhões26/10R$ 179,09 bilhõesFonte: ProfitUltra/Nelogica.O avanço foi de aproximadamente 116%.A quantidade de contratos negociados praticamente dobrou, de cerca de 330 mil para 656 mil.No WDOX26, o minidólar, o movimento também foi expressivo.WDOX26Volume financeiro23/10R$ 140,34 bilhões26/10R$ 255,17 bilhõesFonte: ProfitUltra/Nelogica.O volume cresceu aproximadamente 82%, enquanto a quantidade de contratos negociados passou de 2,79 milhões para 4,68 milhões.Somados, DOL e WDO movimentaram aproximadamente R$ 434 bilhões durante a sessão, ante cerca de R$ 223 bilhões no pregão anterior.Esse valor representa giro bruto de negociações e não deve ser confundido com os US$ 6,84 bilhões de compra líquida dos estrangeiros.As duas métricas respondem a perguntas diferentes: uma mede o tamanho total das negociações; a outra, a diferença entre compras e vendas de determinado grupo de investidores.O que pode transformar o ajuste em movimento duradouro?Para Moraes, a continuidade do movimento dependerá mais das decisões daqui para frente do que do choque inicial após a eleição.Entre os fatores que podem definir a permanência ou não desse reposicionamento estão a formação da equipe econômica, as primeiras sinalizações fiscais e o ambiente internacional.“O mundo está recebendo dinheiro vindo dos Estados Unidos. Se a situação não ficar muito complexa no Brasil, para mim esse é primordialmente um movimento de curto prazo”, afirma.Madruga também prefere esperar novas evidências.Na leitura técnica do analista da Nomos, o dólar vinha de uma trajetória prolongada de queda antes da eleição, o que permite interpretar parte do avanço recente como um repique após um movimento anterior bastante intenso.Segundo ele, o dólar futuro ainda poderia oscilar dentro de uma faixa ampla sem caracterizar uma reversão estrutural.“Acima de R$ 5,93, a gente já pode começar a ver uma mudança de movimento”, afirma.O patamar funciona como referência técnica, e não como projeção para a moeda. Na análise de Madruga, seria necessário romper essa região para alterar de maneira mais clara a estrutura observada no gráfico.Índice futuro também passou por forte ajusteA movimentação dos derivativos não ficou restrita ao câmbio.No INDZ26, contrato cheio de Ibovespa futuro, o volume financeiro passou de R$ 15,05 bilhões para R$ 26,90 bilhões entre 23 e 26 de outubro.NDZ26Volume financeiro23/10R$ 15,05 bilhões26/10R$ 26,90 bilhõesFonte: ProfitUltra/Nelogica.O avanço foi de aproximadamente 79%, enquanto a quantidade de contratos negociados mais que dobrou, de 72,36 mil para 153,16 mil.No mini-índice, entretanto, a dinâmica foi diferente.O volume negociado no WINZ26 recuou, mas o estoque de contratos em aberto aumentou de aproximadamente 969 mil para 1,22 milhão.WINZ26Contratos em aberto23/10969.38326/101.221.537Fonte: ProfitUltra/Nelogica.O crescimento foi próximo de 26%.A diferença entre os contratos reforça que o pregão pós-eleição não produziu simplesmente uma expansão generalizada do volume. Houve mudanças distintas de posicionamento e intensidade conforme o instrumento negociado.Recorde ainda não significa mudança estruturalA combinação dos dados deixa uma fotografia clara da segunda-feira: o estrangeiro realizou a maior compra líquida diária de dólar da série, ao mesmo tempo em que o giro nos principais futuros de câmbio aumentou fortemente.Mas ainda não é possível concluir que o movimento representa uma mudança estrutural e duradoura de posicionamento em relação ao real.Moraes vê, por enquanto, um ajuste concentrado pós-eleição. Madruga também considera cedo para transformar o salto inicial do dólar em sinal de reversão de tendência.Os próximos pregões serão importantes justamente porque permitirão observar a persistência do fluxo.Se a compra estrangeira continuar elevada, haverá mais evidências de um reposicionamento prolongado. Se perder força rapidamente, o recorde de 26 de outubro poderá ficar caracterizado principalmente como um grande ajuste de posições depois do resultado eleitoral.Mais do que o tamanho isolado de um pregão, será a continuidade — ou não — da compra de dólares pelos estrangeiros que ajudará a mostrar se o mercado está diante de uma nova configuração para o câmbio ou apenas assimilando o choque pós-eleição.O que são DOL, WDO, derivativos e hedge no mercado futuro de dólarDerivativos: instrumentos financeiros cujo preço deriva de outro ativo, taxa de referência ou índice. Podem ter como referência moedas, ações, juros, commodities e índices. Entre os principais tipos estão contratos futuros, opções, swaps e contratos a termo.Mercado futuro: ambiente em que são negociados contratos futuros, um tipo de derivativo. Esses contratos representam o compromisso de comprar ou vender determinado ativo em uma data futura e por um preço previamente estabelecido.Contrato futuro de dólar: derivativo baseado no valor do dólar no mercado à vista. Quem negocia esse contrato não está comprando ou vendendo a moeda física, mas assumindo uma posição ligada à expectativa para sua cotação futura.DOL: código usado para o contrato futuro cheio de dólar negociado na B3. Na matéria, ele representa a maior parcela da compra líquida feita pelos investidores estrangeiros.WDO: código do minicontrato futuro de dólar. Ele segue a mesma referência do contrato cheio, mas tem tamanho menor e costuma ser bastante utilizado por investidores individuais e traders.Hedge: estratégia de proteção contra movimentos adversos de preço. No mercado de derivativos, um investidor ou empresa pode usar contratos futuros para reduzir o impacto de uma eventual oscilação de câmbio, juros ou commodities.Especulação: uso de derivativos com o objetivo de lucrar com movimentos de preços, sem necessariamente haver uma posição anterior a ser protegida.Contratos em aberto: posições que permanecem ativas no mercado ao fim do pregão. Um aumento nesse número pode indicar crescimento do estoque de posições carregadas, e não apenas maior giro intradiário.Volume financeiro: valor financeiro total movimentado nas negociações de determinado contrato. Não deve ser confundido com fluxo líquido: volume mede o giro bruto do mercado, enquanto fluxo líquido representa a diferença entre compras e vendas de um grupo específico de investidores.Ajuste diário: mecanismo do mercado futuro pelo qual os contratos são reavaliados diariamente com base em um preço de referência. A diferença entre os ajustes de um pregão para outro gera ganhos ou perdas para quem mantém posições abertas.The post Após eleição, estrangeiro fez compra recorde de US$ 6,84 bi em dólar na B3 appeared first on InfoMoney.
