A aproximação de Flávio Bolsonaro (PL) com figuras da ala mais radical da direita na reta final da campanha presidencial pode ter comprometido sua capacidade de liderar a oposição ao governo Lula (PT). A avaliação é do cientista político Ivan Fernandes, professor de políticas públicas da Universidade Federal do ABC (UFABC), que vê na estratégia eleitoral do senador uma mudança em relação à imagem de moderado que ele procurou construir ao longo da disputa.Em entrevista ao Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, Fernandes afirmou que Flávio tinha condições de se consolidar como principal representante da direita depois de receber quase 60 milhões de votos, mesmo com a derrota no segundo turno. A decisão de deixar o Brasil, porém, acrescentou incertezas sobre seu futuro político e abriu espaço para outras lideranças.Leia tambémTSE ainda irá julgar 29 ações eleitorais de Lula e Flávio BolsonaroDas 15 ações enfrentadas por Lula, 13 foram protocoladas pela equipe jurídica de FlávioLíderes do PL citam ‘total apoio’ a Flávio: ‘Seguiremos firmes ao lado do senador’Senador entrou na Argentina usando o passaporte italiano e depois embarcou em avião que passou pelo Equador antes de chegar na FlóridaSegundo o professor, Flávio era visto como o integrante da família Bolsonaro com maior capacidade de negociação com partidos de centro e setores do Congresso. Essa característica poderia ajudá-lo a reunir o eleitorado bolsonarista e ampliar sua influência sobre grupos menos identificados com a direita ideológica.A estratégia, contudo, mudou durante o segundo turno, quando o senador passou a dar maior espaço a aliados como Pablo Marçal, Lucas Pavanato e Nikolas Ferreira.“Foi inesperado. Todo mundo tinha ali a percepção de que, dentro da família Bolsonaro, Flávio Bolsonaro era o mais moderado dos bolsonaristas, era aquele que circulava melhor no Centrão, participava mais de negociação”, afirmou Fernandes.Mudança de estratégiaPara o cientista político, Flávio deveria ter buscado apoio entre eleitores de centro para ampliar sua votação, sem perder a base mais fiel ao bolsonarismo. O movimento de aproximação com lideranças mais ideológicas, na avaliação dele, dificultou essa expansão e reduziu o espaço para uma candidatura capaz de dialogar com diferentes setores da direita.“No final das contas, não faz muito sentido a decisão que foi feita pelo Flávio, de se aproximar dessas figuras e não daqueles que tinham uma entrada mais moderada, uma capacidade de articulação com outros atores no sistema político”, disse.As pontas soltas de Lula: STF, bets, segurança e ajuste fiscal após a reeleiçãoFernandes citou Tarcísio de Freitas e Cleitinho como exemplos de políticos que poderiam ter desempenhado um papel mais relevante na construção dessa aproximação com outros segmentos do eleitorado.O professor também avalia que a mudança de postura pode ter sido um dos fatores que levaram a derrota eleitoral.Disputa pela liderança da oposiçãoA derrota não impedia Flávio de assumir o comando político da oposição. Segundo Fernandes, a votação expressiva, a força do PL no Congresso e a presença de governadores alinhados à direita ofereciam condições para que o senador ocupasse esse espaço. A saída do Brasil, no entanto, alterou o cenário.“Acho que o Flávio Bolsonaro perdeu uma grande oportunidade de ser o líder da direita, e isso vai ser disputado, seja pelos herdeiros da família Bolsonaro, seja por outros políticos da direita”, afirmou.Entre os possíveis nomes estão Tarcísio de Freitas, Michelle Bolsonaro e Cleitinho.O governador de São Paulo tem interlocução com setores empresariais e partidos de centro, enquanto Michelle mantém vínculos com o eleitorado conservador e evangélico. Cleitinho, por sua vez, ganhou projeção nacional com a disputa pelo governo de Minas Gerais.O que Lula já disse sobre ajuste fiscal e o que falta esclarecer para o 4º mandatoPara Fernandes, o principal obstáculo dessas lideranças será conquistar uma base eleitoral que continua fortemente identificada com Jair Bolsonaro.“Essa direita mais moderada, que circula nos ambientes políticos, que circula na Faria Lima, que circula no empresariado, ela quer o Tarcísio”, disse.Na sequência, o professor resumiu o desafio: “O problema é que essa direita não tem voto. Quem tem voto é Jair Messias Bolsonaro.”A avaliação é que a influência eleitoral do ex-presidente continua sendo um fator central na reorganização da oposição, mesmo com o surgimento de novas lideranças.O Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, vai ao ar todas as sextas-feiras, a partir das 6h da manhã, no YouTube e no seu tocador de podcast preferido.The post Aproximação com direita radical pode ter custado liderança a Flávio, diz analista appeared first on InfoMoney.
