Bolsa barata ainda atrai gringos, apesar de empresas endividadas, dizem gestores

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Grandes companhias listadas na Bolsa brasileira enfrentam um ambiente de forte pressão financeira, com dívidas elevadas, reestruturações pesadas e aumento do estresse no crédito. Ao mesmo tempo, investidores estrangeiros começam a enxergar oportunidades em um mercado considerado historicamente descontado. O cenário de juros altos por tempo prolongado assusta, mas também atrai quem busca valor onde parte dos investidores vê apenas risco. A preocupação com o ciclo de crédito doméstico ganha força no debate entre gestores. Christian Keleti, da Alpha Key, foi direto ao ponto: “Temos um problema gravíssimo e já estamos vendo cinco, seis empresas grandes, dominantes de mercado em algum momento, com problemas de dívida sérios — dando haircut, refinanciando. Já é um problema nas grandes, imagina nas pequenas e médias.”O alerta foi dado no programa AfterMarket, do Stock Pickers, apresentado por Lucas Collazo, com a participação de Andrew Reider, da WHG, e de Bruno Serra, gestor da estratégia Janeiro, da Itaú Asset, como convidado especial. Eles debateram o estado das empresas listadas, o apetite externo pelo Brasil e os efeitos dos juros elevados sobre companhias mais endividadas.Nomes conhecidos foram citados como exemplos do estresse financeiro em curso. “A gente está vendo Cosan (CSAN3), Via Varejo (BHIA3), Grupo Pão de Açúcar (PCAR3), reestruturações muito pesadas de dívida com haircuts altos e números que trazem praticamente a insolvência”, disse Keleti. Ele acrescentou que grupos como Simpar (SIMH3) e CSN (CSNA3), historicamente alavancados, também estão na lista de atenção.Veja mais: Gringo vê risco que o brasileiro ignora no ciclo de crédito, diz gestor da IP CapitalE também: BC sem saída? Gestores veem corte menor de juros após choque globalEmpresários vendendo ativos para sobreviverA mudança de postura dos controladores chamou a atenção de Keleti, que acumula quase três décadas de mercado. Segundo ele, poucas vezes se viu empresários dispostos a se desfazer de ativos relevantes para honrar dívidas. “Poucas vezes eu vi o Benjamin Steinbruch (executivo da CSN) pensando realmente em vender ativo para pagar dívida, porque está ficando complicada a estrutura de capital”, afirmou.O pano de fundo é uma curva de juros que, até poucos dias atrás, estava quase inteiramente próxima de 14% ao ano — nível que pressiona qualquer projeto financiado. “Que projeto que paga CDI mais 5%, dando 20% ao ano, fica de pé, sem corte de juros para aliviar?”, questionou Reider.Serra, por sua vez, identificou a raiz do problema em uma fragilidade estrutural do atual governo: a dificuldade de ancorar as expectativas de inflação de longo prazo. “O Lula não conseguiu, no mandato dele, fazer a expectativa longa de inflação convergir para a meta. Então você fica sempre frágil e qualquer choque te coloca numa situação que você não consegue alongar muito o ciclo”, disse.Reider também alertou para o endividamento das famílias, tema que, segundo ele, apareceu em conversas recentes com investidores estrangeiros em Nova York. “Trinta por cento da renda já está comprometida com o serviço da dívida. A renda cresce, a dívida cresce — e havia uma expectativa de que o brasileiro ia usar esse crescimento de renda para quitar dívidas, mas não: está se alavancando ainda mais”, afirmou.Leia tambémCapital estrangeiro volta a mirar o Brasil — e não é só pela BolsaMovimento ainda discreto inclui fundos macro, venture capital, startups e seguradoras, segundo gestores ouvidos pelo Stock PickersBolsa barata, mas nem tudo que parece barato é oportunidadeApesar do cenário adverso, o grupo identificou oportunidades no mercado acionário. Keleti apresentou um levantamento mostrando que praticamente todos os 12 principais setores da Bolsa estão próximos do piso de múltiplos dos últimos cinco anos.O gestor, porém, fez ressalvas importantes. “Tem empresa do setor de consumo de baixa renda que eu sei que não entrega, tem empresa do setor de varejo que não vai bater a estimativa. Se você colocar que elas vão entregar 10% pior de resultados, o que está no piso histórico fica muito perto dali”, ponderou. Na prática, o desconto pode ser menor do que parece à primeira vista.Ainda assim, Keleti disse enxergar uma assimetria favorável em companhias pouco endividadas e líderes de mercado. Citou como exemplo a Mills (MILS3), empresa de locação de equipamentos que recebeu uma oferta de um grupo francês — uma das maiores locadoras de plataformas hidráulicas da Europa — por cerca de US$ 500 milhões.“Mais uma vez estou vendo deslistar uma empresa boa do mercado”, lamentou, apontando o movimento como sinal de que os valuations brasileiros chamam atenção até de quem olha de fora.A Localiza (RENT3) foi outro exemplo citado. Keleti observou que a ação saiu de 25 a 30 vezes o lucro para cerca de 10 vezes, em meio ao avanço dos carros elétricos chineses no país. “Todo mundo fica com medo de comprar a Localiza a 10 vezes”, disse, sugerindo que o temor pode estar exagerado.Ele fez uma pergunta ignorada por todos — e lucrou com o colapso da GafisaMultimodelos: a estratégia da XP para oferecer atendimento sob medida ao clienteThe post Bolsa barata ainda atrai gringos, apesar de empresas endividadas, dizem gestores appeared first on InfoMoney.

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