O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), afirmou ver uma “chantagem do mercado” na pressão por ajuste fiscal no próximo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e defendeu que eventuais cortes sejam direcionados a privilégios, e não a políticas que atinjam a população mais pobre.Em entrevista à Folha de S.Paulo, publicada neste sábado (31), Boulos colocou entre as medidas a serem discutidas a revisão de desonerações fiscais, o enfrentamento de supersalários e mudanças nas emendas parlamentares.“Você não pode contrapor uma chantagem de mercado à vontade popular. Isso é anular a democracia”, afirmou.A declaração ocorre em meio à intensificação do debate sobre o ajuste fiscal no quarto mandato de Lula, após a reeleição do presidente no último domingo (25).Leia tambémFlávio Bolsonaro fala pela 1ª vez dos EUA e cita concorrer em eleições antes de 2030Candidato derrotado, sugere que poderia ocorrer uma eventual cassação da chapa Lula-Geraldo AlckminBoulos mira desonerações e supersaláriosSegundo Boulos, um eventual ajuste deve priorizar benefícios e distorções que pressionam as contas públicas, em vez de recair sobre áreas como saúde, educação e políticas destinadas à população de menor renda.“O corte que queremos é em privilégios: temos quase R$ 600 bilhões por ano em desonerações fiscais”, afirmou.A ordem de grandeza citada pelo ministro encontra respaldo nos dados oficiais. O Tribunal de Contas da União (TCU) estima os gastos tributários de 2026 em mais de R$ 600 bilhões.Boulos também citou os supersalários no setor público e as emendas parlamentares entre os temas que, em sua avaliação, deveriam entrar na discussão.Ao tratar das emendas, afirmou: “Só aí tem R$ 61 bilhões.”O Orçamento de 2026 prevê aproximadamente R$ 61 bilhões em emendas parlamentares. Desse total, segundo dados oficiais, R$ 37,8 bilhões correspondem a emendas impositivas — aquelas cujo pagamento é obrigatório.Dívida bruta chega a 82,9% do PIBA discussão ocorre em um cenário de avanço do endividamento público e aumento da pressão para que o governo apresente medidas capazes de estabilizar a trajetória da dívida.Na entrevista à Folha, foi destacado que a dívida bruta passou de 71,7% do Produto Interno Bruto (PIB) no fim de 2022 para 82,5% em julho de 2026.Dados mais recentes do Banco Central mostram que a dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB em setembro, equivalente a R$ 11,1 trilhões. O percentual ficou estável em relação a agosto, mas acumula alta de 4,3 pontos percentuais do PIB no ano.A questão fiscal ganhou ainda mais peso após a eleição. Bancos, gestores e agências de classificação de risco têm cobrado maior clareza sobre as medidas que serão adotadas pelo novo governo.A Fitch, por exemplo, alertou para o aumento das incertezas fiscais após a reeleição de Lula, enquanto o UBS apontou que investidores devem buscar medidas concretas e quantificadas antes de uma melhora mais consistente da percepção sobre os ativos brasileiros.Boulos, por outro lado, argumentou à Folha que a trajetória da dívida brasileira deve ser analisada também em comparação com outras grandes economias e criticou propostas de ajuste que, em sua avaliação, recaiam principalmente sobre serviços públicos e a população mais pobre.Leia tambémSimone Tebet estaria entre nomes considerados por Lula para o STF, diz colunistaSegundo Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, a ex-ministra pode ser opção caso Lula decida indicar uma mulher“Governar com as ruas e as redes”No campo político, Boulos minimizou as discussões sobre a sucessão presidencial e defendeu que a prioridade da esquerda seja a sustentação do quarto mandato de Lula.Segundo o ministro, antecipar a discussão sobre nomes para suceder o presidente “só serve à divisão interna na esquerda e no governo”.Ele afirmou ainda que a governabilidade do próximo mandato não deverá depender apenas da articulação institucional com Congresso e Judiciário.“Precisaremos governar com as ruas e as redes”, disse.Segundo Boulos, as redes devem servir para a disputa de narrativas, enquanto a mobilização social teria papel na pressão por pautas defendidas pelo governo.O posicionamento ocorre diante de um Congresso que deverá representar um desafio importante para a agenda econômica. O UBS apontou a capacidade de aprovar medidas fiscais no Legislativo como um dos principais testes do novo governo.Prefeitura de São Paulo em 2028Questionado pela Folha sobre uma eventual candidatura à Prefeitura de São Paulo em 2028, Boulos afirmou que seu foco, neste momento, está no próximo mandato presidencial.“Meu foco está em ajudar Lula a fazer um mandato histórico”, disse.Para Boulos, o quarto governo Lula pode ir além de um mandato de legado pessoal do presidente e indicar caminhos políticos para os próximos anos.O ministro também evitou antecipar decisões sobre seu futuro partidário. Ele reconheceu divergências com a atual maioria do PSOL e afirmou que seu grupo político discute os próximos passos.Leia também‘Exército do Lula’ vira modelo digital para esquerda em 3 países antes de eleiçõesCanais na Argentina, França e Espanha já somam mais de 270 mil seguidores e reproduzem estratégia usada por Janones no segundo turnoBoulos elogia Janones e “Exército do Lula”Ao comentar a estratégia adotada durante a campanha presidencial, Boulos elogiou o deputado federal André Janones (Rede-MG) e a organização do chamado “Exército do Lula”, mobilização digital criada durante a disputa eleitoral.“Janones cumpriu um papel extraordinário”, afirmou.Boulos, que atuou como coordenador de mobilização da campanha, também destacou as manifestações realizadas durante o segundo turno e afirmou que o período registrou uma mobilização social que ultrapassou as lideranças partidárias tradicionais.As declarações foram dadas em entrevista à Folha de S.Paulo publicada neste sábado.The post Boulos cita R$ 600 bi em desonerações e fala em ‘chantagem’ do mercado appeared first on InfoMoney.
