A crise no Oriente Médio, a guerra na Ucrânia, o retrocesso científico nos Estados Unidos e o avanço tecnológico da China formam, juntos, um cenário que não tem precedente recente — e que coloca o Brasil diante de uma janela histórica que pode se fechar antes que o país perceba. Essa é a conclusão de duas especialistas que se debruçam diariamente sobre a interseção entre clima, energia e geopolítica.“O mundo que nós conhecemos não existe mais”, afirmou Izabella Teixeira, ex-ministra do Meio Ambiente no governo Dilma Rousseff e hoje membro de conselhos de instituições como o BNDES. Segundo ela, o que está em curso não é uma série de crises isoladas, mas uma convergência de processos que redesenha a ordem internacional de maneira simultânea e acelerada.As declarações foram feitas no programa Clima na Faria Lima, apresentado por Marina Cançado, que reuniu no estúdio a ex-ministra e Luciana Antonini Ribeiro, fundadora e CEO da gestora Flying Rivers Capital, especializada em resiliência climática nos setores de energia e alimentos.Veja mais: Davos avança em fusões e cria frentes em M&A, crédito e gestão patrimonialE também: Corretora abre sociedade sem régua formal e mira retenção de assessoresEnergia virou instrumento de poderPara Izabella, o grande movimento que define o momento atual é o retorno da segurança energética ao centro do debate geopolítico — uma discussão que, durante a última década, havia ficado emoldurada quase exclusivamente pelo vocabulário das mudanças climáticas. “A segurança energética voltou a ser o centro do debate, considerando todas as formas de energia”, disse ela, acrescentando que a natureza, hoje, é um ator geopolítico. “Eu não faço um radar no mundo sem minerais críticos e estratégicos.”Luciana concorda e vai além. Para ela, a Europa serve de exemplo do que não se deve fazer: saiu de uma dependência energética com a Rússia para outra, agora com os Estados Unidos. “Você tem que diversificar geografia e você tem que diversificar [tipo de] energia, porque isso sim te traz uma maior estabilidade”, disse a gestora.A saída americana da ciência climática, segundo Izabella, representa um dos danos menos visíveis — mas potencialmente mais duradouros — desse novo cenário. “Você interromper pesquisas, desmontar equipes, mandar embora cientistas… as pessoas ainda não têm dimensão de como é que nós vamos operar sem toda essa ciência extremamente competente”, afirmou.Leia tambémRenda fixa americana pagando mais: é hora de trocar o Tesouro Direto pelos EUA?Com juros dos Estados Unidos perto das máximas desde 2007, analistas alertam contra “ilusão de ótica” e explicam como equilibrar a segurança da moeda forte com a rentabilidade dos títulos brasileirosA América Latina entra no mapaA crise global, paradoxalmente, abre oportunidades para a região. Luciana avalia que a América Latina começa a ganhar relevância que nunca teve, impulsionada por três ativos que hoje movem o tabuleiro geopolítico: energia, alimentos e minerais críticos. “Começa a se atrelar um prêmio de resiliência muito mais à América Latina”, disse ela.Izabella lembra ainda uma vantagem competitiva que raramente aparece nas análises econômicas: a paz. O Brasil mantém relações diplomáticas com todos os países do mundo e convive pacificamente com todos os seus vizinhos há quase 180 anos. “A paz terá um valor imenso”, disse ela. Apenas outros 14 países no mundo têm essa característica.A ex-ministra é direta ao apontar que o país precisa parar de se contentar com o discurso da abundância. “O país que tem segurança alimentar junto com segurança energética e com segurança mineral tem que parar de falar que é potência, porque potência na física é trabalho realizado”, afirmou. E completou: “Nós somos uma potência mineral. Agora, se a gente vai licenciar uma mina e vai levar 15 anos, mudem de século.”China determina o ritmo, Brasil precisa escolher seu lugarUm ponto de convergência entre as duas especialistas é o papel crescente e determinante da China na transição energética global. Izabella observa que Pequim não apostou em energias renováveis por convicção climática, mas por estratégia de independência. “A questão climática vai ser feita pelo domínio da China. Você vai topar ser interdependente ou ser dependente”, disse ela. Hoje, segundo a ex-ministra, qualquer investimento em energia renovável, eletrificação ou veículos elétricos depende de tecnologia chinesa.Luciana destaca que os Estados Unidos fizeram movimento semelhante décadas atrás, ao passar da dependência para a autossuficiência energética — transformação que mudou radicalmente sua postura internacional. O Brasil, ao desenvolver o pré-sal e ampliar sua matriz renovável, seguiu caminho parecido. “O Brasil tomou decisões que mostram como se tornar um país relevante para o mundo e indispensável”, avaliou ela.Para Izabella, porém, não basta ter os recursos. O país precisa de capacidade política para negociar, construir alianças e entender o peso do setor privado nesse jogo. “Se o setor financeiro não promover um realinhamento de como quer estar nesse jogo, é o mimetismo da derrota”, afirmou. O Brasil, concluiu ela, tem condições reais para um novo papel nacional e internacional — mas precisará de pragmatismo, e não de greenwishing, para ocupá-lo.Assessora capta R$ 8 mi na 1ª semana e atrai cliente de R$ 100 mi via redes sociaisQuando ninguém queria, eles compraram — e acertaram em cheioThe post Brasil pode ser indispensável na nova ordem mundial, mas precisa agir já appeared first on InfoMoney.
