WASHINGTON — O governador da Califórnia, Gavin Newsom, assinou nesta quinta-feira uma ordem executiva para estudar uma ampla reforma das políticas trabalhistas, numa tentativa de se antecipar a uma possível onda de demissões em massa provocada pela inteligência artificial.Newsom, democrata, determinou que órgãos estaduais trabalhem com acadêmicos, sindicatos e empresas de IA para analisar como subsidiar companhias que mantiverem funcionários em vez de substituí‑los por tecnologia.A ordem prevê a expansão de programas de qualificação profissional, especialmente para trabalhadores de “colarinho branco”, como atendentes de serviço ao cliente, desenvolvedores de software e profissionais de marketing e vendas, cujas funções tendem a ser eliminadas pela IA. Newsom também mandou estudar a ideia de um “capital básico universal”, que daria a todos os residentes participação em ativos como ações, títulos ou fundos soberanos.Segundo o governador, seguro-desemprego e outras proteções tradicionais não serão suficientes. Líderes do setor de IA o alertaram para mudanças rápidas e profundas no mercado de trabalho, com risco de extinção de categorias inteiras — em especial entre trabalhadores de escritório.“A Califórnia nunca ficou sentada vendo o futuro acontecer com a gente — e não vai começar agora”, disse Newsom em comunicado. “Mas precisamos pensar maior. Este momento exige que a gente reimagine todo o sistema — como trabalhamos, como governamos, como preparamos as pessoas para o futuro.”A ordem executiva, primeira do tipo assinada por um governador nos EUA, reflete uma angústia crescente no mundo todo. Os temores em torno da IA alimentam debates sobre como ajudar pessoas a migrar para novas carreiras ou sustentar quem enfrentar longos períodos de desemprego.Leia tambémJPMorgan planeja contratar mais especialistas em IA e menos banqueiros, diz DimonO CEO afirmou que a automação transformará as funções em Wall Street, mas defendeu que o impacto nos empregos pode ser gerenciado por meio da rotatividade natural de funcionários e requalificaçãoDe olho na IA, AMD anuncia mais de US$ 10 bi em investimentos em TaiwanAporte mira expansão de capacidade em parceria com fabricantes locais e atende demanda crescente de data centersNa quarta-feira, a Meta cortou 10% de sua força de trabalho, ou cerca de 8 mil pessoas, citando mais uma mudança de estratégia em direção à IA. A empresa se somou a Intel, Cisco, Amazon e outras gigantes de tecnologia que já demitiram milhares de funcionários, com executivos alegando que a tecnologia trouxe ganhos significativos de eficiência.Dario Amodei, cofundador da startup de IA Anthropic, chegou a prever que cerca de metade dos empregos de escritório pode desaparecer nos próximos cinco anos. Embora outros líderes do setor discordem dessa estimativa, quase todos concordam que a tecnologia substituirá humanos em áreas como comunicação, direito e engenharia num futuro próximo.Governos em vários países vêm reagindo às perdas de postos de trabalho ligadas à IA com diferentes medidas e experiências. Na China, que hoje tem desemprego juvenil de 17%, tribunais decidiram a favor de trabalhadores que processaram ex‑empregadores em busca de compensação após serem substituídos por IA.Inglaterra, Japão e Coreia do Sul têm discutido modelos de renda básica universal, em que o Estado paga um valor fixo regular aos cidadãos para compensar choques no mercado de trabalho. Nos Estados Unidos, alguns parlamentares democratas também levantaram propostas de projetos‑piloto semelhantes.Líderes de tecnologia como Elon Musk, da Tesla e SpaceX, e Sam Altman, da OpenAI, já disseram que uma renda básica universal pode ser necessária. Musk argumenta que o ganho de produtividade trazido pela IA deve gerar uma abundância de recursos fiscais para governos, que poderiam compensar pessoas que perderem o emprego para a tecnologia.“Uma RENDA ALTAMENTE BÁSICA, via cheques emitidos pelo governo federal, é a melhor forma de lidar com o desemprego causado pela IA”, escreveu Musk em uma postagem no mês passado.Embora a ordem de Newsom trate de estudar caminhos e não de implementar medidas imediatas, a Califórnia já se destaca entre os estados na regulação de IA. Foi o primeiro a aprovar uma lei abrangente de segurança para grandes modelos de linguagem, como o ChatGPT, da OpenAI, o Gemini, do Google, e o Claude, da Anthropic. Recentemente, Newsom também assinou uma ordem executiva determinando que empresas com contratos de IA com o Estado passem por filtros de segurança e privacidade.A Califórnia e outros estados vêm ocupando um vácuo de regulação federal, já que a Casa Branca, em grande parte, tem dado liberdade às empresas diante da corrida global de IA com a China. Isso pode mudar após o lançamento do Mythos, novo modelo de alto desempenho da Anthropic, que levou assessores da Casa Branca a considerar uma ordem executiva exigindo testes de segurança para novos modelos.Em discurso nesta semana em um evento do Center for American Progress — think tank e grupo de advocacy de centro‑esquerda —, Newsom disse se preocupar com o fato de empresas receberem incentivos fiscais enquanto trabalhadores continuam arcando com impostos sobre salários. Na visão dele, benefícios tributários para companhias que automatizam e demitem funcionários enriquecem as empresas e punem duas vezes os trabalhadores.A ordem não menciona explicitamente uma reforma tributária, mas a equipe do governador afirmou que esse tipo de mudança poderá ser considerado à medida que os órgãos estaduais desenharem novos marcos trabalhistas ligados à IA.Para Newsom, a tendência é de um fosso cada vez maior entre empresas de IA e trabalhadores, à medida que o setor se torna altamente lucrativo e a mão de obra é deixada para trás. Na ordem, o governador pede que os órgãos do Estado estudem formas de fortalecer a negociação coletiva dos sindicatos como ferramenta para reduzir essa distância.“As empresas vão ganhar uma fortuna, e é por isso que não dá para manter um sistema de impostos sobre folha que tributa empregos e, ao mesmo tempo, subsidia a automação”, disse Newsom no discurso.c.2026 The New York Times CompanyThe post Califórnia quer “reimaginar” sistema de trabalho diante de risco de demissões por IA appeared first on InfoMoney.
