Depois de anos em que o mundo corporativo celebrou juventude, carreiras meteóricas e líderes precoces, um movimento inverso começa a ganhar força no topo das empresas americanas. A experiência voltou ao centro da mesa.Estudo do National Bureau of Economic Research (NBER) analisou 50.500 CEOs entre 2000 e 2023 e identificou uma mudança relevante: a idade média dos principais executivos nos Estados Unidos subiu de 51 para 61 anos. Já a idade média no momento da nomeação para o cargo avançou de 48 para 55 anos.Os números sugerem que, diante de um ambiente de negócios mais complexo e incerto, empresas passaram a valorizar repertório acumulado, visão integrada e capacidade de decisão sob pressão.O culto à juventude perdeu forçaDurante muito tempo, o imaginário empresarial foi moldado por jovens fundadores de startups e empresas de tecnologia, com executivos sendo promovidos cedo ao comando. A inovação parecia inseparável da pouca idade.Esse paradigma começa a ser revisto.Hoje, liderar uma companhia exige lidar simultaneamente com inteligência artificial, mudanças regulatórias, reputação pública, geopolítica, transformação digital e gestão de equipes híbridas. Em cenários assim, velocidade importa — mas julgamento também.Leia também:Quais as habilidades mais exigidas no mercado de trabalho? Técnica já não basta; vejaFalta sucessor prontoA valorização de executivos mais experientes também expõe um gargalo interno: a dificuldade de formar novas lideranças.Pesquisa da Robert Half mostra que 78% dos executivos temem a falta de sucessores preparados para sustentar os negócios nos próximos anos. Entre companhias abertas, 56% combinam talentos internos e externos em seus planos sucessórios, enquanto 36% dependem apenas de talentos internos.Na prática, muitas empresas recorrem a líderes mais maduros porque o banco de reservas ainda não está pronto.Leia também:Liderar à distância: o novo desafio dos gestores na era do trabalho híbridoO que as equipes esperam de um líderA preferência por perfis experientes também dialoga com mudanças no comportamento dos trabalhadores.Levantamento global da Hogan Assessments mostra que, no Brasil, equipes valorizam em seus líderes: 72% comunicação cuidadosa; 69% aprendizado contínuo; 61% colaboração e pertencimento e 57% decisões baseadas em dados.Essas competências não pertencem automaticamente a nenhuma faixa etária, mas costumam ser fortalecidas por vivência longa, erros acumulados, crises enfrentadas e múltiplos contextos profissionais.Leia também:O novo trabalhador brasileiro: mais qualificado, mais diverso — e mais pressionadoO mercado quer generalistasO próprio estudo do NBER aponta que empresas passaram a buscar líderes com habilidades generalistas — profissionais capazes de integrar áreas distintas, navegar em um oceano de incertezas e tomar decisões fora do manual.Isso ajuda a explicar por que carreiras mais longas ganham valor. Em muitos casos, o tempo deixou de ser apenas passagem cronológica e virou ativo estratégico.Leia também:Profissionais de atacado e varejo têm maiores riscos de burnout, aponta estudoA nova fase dos 60+O fenômeno também reescreve a noção de carreira executiva. Para muitos profissionais, os 60 anos deixam de representar saída natural do comando e passam a marcar o auge da influência.Assim, em vez de aposentadoria precoce, cresce o espaço para CEOs, conselheiros, mentores e executivos seniores em posições estratégicas.Leia também:Com a volta aos escritórios ganhando força, modelo híbrido virou benefícioExperiência como vantagem competitivaOutro sinal dessa mudança aparece no ranking recente do LinkedIn sobre habilidades mais demandadas no mercado: gestão, comunicação e liderança ocupam o topo da lista, à frente de competências estritamente técnicas.Isso sugere que empresas buscam menos brilho individual e mais capacidade de coordenar pessoas, prioridades e incertezas.A ascensão dos sessentões no topo das empresas americanas não é nostalgia. É pragmatismo.Em tempos difíceis, organizações tendem a valorizar quem já viu ciclos virarem, mercados mudarem e crises passarem.Porque, em muitos casos, experiência não é passado. É vantagem competitiva.Leia também:IA redefine o valor do trabalho humano e exige aprendizado contínuo nas empresasThe post CEOs estão ficando mais velhos — e isso diz muito sobre o novo mundo corporativo appeared first on InfoMoney.
