A China deixou de ser vista apenas como a “fábrica do mundo” e passou a ocupar uma posição central na nova economia global. Com escala industrial, avanço tecnológico e alta capacidade de execução, o país vem ampliando sua presença em setores estratégicos, como energia limpa, veículos elétricos, baterias, painéis solares e cadeias produtivas globais.Esse movimento já se reflete nos números. Com um superávit comercial que alcança cerca de US$ 1,5 trilhão — o maior da história —, a China reforça sua capacidade de influenciar preços, fluxos de investimento e decisões industriais ao redor do mundo.A ascensão do país, no entanto, vai além do comércio exterior. Trata-se de uma transformação estrutural baseada em planejamento de longo prazo, mercado interno competitivo, escala industrial e, principalmente, velocidade de execução — fatores que ajudam a explicar seu protagonismo crescente e a intensificação da disputa estratégica com os Estados Unidos.Para Ricardo Geromel, especialista em China e autor do livro O Poder da China, e Jorge Hargrave, diretor da Maraé Investimentos, entender essa dinâmica é essencial para interpretar os movimentos da economia global nos próximos anos.As declarações foram feitas no programa O Clima na Faria Lima, do InfoMoney, apresentado por Marina Cançado.Leia tambémDólar virou o maior risco para o Brasil, diz Bank of AmericaA mudança de sentimento do investidor estrangeiro foi rápida demais, e cenário pode piorar se o dólar desandar, alerta estrategista do banco: “imagina a inflação se o câmbio não estivesse perto dos R$ 5”De “fábrica do mundo” à fronteira tecnológicaA mudança mais evidente está na qualidade e sofisticação da produção chinesa. O país deixou de ser apenas um polo de manufatura barata para competir diretamente em tecnologia, muitas vezes com vantagem de custo.Hoje, produtos chineses já não carregam o estigma de baixa qualidade. Pelo contrário! Em diversos setores, combinam preço competitivo com desempenho superior. Uma dinâmica que tem pressionado concorrentes globais.Esse avanço é impulsionado por um mercado doméstico altamente competitivo, onde empresas disputam escala e eficiência em níveis difíceis de replicar em outras economias.Saiba mais: Brasil tem trunfos para liderar nova era global, mas precisa de decisões corajosas Execução como diferencial estruturalSe há um ponto que chama atenção de investidores e executivos que visitam o país, é a velocidade de execução. “O principal aprendizado foi a capacidade de realização do povo chinês”, afirma Hargrave.Essa característica aparece tanto em projetos históricos quanto em transformações recentes, como a rápida eletrificação da frota e a urbanização acelerada. Em poucos anos, mudanças que levariam décadas em outras regiões são implementadas em larga escala, com coordenação entre governo e iniciativa privada.Transição energética guiada por necessidadeA liderança da China na agenda de energia limpa também segue uma lógica pragmática. Diferentemente do discurso mais ideológico, observado em parte do Ocidente, o movimento chinês foi motivado por necessidades internas.De um lado, havia um problema crítico de poluição urbana, que afetava diretamente a qualidade de vida da população. De outro, a dependência energética externa pressionava o país a buscar alternativas.Segundo Geromel, cerca de 74% do petróleo consumido pela China é importado. Um fator central para a estratégia de transição energética. A resposta foi uma política coordenada para eletrificação e expansão de energias renováveis, combinando escala industrial e incentivo à inovação.Leia também: Brasil pode ser essencial na nova ordem mundial, mas deve agir já, diz ex-ministraEscala e planejamento criam liderança globalO resultado dessa estratégia é visível: a China construiu vantagem competitiva em setores-chave da transição energética. O país reduziu drasticamente os custos de produção de tecnologias como painéis solares e hoje domina cadeias produtivas globais nesses segmentos. Essa liderança também se estende a baterias e veículos elétricos, formando um ecossistema integrado que reforça sua posição global.Disputa com os EUA já está em cursoO avanço chinês tem provocado reação direta dos Estados Unidos, especialmente em setores considerados estratégicos. “Existe uma guerra que já é real: Estados Unidos e China”, afirmou Geromel.Embora ainda não seja um confronto militar, o embate envolve tarifas, restrições tecnológicas e tentativas de contenção do avanço chinês. A tendência é de intensificação, à medida que a China amplia sua presença global.Narrativa climática divide o debateNo campo ambiental, a China também está no centro de uma disputa de narrativas. Apesar de ser o maior emissor global em termos absolutos, análises que consideram emissões per capita e histórico de poluição ajudam a relativizar parte das críticas ao país.Ao mesmo tempo, a China se consolidou como um dos principais fornecedores de soluções para descarbonização, reforçando seu papel central na transição energética global.Um ator central na nova economia globalMais do que a antiga “fábrica do mundo”, a China se consolidou como um agente capaz de moldar tendências globais em tecnologia, energia, indústria e comércio.Com capacidade de execução, planejamento estratégico e escala, o país deve seguir no centro das transformações econômicas nos próximos anos. Para investidores e empresas, entender essa dinâmica deixou de ser opcional e passou a ser essencial.The post China deixa de ser só “fábrica do mundo” e desafia os EUA na nova economia global appeared first on InfoMoney.
