Como a proibição das bets no Brasil pode impactar as ações da B3?

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O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou nesta sexta-feira (25)  a Medida Provisória que proíbe as bets no país, o que também deve gerar impacto para as empresas de varejo e consumo da Bolsa brasileira. A medida provisória proíbe as operações de apostas online no Brasil menos de dois anos depois de o governo ter implementado um marco regulatório que permitia a atuação do setor. A medida entra em vigor imediatamente, mas precisa ser aprovada pelo Congresso em até 120 dias para continuar valendo.A repressão ao setor reflete a crescente preocupação do governo de que o aumento dos gastos com jogos de azar tenha reduzido os orçamentos das famílias e contribuído para níveis recordes de endividamento. Pesquisas recentes mostraram que cerca de três quartos dos brasileiros apoiam uma proibição total das apostas online.Segundo relatório do BTG Pactual, o setor de apostas movimenta um mercado que alcançou cerca de R$ 36,9 bilhões em receita bruta de jogos (GGR) em 2025, tornando-se um competidor relevante pela renda das famílias brasileiras.O banco destaca que aproximadamente 25,2 milhões de brasileiros participaram de apostas em 2025 e que parte importante desse crescimento ocorreu em um contexto de famílias já pressionadas por elevado endividamento.Leia tambémBets vão recorrer à Justiça e querem ser ressarcidas por investimentos feitos no paísDesde a regulamentação, anunciada em 2023, União já arrecadou R$ 2,5 bilhões com taxas de outorgaNa visão do BTG, mesmo que apenas uma parcela dos recursos atualmente direcionados às apostas retorne ao consumo tradicional ou ao pagamento de dívidas, o impacto pode ser relevante para alguns segmentos do varejo. O banco ressalta, porém, que parte desse dinheiro pode migrar para operadores ilegais, reduzindo o efeito esperado sobre a economia formal.Para Raphael Monteiro, sócio da Finscale, o primeiro reflexo das medidas pode aparecer não necessariamente nas vendas, mas na melhora da saúde financeira das famílias.“No primeiro momento, bancos, financeiras e varejistas com operação de crédito podem perceber melhora na capacidade de pagamento antes de observar crescimento expressivo das vendas”, afirma.O especialista destaca que o benefício potencial alcançaria varejistas de tíquete baixo, redes de alimentação, farmácias e empresas ligadas ao entretenimento, embora o efeito dependa da efetividade das medidas de fiscalização.Na mesma linha, Breno Grou, CEO da Sinter Futura, avalia que a recomposição do orçamento familiar tende a favorecer inicialmente o consumo essencial.“Parte desse dinheiro pode voltar para o consumo, sobretudo de itens básicos, enquanto outra parcela pode ser usada para pagar dívidas. Por isso, o impacto tende a ser mais imediato no consumo essencial e mais gradual no varejo discricionário”, afirma.As restrições às bets podem favorecer gradualmente companhias ligadas ao consumo essencial e operações de crédito, caso contribuam para aliviar a pressão sobre o orçamento das famílias. O próprio BTG Pactual destaca que parte dos recursos atualmente destinados às apostas poderia migrar para consumo e amortização de dívidas, especialmente entre consumidores de menor renda.Sinais no 2T26As bets passaram a aparecer de forma mais explícita no discurso das empresas brasileiras como um recente concorrente pelo orçamento das famílias, sobretudo em um momento em que juros elevados, endividamento e menor espaço para consumo discricionário já pressionam o varejo. Em relatório do fim de agosto que reuniu as principais mensagens dos resultados do segundo trimestre de 2026 (2T26), o Goldman Sachs destaca que o mercado de apostas passou a capturar uma parcela crescente da carteira do consumidor, ao lado de categorias como medicamentos, reduzindo o espaço disponível para gastos em outros segmentos.Entre as companhias da B3, o alerta mais direto veio do Magazine Luiza (MGLU3). Na divulgação do 2T26, a varejista classificou o ambiente econômico como complexo e manifestou preocupação com as apostas esportivas, apontadas como um fator que estaria drenando renda disponível das famílias que poderia ser destinada ao consumo no varejo. A questão é especialmente relevante para empresas de bens duráveis, já pressionadas pela combinação de juros elevados e alto endividamento. O Grupo Casas Bahia (BHIA3), por exemplo, também chamou atenção para a disputa por qualquer espaço disponível no orçamento dos consumidores, embora o relatório não atribua à companhia uma menção específica às bets.O tamanho adquirido pelas apostas ajuda a dimensionar essa competição. Pelos cálculos do Goldman Sachs, o Brasil já era o quinto maior mercado de apostas do mundo, de R$ 37 bilhões em receita bruta de jogos, o chamado GGR, em 2025. Considerando os prêmios distribuídos, o banco calcula cerca de R$ 221 bilhões em depósitos totais em apostas no período. O relatório estimou ainda que as bets tenham passado de apenas 0,3% do consumo mensal das famílias em 2018 para 4,4% em 2025, enquanto categorias como habitação, vestuário e transporte perderam participação.Para as empresas listadas na B3, o impacto potencial não era necessariamente uniforme. Os comentários do 2T26 mostraram maior pressão justamente nos segmentos que dependem de renda discricionária e de consumidores mais sensíveis ao crédito. No varejo alimentar, o Assaí (ASAI3) reportou crescimento fraco das vendas mesmas lojas, em meio ao movimento de downtrading (migrar para opções mais baratas para economizar dinheiro) provocado pela restrição do poder de compra. Em vestuário, Lojas Renner (LREN3) e C&A (CEAB3) reconheceram as incertezas relacionadas ao consumo, enquanto a Natura (NATU3) apontou pressão sobre os gastos das famílias e alguma migração para produtos mais baratos no mercado. Nessas companhias, contudo, o Goldman Sachs não atribui diretamente às bets a deterioração reportada, tratando as apostas como um dos elementos mais amplos da redistribuição do orçamento do consumidor.(com Reuters)The post Como a proibição das bets no Brasil pode impactar as ações da B3? appeared first on InfoMoney.

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