TÓQUIO — Pouco depois de as tropas invadirem a Ucrânia, em fevereiro de 2022, líderes ocidentais expulsaram centenas de espiões russos de suas capitais e colocaram vetaram empresas com vínculos com o Kremlin.O esforço coordenado tinha como objetivo dificultar que o Kremlin coletasse inteligência e comprasse equipamentos como microchips, transmissores e maquinário usado para fabricar armas.Desde então, segundo autoridades, dezenas desses espiões expulsos reapareceram em um lugar inesperado: o Japão.Leia tambémGuerra na Ucrânia eleva demanda por dinheiro e BC local lança cédula de 2.000 hryvniaVolume de dinheiro em circulação no país mais que dobrou, passando de quase UAH 390 bilhões em 2019 para mais de UAH 970 bilhões em 1º de julho de 2026.As leis frágeis do país contra espionagem e sua pujante indústria de alta tecnologia o transformaram em uma peça crucial no esforço de guerra russo. Cerca de 90% dos mísseis e drones russos contêm componentes japoneses, segundo estimativas do governo ucraniano.No centro da operação em Tóquio está uma unidade secreta da inteligência militar russa conhecida como 20ª Diretoria, cuja função jamais havia sido divulgada publicamente. Disfarçados de diplomatas ou empresários, seus agentes trabalham para comprar ou roubar tecnologia de uso militar e contrabandeá-la para a Rússia, de acordo com atuais e ex-integrantes de cinco agências de inteligência ocidentais.O homem que supervisiona a operação da 20ª Diretoria em Tóquio mantém como fachada a identidade de funcionário da companhia aérea estatal russa Aeroflot, segundo autoridades atuais de quatro dessas agências de inteligência. Ele desempenha um papel crucial no abastecimento da máquina de guerra russa.Entrada do escritório da Aeroflot em Tóquio, em julho. Espiões da GRU usam cargos na Aeroflot como fachada desde a era soviética. Crédito: Chang W. Lee/The New York TimesO impacto desse esforço fica claro nos ataques noturnos a cidades ucranianas e no desgaste do campo de batalha. Quatro anos após o início de uma guerra que matou centenas de milhares de pessoas e apagou cidades inteiras do mapa, a Rússia persiste em parte, dizem autoridades, por continuar tendo acesso a tecnologias como as que adquire no Japão.Depois que um míssil de cruzeiro russo Kh-101 destruiu um edifício residencial em Kiev, capital da Ucrânia, e matou ao menos 24 pessoas em maio, investigadores vasculharam os destroços. Eles descobriram que o míssil havia sido guiado por componentes japoneses cuja exportação para a Rússia é amplamente proibida, segundo uma avaliação ucraniana.Com base em documentos confidenciais de governos, registros corporativos e entrevistas com dezenas de autoridades de inteligência e governo em três continentes, o The New York Times começou a reconstruir como a 20ª Diretoria opera e o papel crucial desempenhado por sua base em Tóquio no apoio à guerra travada pelo presidente russo, Vladimir Putin, contra a Ucrânia. A maioria das autoridades falou sob condição de anonimato, porque não estava autorizada a divulgar informações de inteligência publicamente.O escritório da Proco Air fica no sexto andar deste edifício, em Tóquio. A empresa se apresenta como uma “ponte entre Japão e Rússia”. Crédito: Chang W. Lee/The New York TimesAutoridades ucranianas apresentaram ao Japão evidências de que sua tecnologia está sendo usada em ataques russos, segundo documentos e entrevistas. Mas o governo japonês, apesar de seu apoio vocal à Ucrânia, demorou a agir.O Japão há muito é conhecido como um paraíso para espiões, em parte por causa das limitações impostas no pós-Segunda Guerra Mundial, criadas pelos vencedores do conflito, que mantêm fracos os serviços de inteligência do país. O Japão sequer possui uma agência de inteligência estrangeira. Autoridades dizem reconhecer a ameaça da espionagem e trabalhar para remover restrições antigas à atividade de inteligência.“Temos um senso de crise em relação a essa situação”, disse Akihisa Shiozaki, parlamentar do governista Partido Liberal Democrata e ex-promotor de casos de espionagem industrial.Agência Nacional de Polícia, em Tóquio. O escritório da Aeroflot fica a 10 minutos de caminhada dali. Crédito: Chang W. Lee/The New York TimesO Ministério das Relações Exteriores do Japão não respondeu a perguntas detalhadas sobre espionagem, mas afirmou que o governo trabalhou com aliados ocidentais para proibir a exportação de itens ligados ao setor militar para a Rússia.“A agressão da Rússia contra a Ucrânia é um ato ultrajante que abala os próprios alicerces da ordem internacional”, disse o ministério em nota escrita.Ainda assim, espiões russos parecem estar operando praticamente diante das autoridades japonesas.O escritório da Aeroflot em Tóquio fica a 10 minutos a pé da sede da Agência Nacional de Polícia, responsável por investigar espionagem. Autoridades de inteligência ocidentais dizem que é ali, no escritório da companhia aérea, no 22º andar, que o homem da 20ª Diretoria em Tóquio coordena sua operação letal.Seu nome é Maksim Vladimirovich Filchenkov.Um espião chega a TóquioA Rússia precisava desesperadamente de componentes de alta tecnologia quando Filchenkov, 49, assumiu seu posto em Tóquio em fevereiro de 2024. A guerra na Ucrânia vinha mudando de batalhas de artilharia ao estilo da Primeira Guerra Mundial para uma guerra de drones, e os ucranianos estavam ganhando vantagem tecnológica.Para continuar lutando, a Rússia precisava complementar seu poderio convencional com novas tecnologias. A China podia ajudar, mas, para os armamentos mais avançados das Forças Armadas, não havia substituto para equipamentos de alta tecnologia, máquinas-ferramenta e outros componentes que muitas empresas haviam sido proibidas de vender à Rússia.É aí que entra Filchenkov, um veterano da agência de inteligência militar russa, a GRU. Com uma passagem anterior pelo Japão, disseram autoridades de inteligência, ele tinha a experiência necessária para localizar os equipamentos e enviá-los à Rússia.Filchenkov começou a desenvolver relações com empresas de logística que transportam mercadorias do Japão para a Rússia, segundo registros comerciais e entrevistas. Autoridades ocidentais alertaram o Japão de que relações desse tipo ajudam agentes da GRU a comprar tecnologia sensível sob falsos pretextos e enviá-la para a Rússia, às vezes usando documentos de embarque falsificados.Autoridades atuais e antigas da inteligência dizem que é justamente nisso que a 20ª Diretoria se destaca. Embora a história da unidade não esteja clara, elas afirmam que ela já existia antes da guerra na Ucrânia. Desde o início do conflito, dizem, o grupo tornou-se peça central no esforço do Kremlin para obter tecnologia militar.Espiões da GRU usam empregos na Aeroflot como cobertura desde a era soviética, enquanto buscavam tecnologia ocidental.A entrada do escritório da Aeroflot em Tóquio parece a porta de uma prisão, com uma estreita abertura de janela e uma campainha. Uma mulher de meia-idade, com cabelo cor de palha e um crucifixo ortodoxo russo no pescoço, atendeu à porta no início deste ano. Pareceu surpresa com a visita.Filchenkov, disse a mulher, não estava. Ela não soube dizer quando ele voltaria.A Aeroflot não está especificamente na lista negra do Japão, mas, na prática, deixou de operar ali porque não consegue obter peças e serviços necessários no país.Os parceiros oficiais da Aeroflot, porém, continuam ativos.Um deles, a Proco Air, se anuncia como uma “ponte entre Japão e Rússia”. A Proco aluga espaço de carga em companhias aéreas que voam para países onde a Aeroflot opera, como Sri Lanka ou Uzbequistão. A Aeroflot recolhe a carga nesses locais e a leva para a Rússia. Não há nada de ilegal — nem mesmo incomum — nisso. Ainda há muitos produtos que podem ser enviados para a Rússia, e parcerias como essa permitem que isso aconteça.Mas autoridades de inteligência ocidentais afirmam que arranjos assim também são essenciais para as operações da 20ª Diretoria.O Japão é o maior exportador mundial da sensível tecnologia de uso dual que o Kremlin busca, mostram registros de embarque. Os contrabandistas não precisam levar esses equipamentos diretamente para a Rússia; basta enviá-los a algum lugar disposto a revendê-los aos russos.O maior destino da tecnologia sensível japonesa, por exemplo, é o Vietnã, que por sua vez é o maior exportador desse tipo de tecnologia para a Rússia.A Proco Air fica na zona portuária industrial de Tóquio, a 20 minutos de carro do escritório da Aeroflot. Filchenkov também não estava lá, mas o dono da empresa, Takehiko Miki, e sua esposa aceitaram conversar.Miki, que é japonês, disse que conheceu Filchenkov por volta de 2018, mas só começou a trabalhar com ele de forma mais intensa quando ele voltou a Tóquio seis anos depois. A esposa de Miki descreveu o parceiro de negócios russo como um homem sisudo, que só mostrava seu “lado profissional”.No ano passado, Takehiko Miki entrou em contato com um associado baseado na China que havia sido apresentado a ele por Filchenkov, segundo duas pessoas com conhecimento direto do episódio. Miki pediu especificamente ajuda para transportar itens que reconheceu serem proibidos de ser enviados à Rússia, disseram essas pessoas.Na entrevista e em comunicações posteriores, Miki negou saber que Filchenkov tinha vínculos com a inteligência russa. Também negou enfaticamente ter buscado ajuda para transportar itens proibidos para a Rússia. A Proco Air envia apenas mercadorias autorizadas, afirmou ele, “principalmente equipamentos médicos e alguns cosméticos”.Como prova, pediu à esposa que trouxesse uma cópia de um conhecimento aéreo recente. Antes de entregá-lo, Takehiko Miki tentou cobrir com uma caneta os nomes das empresas envolvidas.O documento corroborava sua alegação. Ele mostrava um envio de equipamentos médicos para a Rússia em 12 de março, via Sri Lanka.Mas a tentativa de ocultação não funcionou, e o documento revelou que Miki fazia negócios com uma empresa ligada ao Kremlin. O papel identificava claramente o destinatário como R-Pharm, farmacêutica de Moscou.A R-Pharm não está sob sanções, mas seu fundador, Aleksei Repik, foi sancionado por Austrália, Reino Unido e Canadá — embora não pelo Japão — por seus extensos laços com Putin. Repik apareceu repetidamente ao lado de Putin e relatou esforços para apoiar a guerra, incluindo uma reunião em maio de 2025 em que descreveu a mobilização de empresas russas para “fornecer apoio sem precedentes à frente de batalha”.“Acho que agora é importante expressar, da parte de todos os empresários russos, nosso enorme agradecimento aos defensores da pátria”, disse Repik no ano passado.A Proco Air não foi acusada de qualquer irregularidade, e Miki afirmou que as autoridades japonesas nunca o procuraram a respeito de seus embarques. Ele disse nunca ter “facilitado conscientemente transporte para qualquer pessoa sancionada”.Alertas diplomáticosGovernos estrangeiros têm alertado repetidamente o Japão de que sua tecnologia está sendo contrabandeada para a Rússia.Em um único mês, abril de 2025, a Ucrânia enviou ao menos oito cartas diplomáticas formais ao Ministério das Relações Exteriores do Japão sobre o tema. As mensagens detalhavam evidências de componentes japoneses em armas e equipamentos militares russos recuperados após ataques a civis.Ao longo do ano, foram enviadas aproximadamente mais oito notas diplomáticas, disse uma autoridade ucraniana. As cartas traziam listas e fotos de dezenas de componentes japoneses recuperados, incluindo placas de circuito, transmissores e semicondutores. Repórteres do Times examinaram uma dessas cartas, na qual se dizia que componentes japoneses haviam sido encontrados em mísseis balísticos.“Espero que levem essas informações em consideração ao avaliar novas restrições contra a Rússia, ou ao reforçar o controle de exportações de bens e tecnologias sensíveis para países terceiros”, dizia a carta enviada a autoridades do Ministério das Relações Exteriores do Japão.A Ucrânia forneceu ao Japão listas de componentes recuperados que haviam sido fabricados por algumas das maiores empresas japonesas: Nippon Electric Corp., Panasonic, Toshiba e outras. Não havia evidência nesses documentos de que as companhias tivessem vendido conscientemente seus produtos à Rússia, em vez de tê-los enviado a outros países, de onde depois foram revendidos.Todas as empresas negaram irregularidades e disseram estar comprometidas com o cumprimento das sanções econômicas e restrições comerciais do Japão. A Nippon afirmou que os componentes elétricos identificados pela Ucrânia eram antigos e não eram vendidos pela companhia havia anos.O Ministério da Economia, Comércio e Indústria disse ter emitido alertas a empresas e grupos industriais sobre tentativas de burlar sanções. O órgão também colocou na lista negra dezenas de entidades estrangeiras suspeitas de ajudar a Rússia a contornar proibições de exportação.Autoridades ocidentais, além das ucranianas, alertaram o governo japonês sobre os esforços da inteligência russa para obter tecnologia do país. Também forneceram às autoridades japonesas informações sobre a rede de empresas, incluindo a Proco, que autoridades de inteligência suspeitavam estar ajudando espiões a enviar mercadorias sancionadas à Rússia, segundo duas pessoas familiarizadas com as conversas.Embora não tenham agido contra Filchenkov, as autoridades japonesas tampouco se mostraram indiferentes à causa ucraniana. No dia em que Putin lançou a invasão, o Japão se juntou aos Estados Unidos e à União Europeia para impor sanções. Depois, rompeu com precedentes do pós-Segunda Guerra e começou a enviar ajuda militar, como coletes à prova de balas e capacetes, à Ucrânia.Sob a premiê Sanae Takaichi, o país iniciou um ambicioso programa para reforçar suas capacidades de inteligência, em parte para impedir melhor exportações ilegais e frustrar ações de espionagem.Em janeiro, a polícia de Tóquio anunciou ter descoberto um agente russo que se passou por ucraniano e tentou roubar segredos comerciais de um trabalhador japonês. Na ausência de legislação específica sobre espionagem, a polícia abriu um caso contra o trabalhador por violação das leis de concorrência. O espião havia deixado o Japão muito antes de as acusações serem apresentadas.Quando repórteres do Times voltaram ao escritório da Aeroflot uma segunda vez, Filchenkov novamente não estava disponível. Mensagens enviadas para suas contas no Telegram e por e-mail não foram respondidas.Numa terceira visita, a mulher que atendeu à porta concordou em telefonar para ele.O escritório estava abarrotado de grandes arquivos, cada um deles com uma maquete de avião da Aeroflot em cima. As persianas estavam fechadas. A mulher parecia ser a única pessoa no local.Depois de uma breve conversa telefônica em russo, ela voltou. Filchenkov, disse, não queria falar.c.2026 The New York Times CompanyThe post Como Putin transformou o Japão em um covil de espiões appeared first on InfoMoney.
