Uma crise diplomática está dificultando a cooperação entre Estados Unidos e Brasil no combate conjunto ao crime organizado, segundo autoridades americanas e brasileiras, um tema que o governo Trump colocou no centro de sua agenda para o Hemisfério Ocidental.O Departamento de Estado dos EUA está segurando a concessão de vistos para dois agentes da Polícia Federal brasileira designados para postos nos Estados Unidos, onde trabalhariam junto ao Homeland Security Investigations e a outras agências federais americanas no combate a crimes transnacionais. A informação é de um americano e três autoridades brasileiras de alto escalão que falaram sob condição de anonimato por não estarem autorizados a se manifestar publicamente.Em resposta, o Brasil também passou a bloquear o visto de um agente de segurança pública dos EUA que seria designado para trabalhar no país, segundo as mesmas fontes americana e brasileiras.O governo americano, alegando agenda ocupada, também recusou um pedido de visita de agentes da Receita Federal e da Aduana brasileira que investigam lavagem de dinheiro e contrabando de armas ligados a facções internacionais do narcotráfico, de acordo com outras duas autoridades brasileiras.Brasil e Estados Unidos têm uma longa história de investigações conjuntas sobre crimes internacionais, como fraude e tráfico, além do envio recíproco de agentes de segurança pública. A agência de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) mantém um adido no Brasil há mais de duas décadas.No passado, ações conjuntas entre os dois países ajudaram autoridades a desmantelar esquemas internacionais de corrupção, redes de pirataria e organizações de tráfico de pessoas.Esse tipo de cooperação estreita, segundo especialistas, tem se tornado cada vez mais essencial no combate às facções do narcotráfico na América Latina, que hoje contam com mais recursos e alcance geográfico do que nunca.“Hoje, as facções criminosas não conhecem fronteiras”, disse Edvandir Felix de Paiva, presidente da associação de delegados da Polícia Federal do Brasil. “Por isso, precisamos trabalhar juntos.”Agentes da Receita Federal do Brasil preparam um drone para um voo em uma área sob controle do órgão no Porto de Santos, em 29 de janeiro de 2026. Um impasse diplomático está prejudicando a cooperação entre os Estados Unidos e o Brasil no combate conjunto ao crime organizado — uma questão que o governo Trump colocou no centro de sua agenda para o Hemisfério Ocidental —, segundo autoridades americanas e brasileiras. (Mauricio Lima/The New York Times)As recentes interrupções na cooperação, reveladas agora pela primeira vez, ocorrem em um contexto de relações já desgastadas ao longo do último ano, decorrentes de tentativas do presidente americano, Donald Trump, de interferir em assuntos internos do Brasil. O atrito se aprofundou nos últimos meses diante da aparente disposição do governo americano em ajudar Flávio Bolsonaro, candidato de direita que disputa a eleição de outubro no Brasil contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de esquerda.O combate a facções criminosas transnacionais tornou-se prioridade máxima para o governo Trump, que uniu forças com países latino-americanos liderados por governantes conservadores nessa frente. Mas o desgaste diplomático pode estar comprometendo a cooperação entre Estados Unidos e Brasil, as duas nações mais populosas do hemisfério.“A percepção é que a política de segurança dos EUA em relação ao Brasil ficou contaminada pela política”, disse Robert Muggah, especialista em segurança e diretor de pesquisa do Instituto Igarapé, entidade de pesquisa sediada no Brasil. “Isso não levou a uma ruptura definitiva”, acrescentou, “mas introduziu novas complexidades na relação e a permeou de desconfiança.”O Departamento de Estado dos EUA não comentou detalhes sobre os vistos, mas afirmou em nota que o governo Trump está protegendo “a nação e seus cidadãos ao manter os mais altos padrões de segurança nacional e segurança pública em nosso processo de concessão de vistos”. A pasta acrescentou que continuará trabalhando com o Brasil para avançar em “interesses compartilhados de longa data”.A Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP) disse, em nota, estar comprometida em manter diálogo com autoridades brasileiras para avançar em “metas de segurança e combate ao crime transnacional”.A Polícia Federal brasileira e o Itamaraty não comentaram o assunto. O ministério, responsável pela supervisão da agência que cuida de alfândega, receita e controle de fronteiras do país, disse que os dois países mantêm diálogo voltado à troca de boas práticas e ao combate ao crime transnacional.Os dois agentes da Polícia Federal que ainda não obtiveram os vistos estavam previstos para assumir seus postos em Miami e Nova York no mês passado, segundo as autoridades brasileiras. Eles já haviam sido selecionados e aprovados por autoridades dos dois países no início do ano, como parte de uma renovação de quadros de rotina, afirmou uma das fontes.Um dos adidos policiais substituiria Marcelo Ivo de Carvalho, expulso dos Estados Unidos em abril, após ser acusado pelo governo Trump de sofrer uma “perseguição política” em razão de seu papel na prisão de um ex-chefe da inteligência brasileira. O ex-chefe havia fugido para os Estados Unidos depois de ser condenado por planejar um golpe de Estado no Brasil ao lado do ex-presidente Jair Bolsonaro.Bolsonaro, aliado de Trump, cumpre pena de 27 anos por sua tentativa de se manter no poder. Em resposta à expulsão de Carvalho, o Brasil revogou as credenciais de um agente de segurança pública dos EUA que atuava em Brasília, a capital do país.Em outra medida de reciprocidade, o Brasil agora está segurando o visto do substituto desse agente americano até que seus próprios adidos policiais sejam autorizados a assumir seus postos nos EUA, segundo duas autoridades brasileiras de alto escalão. As autoridades dos dois países ainda negociam a questão dos vistos, afirmaram fontes americanas e brasileiras.Uma equipe de quase uma dezena de agentes da Receita Federal e Aduana do Brasil também solicitou, em junho, visitar seus equivalentes americanos em Washington, dentro de um esforço recente para ampliar a cooperação no combate à lavagem de dinheiro e ao contrabando transnacional. Mas as autoridades americanas recusaram o pedido, alegando agenda cheia até novembro, segundo as duas fontes brasileiras.Sob um novo sistema de compartilhamento de inteligência implementado neste ano, agentes aduaneiros dos dois países vinham se alertando mutuamente sobre cargas suspeitas em contêineres, o que ajudou autoridades dos EUA e do Brasil a interceptar cargas ilícitas, como armas, segundo uma das fontes.Especialistas afirmam que grupos criminosos organizados brasileiros utilizam o sistema bancário americano para lavar recursos provenientes de atividades ilícitas. Os Estados Unidos também são uma importante fonte de armas ilegais para esses grupos, contrabandeadas de estados americanos com legislação mais permissiva sobre armas de fogo. No mês passado, a polícia brasileira prendeu dois homens ligados ao envio de peças de armas enviadas pelo correio a partir da Flórida.Ao longo do último ano, em diversos encontros e ligações, incluindo uma reunião em 21 de agosto, Lula tem defendido junto a Trump uma cooperação mais estreita no combate ao crime organizado.Em um encontro na Casa Branca em maio, Lula apresentou uma proposta sobre como os dois países poderiam combater juntos as facções do narcotráfico, mirando suas armas e finanças, segundo uma autoridade brasileira. O governo Trump nunca respondeu à proposta, afirmou a fonte.No mesmo mês, os Estados Unidos avançaram na designação das duas maiores facções criminosas do Brasil como organizações terroristas, após intensa articulação de Flávio Bolsonaro e de seus aliados, que acusam Lula de ser condescendente com a criminalidade. A segurança pública é uma preocupação central para grande parte dos brasileiros e um dos temas centrais da eleição presidencial de outubro.O efeito completo dessa designação americana ainda não está claro, mas já provocou pelo menos um tropeço nas investigações policiais. Os Estados Unidos utilizaram a designação para aplicar sanções a pessoas que já eram investigadas secretamente pela polícia brasileira, o que acabou revelando seus vínculos com as facções e alertando os alvos sobre a investigação em curso. Como resultado, a polícia brasileira precisou antecipar as prisões dos suspeitos.Ao mesmo tempo, Washington tem buscado fortalecer a cooperação com líderes conservadores do Hemisfério Ocidental por meio do Shield of the Americas, uma nova aliança de segurança contra o narcotráfico da qual o Brasil não faz parte. Alguns países-membros, como Equador e Colômbia, já concordaram em realizar operações militares conjuntas com os Estados Unidos em seus territórios.No mês passado, o Brasil também não foi convidado para um encontro liderado pelos EUA, na sede da ONU, reunindo autoridades de segurança da América Latina e do Caribe.O atrito diplomático entre Brasil e Estados Unidos se intensificou nos últimos meses, com uma sequência de outras recusas e cancelamentos de vistos.Mas, embora o governo Trump tenha buscado usar os vistos como parte de sua estratégia para afirmar domínio na América Latina, essa abordagem pode acabar afastando ainda mais o Brasil.“Queremos ter o Brasil mais próximo dos Estados Unidos, e não mais distante”, disse Jimmy Story, ex-embaixador americano e sócio-fundador da Global Frontier Advisors, empresa de consultoria. “E esse tipo de diplomacia tem o efeito contrário.”c.2026 The New York Times CompanyThe post Crise diplomática entre EUA e Brasil trava cooperação contra crime organizado appeared first on InfoMoney.
