A aparente repetição sem fim da guerra com o Irã, marcada por um ciclo de negociações de paz, colapsos diplomáticos e escaladas limitadas de violência, provavelmente continuará pelo menos até as eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, em novembro, e possivelmente além, avaliam analistas de geopolítica e energia.O motivo, segundo eles, é que lideranças iranianas, divididas entre autoridades civis e a cada vez mais influente Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla em inglês), buscam maximizar seu poder de barganha e ampliar os custos políticos para o presidente Donald Trump durante o ciclo eleitoral. Com Washington e Teerã ainda distantes de um acordo e com mais petróleo voltando a cruzar o Estreito de Ormuz sob escolta militar americana, o Irã vê sua capacidade de pressão diminuir, restando a opção de manter o impasse ou intensificar os ataques.“Parece o filme Feitiço do Tempo”, disse Matt Reed, presidente da consultoria geopolítica e energética Foreign Reports, em referência ao clássico sobre um personagem preso em um mesmo dia que se repete sem parar.“Isso também pode significar que estamos sendo levados a uma falsa sensação de segurança, quando a situação ainda pode se deteriorar. Acho que este é um momento muito perigoso”, afirmou Reed à Fortune. “Claramente, o Irã está perdendo influência, sua economia está afundando e suas exportações de petróleo despencaram. Ao mesmo tempo, mais petróleo está saindo pelo Estreito de Ormuz do que em qualquer momento desde o início da guerra.”“Se combinarmos isso com o calendário eleitoral dos Estados Unidos, os iranianos podem ser tentados a reagir novamente nas próximas semanas”, disse. “Se Trump não estiver disposto a conceder o que eles querem, o objetivo deles será humilhá-lo.”Os Estados Unidos e boa parte do mundo já enfrentam preços elevados de gasolina e diesel. Uma nova escalada militar agravaria ainda mais o cenário. Como um cessar-fogo duradouro ou um acordo de paz parecem distantes, a administração Trump prefere preservar o status quo até depois de 3 de novembro, considerando essa a menos ruim entre as opções disponíveis.“Acho que o Irã tem mais incentivos para escalar o conflito antes da eleição. Já Trump teria mais motivos para adiar qualquer escalada para depois”, afirmou Reed.Para Dan Pickering, fundador da consultoria Pickering Energy Partners, manter o impasse até depois das eleições também reduz parte do poder de barganha iraniano.“Os midterms são uma linha divisória. Só não está claro para mim se algo vai acontecer antes ou depois deles”, disse.Na avaliação de Pickering, Teerã pode acreditar que uma eventual vitória democrata no Congresso aumentaria a pressão sobre Trump para aceitar termos mais favoráveis ao Irã. Por outro lado, a manutenção do impasse até novembro poderia recolocar opções militares mais agressivas sobre a mesa.“Este não é um conflito particularmente popular para Trump. Intensificar a dimensão militar após as eleições talvez seja politicamente mais aceitável”, afirmou.Thierry Wizman, estrategista-chefe da Macquarie Group, escreveu em relatório que os mercados de energia estão se preparando para cenários muito diferentes após as eleições americanas.“As volatilidades implícitas já começam a precificar resultados bastante distintos para depois de 3 de novembro, quando os acontecimentos podem mudar drasticamente em qualquer direção”, afirmou. Mais conflito significaria inflação mais alta, combustíveis mais caros, maiores gastos governamentais e rendimentos mais elevados dos títulos públicos.Uma guerra sem fim?Tomando emprestada outra referência do cinema, cresce o temor de que o conflito, agora em seu oitavo mês, deixe de se parecer com Feitiço do Tempo para se transformar em A História Sem Fim.O Irã segue exigindo controle sobre o estratégico Estreito de Ormuz e o direito de cobrar tarifas pela passagem de embarcações. Os Estados Unidos recusam essa demanda e insistem em concessões nucleares prévias.“Não tenho certeza de que veremos um acordo de paz não apenas até as eleições legislativas, mas nos próximos seis meses”, disse Marshall Adkins, chefe de pesquisa de energia da Raymond James. “Chegar a um entendimento que possa ser efetivamente imposto à Guarda Revolucionária será extremamente difícil.”Após meses de operações militares e a custos elevados, Washington conseguiu restabelecer parte do fluxo de petróleo da região. Hoje, cerca de 13 milhões de barris por dia atravessam o Oriente Médio, contra aproximadamente 19 milhões antes do início da guerra, em fevereiro.Mesmo com a recuperação parcial da oferta, o efeito sobre os preços é limitado porque a China voltou a aumentar as importações de petróleo após reduzi-las durante o verão do Hemisfério Norte. Além disso, os Estados Unidos diminuíram significativamente o uso de sua Reserva Estratégica de Petróleo (SPR), que já se encontra nos menores níveis em 44 anos.Ainda assim, em 29 de setembro, o governo Trump aprovou a liberação adicional de 40 milhões de barris da reserva estratégica, medida que pode levar os estoques a níveis considerados emergenciais.“Não vejo um acordo de paz no horizonte próximo”, resumiu Reed. “O que vejo é muita demonstração de força e negociação por meio da coerção. Ainda não chegamos ao ponto em que qualquer um dos lados esteja disposto a ceder.”Enquanto isso, os países do Golfo enfrentam aumento expressivo dos custos para transportar petróleo. O aluguel diário de petroleiros disparou de cerca de US$ 50 mil para US$ 1 milhão, e os prêmios de seguro marítimo também avançaram fortemente. Os Estados Unidos, por sua vez, arcam com gastos elevados para manter as escoltas navais que garantem a passagem das embarcações.“Estamos conseguindo retirar petróleo do estreito por meio desses comboios, mas por quanto tempo vamos continuar fazendo isso?”, questionou Adkins.“O Irã ainda tem capacidade para destruir muita coisa que passa por ali”, alertou. “Não podemos esquecer que o país poderia interromper todo esse fluxo amanhã.”© 2026 Fortune Media IP LimitedThe post “Dia da Marmota”: guerra no Irã entra em ciclo sem fim e preocupa mercado de petróleo appeared first on InfoMoney.
