Mesmo os autocratas mais capazes não conseguem governar sozinhos.Na Rússia, Vladimir Putin precisa de seu círculo de oligarcas escolhidos a dedo; no Irã, a Guarda Revolucionária e seus aliados no mundo dos negócios protegem o poder do regime; Viktor Orbán transformou a Hungria em uma “autocracia eleitoral” com a ajuda de alguns juízes cruciais, operadores políticos e magnatas aliados.Leia também: 72% da população mundial vive sob regimes autoritários, aponta relatório da HRWMas, para realizar de fato o trabalho sujo de consolidar e manter o poder, esses líderes dependem de um número muito maior de pessoas em níveis inferiores e intermediários: oficiais militares, polícia secreta e burocratas.Ainda assim, até recentemente, os pesquisadores deram pouca atenção a como líderes convencem e recrutam trabalhadores da linha de frente para aderirem às suas exigências.Os incentivos para manter as elites leais foram amplamente estudados, mas a base da estrutura permaneceu como uma espécie de caixa-preta. Na ausência de dados concretos, pesquisadores costumavam supor que essas pessoas cooperavam por extremismo ideológico, medo de perseguição ou alguma combinação dos dois.Uma nova pesquisa, baseada em um conjunto extraordinário de dados da Guerra Suja argentina nas décadas de 1970 e 1980, sugere uma explicação muito diferente. Descobriu-se que alguns tipos de pressão de carreira comuns a funcionários em qualquer lugar — o desejo de reativar uma carreira estagnada ou conseguir uma pequena promoção — podem ser suficientes para incentivar funcionários de níveis inferiores e intermediários a violar obrigações profissionais, normas fundamentais e até princípios morais básicos.As pessoas que tomam essas decisões, segundo o estudo, não são extremistas nem vítimas. Muitas vezes são apenas trabalhadores medianos procurando uma forma de subir na vida.“Making a Career in Dictatorship” (Construindo uma carreira na ditadura, em tradução literal), novo livro dos cientistas políticos alemães Adam Scharpf e Christian Glassel, parece o resultado de cruzar as ideias de Hannah Arendt sobre a “banalidade do mal” com um manual de escola de negócios sobre como extrair o máximo de funcionários com baixo desempenho.O estudo aprofundado dos autores sobre as Forças Armadas da Argentina durante o período de golpes e desaparecimentos forçados concluiu que funcionários de baixo desempenho — chamados por eles de indivíduos “sob pressão de carreira” — preencheram os quadros da polícia secreta. Esse serviço permitia que eles contornassem a hierarquia militar tradicional, alcançando promoções e sucesso profissional que jamais conseguiriam de outra forma.Descobriu-se que aspirantes a autoritários não precisam preencher seus regimes com crentes ideológicos fervorosos, oferecer recompensas extraordinárias ou impor punições draconianas para realizar tomadas de poder bem-sucedidas. Basta descobrir como atingir seu grupo ideal de trabalhadores: os frustrados e medíocres.As conclusões têm implicações para países do mundo todo que enfrentam dúvidas sobre a estabilidade de suas democracias — incluindo os Estados Unidos.Um conjunto de dados sobre a mediocridadeQuando ainda era um jovem doutorando, Scharpf fazia pesquisa para sua tese em Buenos Aires quando um funcionário do governo fez um comentário aparentemente casual durante uma conversa em um café. Durante a ditadura militar, disse ele, os agentes de inteligência que executavam o pior trabalho sujo do regime eram “basicamente idiotas”.No começo, Scharpf achou que o homem estava apenas sendo ofensivo. Logo percebeu que o comentário era literal — que, na visão daquele funcionário, a polícia secreta da junta militar era formada por incompetentes fracassados.Quando voltou para sua universidade na Alemanha, comentou a conversa com seu colega Glassel. Os dois enxergaram ali uma possibilidade para a ciência política e decidiram investigar. A Argentina havia publicado informações sobre classificação na formatura, promoções e aposentadorias de todos os seus oficiais militares desde o fim do século XIX, o que permitia identificar e acompanhar os profissionais de baixo desempenho. E, como o trabalho da polícia secreta durante a Guerra Suja era realizado principalmente pelo Batalhão de Inteligência 601, os pesquisadores conseguiram rastrear exatamente quais oficiais entraram na unidade, quanto tempo permaneceram e o que aconteceu com suas carreiras.Os dados mostraram que o comentário casual estava correto. Em grande parte, os militares argentinos operavam sob um sistema meritocrático de “suba ou saia”. Oficiais com desempenho ruim no início da carreira ficavam para trás em relação aos colegas e acabavam forçados à aposentadoria. Mas o Batalhão 601 oferecia um desvio dessa meritocracia: profissionais de baixo desempenho podiam ser transferidos para a polícia secreta, passar alguns anos acumulando promoções e depois retornar ao Exército regular, frequentemente ultrapassando colegas que permaneceram nas forças convencionais. Os homens que fizeram esse desvio terminaram com carreiras mais longas, salários mais altos e aposentadorias melhores do que indivíduos semelhantes que permaneceram nas unidades tradicionais.Quanto pior havia sido o histórico acadêmico de um oficial na academia militar, maior era a chance de ele entrar no Batalhão 601. E, uma vez lá dentro, os piores desempenhos eram enviados para as unidades mais brutais, executando as tarefas diárias de tortura e assassinato — um trabalho tão moralmente repulsivo que trazia risco real de estigma social e trauma psicológico. Mas justamente por isso as recompensas de carreira eram mais valiosas. Um período atuando como monstro podia reabilitar até o caso mais desastroso de baixo desempenho.Como regimes dependem de “fracassados leais”Normalmente, é muito difícil obter informações completas sobre quem são os “operários do trabalho sujo” de um regime ou o que os motivou a aceitar essas funções. Por isso, não existem conjuntos de dados realmente abrangentes para comparar com a pesquisa de Glassel e Scharpf sobre a Argentina.Ainda assim, informações disponíveis sugerem que outros países podem ter seguido padrão semelhante. Por exemplo, Glassel e Scharpf concluíram que superiores na burocracia nazista exploraram habilmente pressões de carreira para recrutar comandantes para os Einsatzgruppen, os esquadrões móveis de extermínio responsáveis pelo chamado “Holocausto a tiros” no Leste Europeu. Muitos recrutas tinham históricos que os colocavam em desvantagem, como registros disciplinares, dúvidas sobre “pureza racial” ou falta de experiência militar e policial. O serviço zeloso nesses esquadrões ajudava a impulsionar suas carreiras.Na União Soviética, a NKVD — polícia secreta que matou centenas de milhares de pessoas durante o chamado Grande Terror de 1937 — “recrutava deliberadamente indivíduos com poucas habilidades e conhecimento formal”, escrevem Glassel e Scharpf, muitas vezes com apenas ensino fundamental. Comandantes superiores alimentavam o medo do fracasso entre subordinados promovendo competição entre escritórios para ver quem prendia mais pessoas.Na era moderna, líderes autocráticos frequentemente chegam ao poder por eleições e depois desmontam mecanismos de freios e contrapesos para concentrar autoridade nas próprias mãos. Esse processo costuma ser muito menos violento do que os atos cometidos pela junta militar argentina ou pela NKVD de Joseph Stalin, mas com o tempo reduz fortemente a competição política e a liberdade de expressão.Embora cada país tenha suas peculiaridades, esse processo costuma seguir um padrão, afirmou Erica Frantz, pesquisadora da Michigan State University especializada em erosão democrática. Inicialmente, aspirantes eleitos ao autoritarismo costumam nomear “fracassados leais” para cargos importantes que legitimem suas concentrações de poder. Segundo Frantz, líderes entendem que pessoas tendem a ser mais leais quando não têm muitas alternativas profissionais.Considere a Hungria sob Orbán. Ele foi eleito pela primeira vez em 2010. Em 2022, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução afirmando que a Hungria havia deixado de ser uma democracia e se tornado uma “autocracia eleitoral”.Para tornar isso possível, segundo especialistas, Orbán contou com alguns aliados escolhidos no topo e uma pequena parcela de ambiciosos em posições intermediárias que viam a política como caminho para o sucesso. “Havia certos cargos que faziam o trabalho sujo”, disse Kim Lane Scheppele, que estudou o colapso democrático húngaro. Ela destacou o Escritório Nacional do Judiciário, responsável por selecionar juízes e controlar promoções, como peça central. O órgão era liderado por uma aliada de Orbán.Nos níveis inferiores do sistema judicial, uma pequena parcela de indivíduos ambiciosos executava a agenda do governo. “5% ou 10% dos juízes, os carreiristas, fazem o ‘trabalho sujo’ para avançar na carreira”, afirmou Attila Vincze.A Venezuela iniciou trajetória semelhante após a eleição de Hugo Chávez em 1999, mas ele e seu sucessor, Nicolás Maduro, recorreram posteriormente a meios mais violentos para preservar o poder. Para reprimir protestos e oposição pública, o governo contou com a Guarda Nacional e com grupos armados civis conhecidos como “coletivos”.A Guarda Nacional é considerada o degrau mais baixo das Forças Armadas em termos de prestígio, afirmou Alejandro Velasco. Os coletivos surgiram de grupos informais de vigilância comunitária, mas, à medida que os vínculos com o governo aumentaram, muitos membros receberam empregos em estruturas de segurança de ministérios.Com o tempo, líderes assim se tornam impopulares demais para se manter apenas pela manipulação e acabam perdendo eleições. Isso os deixa diante de uma escolha: deixar o cargo, como Orbán fez neste mês após perder a eleição de abril, ou recorrer a repressão mais violenta para continuar no poder.Líderes que escolhem o segundo caminho — como Maduro fez na Venezuela em 2024 após fracassar na tentativa de inclinar a eleição presidencial a seu favor — precisam ter forças de segurança leais prontas para executar a repressão. Maduro contou fortemente com a Guarda Nacional e os coletivos. Segundo a organização Human Rights Watch, forças governamentais mataram dezenas de apoiadores da oposição e prenderam milhares após a eleição contestada.O caso americanoPara os americanos, esta não é apenas uma questão acadêmica. Muitos especialistas acreditam que a deterioração democrática parece avançar especialmente rápido durante o segundo mandato do presidente Donald Trump.Frantz vê paralelos entre o governo Trump e outros líderes autoritários eleitos que estudou. Embora Trump não tenha criado o Partido Republicano, ele o remodelou ao longo da última década para se tornar uma instituição centrada em sua figura. E vários integrantes do gabinete e indicados políticos, especialmente no segundo mandato, parecem se encaixar no perfil de leais cujos currículos dificilmente lhes garantiriam cargos em outras administrações.Por isso, tentativas aparentes do governo de assegurar controle político sobre as Forças Armadas, além do FBI e do serviço de imigração e alfândega (ICE), chamam atenção como preocupantes até em comparação com outros casos, afirmou Frantz. Segundo ela, líderes eleitos que passam a interferir nos serviços de segurança costumam fazê-lo quando um sistema já transitou para o autoritarismo, e não apenas quando a democracia está em declínio.Glassel e Scharpf demonstram preocupação especial com a expansão planejada do ICE, que, segundo eles, poderia se tornar um espaço ideal para desvios de carreira por parte de profissionais ambiciosos com baixo desempenho e potencial uso para fins antidemocráticos. A preocupação se intensifica diante da invasão do Capitólio ao fim do primeiro mandato de Trump, ainda que conduzida por um grupo menos organizado de apoiadores.Segundo os autores, a fórmula para criar um aparato de segurança leal é criar ou reaproveitar uma instituição que funcione como uma “segunda escada” de promoção profissional, financiá-la generosamente e reduzir barreiras de entrada, sinalizando oportunidades para quem não consegue avançar em outros lugares. Cortes em outros empregos públicos ou restrições orçamentárias podem ampliar o grupo de possíveis recrutas. Em seguida, a liderança transmite sensação de impunidade para garantir que essas pessoas não temam consequências por atos ilegais.Na visão dos autores, o governo parece preencher esses requisitos, embora as intenções de Trump permaneçam pouco claras. (O presidente falou publicamente sobre um terceiro mandato em desacordo com a Constituição e minimizou a necessidade de eleições.) O ICE continua sendo uma força voltada à imigração, mas deve passar por grande expansão, com orçamento que superaria o de outras agências federais de aplicação da lei caso o projeto atual seja aprovado. O governo Trump também reduziu drasticamente empregos em outras agências federais, deixando milhares de pessoas desempregadas ou temendo perder o trabalho. E autoridades de alto escalão, incluindo o vice-presidente JD Vance e Stephen Miller, asseguraram explicitamente “imunidade” a agentes do ICE após agentes de imigração matarem um manifestante em Minneapolis em janeiro.Ao mesmo tempo, ficou mais fácil do que nunca tornar-se agente do ICE. Ryan Schwank declarou ao Congresso em fevereiro que novos cadetes “estão se formando apesar das preocupações generalizadas da equipe de treinamento de que, mesmo nos dias finais, não demonstram domínio sólido das táticas ou da legislação exigidas para exercer o trabalho”. Recrutas do ICE agora precisam concluir apenas nove avaliações práticas para se formar, contra 25 avaliações previstas em um programa de treinamento datado de julho de 2021. É uma boa oportunidade de carreira para quem procura uma forma de avançar.c.2026 The New York Times CompanyThe post Ditaduras são sustentadas por profissionais medianos em busca de promoção, diz estudo appeared first on InfoMoney.
