Outubro de 2026 ficará marcado como um dos meses mais turbulentos da história recente da Bolsa brasileira. O período começou com forte otimismo dos investidores, com expectativa de alternância no poder, associada à esperança de uma agenda fiscal mais austera, alimentando uma compra generalizada de ações domésticas. Bancos, varejistas, construtoras e empresas sensíveis a juros lideraram os ganhos, levando o Ibovespa a renovar máximas históricas e ultrapassar os 209 mil pontos.Mas a narrativa mudou radicalmente após o segundo turno, com a surpreendente confirmação da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva levando a uma desmontagem acelerada das posições montadas ao longo da campanha. Em poucos dias, o mercado passou a precificar um cenário de juros mais altos por mais tempo, dólar mais forte e maior incerteza fiscal, com investidores migrando rapidamente para exportadoras, companhias dolarizadas e ativos considerados defensivos, levando a movimentos extremos.Apenas no último dia 26, o Ibovespa despencou 13,88%, a 176.608,23 pontos, maior perda percentual em um dia desde 16 março de 2020 (-13,92%), período marcado pela pandemia de Covid. Na sessão, a B3 acionou o “circuit breaker” na abertura, suspendendo por 30 minutos a negociação de ativos à vista, renda fixa privada e opções referenciadas em ações, BDR, Ibovespa, Ibovespa B3 BR+, IBrX-50, Índice Small Cap e ETFs. A B3 afirmou que decisão de acionar o mecanismo baseou-se na análise do cenário de formação do preço teórico do Ibovespa, que indicava queda superior a 20%. O “circuit breaker” não era acionado na bolsa desde março de 2020.Conforme destaca Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, o Ibovespa saiu dos 186.341 pontos no fim de setembro, superou os 209 mil pontos ao longo de outubro e terminou o mês a 167.922 pontos. Assim, em outubro, o Ibovespa caiu 9,88%, maior perda mensal desde junho de 2022.Leia tambémMorgan vê só 2 setores da Bolsa superando custo de capital e aposta em exportadorasBanco vê custo de capital em 20% no Brasil após a eleição e diz que apenas os setores financeiro e de energia conseguem superar essa barreira; exportadoras seguem como as principais apostas“Outubro mostrou o risco de tratar uma expectativa eleitoral como resultado garantido”, afirma Araújo. O dólar fez exatamente o movimento contrário. Após cair abaixo de R$ 5 no auge do otimismo eleitoral, a moeda norte-americana encerrou o mês próxima de R$ 5,44 diante da reprecificação do risco brasileiro.Da aposta em “Brasil doméstico”…Até o segundo turno, a principal narrativa do mercado era a de uma recuperação do ciclo econômico. A expectativa de queda mais intensa dos juros e melhora fiscal impulsionou ações ligadas ao consumo, crédito e investimentos.Bancos estiveram entre os maiores beneficiários. O mercado apostava em expansão da rentabilidade, redução da inadimplência e crescimento da demanda por crédito. Varejistas, empresas de educação e construtoras também participaram da alta, refletindo expectativas de aumento de consumo e redução do custo de capital.Nas semanas que antecederam a votação, diversas ações chegaram a acumular ganhos superiores a 30%, enquanto investidores estrangeiros aumentavam exposição ao Brasil.…a exportadoras assumindo protagonismoO resultado eleitoral, concretizado no domingo (25) com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, produziu uma grande rotação setorial a partir da última segunda-feira, com as ações que lideravam o rali figurando entre as maiores quedas do mercado.O caso mais emblemático foi o do varejo uma vez que, em apenas um pregão, Magazine Luiza (MGLU3) tombou mais de 58%. Já entre os bancos, Banco do Brasil (BBAS3) perdeu mais de 29% em um único dia.Enquanto isso, exportadoras e empresas com receitas dolarizadas passaram a atrair o fluxo dos investidores. Suzano (SUZB3), Embraer (EMBJ3), Petrobras (PETR3; PETR4), PRIO (PRIO3), Gerdau (GGBR4) e Brava Energia (BRAV3) passaram a ser apontadas por bancos como Morgan Stanley, JPMorgan, Citi, BTG Pactual, Goldman Sachs, XP, Itaú BBA e Bradesco BBI entre as principais vencedoras do novo cenário. Isso porque dólar mais forte significa mais receitas em reais para empresas exportadoras.Além disso, muitas dessas companhias possuem baixa dependência da atividade doméstica e conseguem manter geração robusta de caixa mesmo em um ambiente econômico mais difícil.Bancos e varejo passaram de favoritos a preocupaçãoA mudança de humor do mercado ganhou destaque entre bancos e varejo. No início do mês, os bancos eram vistos como beneficiários do cenário eleitoral. Com a mudança das expectativas para juros, as análises passaram a destacar riscos relacionados à desaceleração do crédito, aumento das provisões e menor crescimento econômico.Bradesco (BBDC4) simbolizou essa virada já que, após aparecer entre as preferências logo depois das eleições, o banco sofreu rebaixamentos sucessivos de Citi, Itaú BBA e JPMorgan.Leia tambémItaú favorito, Bradesco perde força: a visão do mercado para bancões após a eleiçãoJuros mais altos e incertezas fiscais reforçam busca por bancos mais defensivos; Itaú continua unanimidade positiva, enquanto Bradesco perde apoio de parte do mercadoO varejo viveu situação semelhante uma vez que, embora diversos analistas tenham passado a destacar valuations historicamente descontados após o sell-off, bancos como BTG Pactual, Bradesco BBI e Goldman Sachs alertaram que juros altos por mais tempo podem continuar pressionando empresas ligadas ao consumo.Entre as poucas altas, exportadoras, produtoras de petróleo, seguradoras e teles dominaram o grupo das poucas ações positivas do Ibovespa.Nos destaques, apareceram Suzano (SUZB3), Embraer (EMBJ3), Petrobras (PETR3; PETR4), PRIO (PRIO3), Brava Energia (BRAV3), Gerdau (GGBR4), Caixa Seguridade (CXSE3), BB Seguridade (BBSE3), TIM (TIMS3) e Vivo (VIVT3).Receitas dolarizadas, forte geração de caixa, dividendos elevados ou receitas consideradas mais previsíveis estiveram entre as características destacadas para altas das ações. A recuperação pode vir?A principal pergunta do mercado para novembro é se o pior ficou para trás, enquanto estrategistas apontam cautela.A equipe de estratégia do Bradesco BBI mostrou que, historicamente, choques eleitorais em mercados emergentes costumam levar meses, e às vezes anos, para serem totalmente absorvidos pelos preços dos ativos. O banco argumenta que a poeira ainda não baixou e que parte relevante das estimativas de lucro para 2027 ainda pode ser revisada para baixo.Edgar Araújo aponta que os próximos meses serão definidos por quatro fatores principais: medidas fiscais do governo, definição da equipe econômica, decisões do Copom e a temporada de resultados corporativos.O especialista observa que a taxa de desemprego de 5,2% continua sustentando o consumo, mas alerta que a inflação de serviços e o dólar mais caro podem gerar novas pressões.No exterior, a resiliência da economia americana e uma inflação ainda elevada dificultam cortes de juros pelo Federal Reserve, reduzindo o espaço para melhora das condições financeiras globais.“Uma recuperação consistente da Bolsa dependerá de sinais concretos sobre as contas públicas e de melhora nas condições de financiamento. Até lá, preços mais baixos devem conviver com volatilidade, sem garantir que o ajuste terminou”, afirma.Assim, após um outubro que começou com euforia e terminou com um dos maiores sell-offs da história recente do mercado brasileiro, novembro tende a ser menos uma discussão sobre eleições e mais um teste de confiança sobre a capacidade do governo de convencer investidores de que a trajetória fiscal continuará sob controle.“A tendência de curto prazo permanece de cautela, com volatilidade elevada e maior seletividade dos investidores. Uma recuperação mais consistente dos ativos brasileiros dependerá principalmente de sinais concretos de responsabilidade fiscal, enquanto o cenário internacional continuará condicionado à trajetória dos juros, do petróleo e dos resultados corporativos”, destaca Marcos Praça, diretor de Análises da ZERO Markets Brasil.The post Do rali à queda histórica: como o Ibovespa caiu 9,88% no mês, maior baixa desde 2022 appeared first on InfoMoney.
