A Super Quarta trouxe dois recados importantes para os mercados. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve subiu juros em 0,25 ponto percentual, para entre 3,75% e 4% ao ano, o presidente do Kevin Warsh adotou um discurso duro contra a inflação e reforçou a percepção de juros elevados por mais tempo. No Brasil, por outro lado, o Copom (Comitê de Política Monetária) entregou o corte de 0,25 ponto percentual amplamente esperado, levando a Selic para 13,75%, mas sem fechar a porta para novas reduções.O resultado é um cenário misto para os ativos brasileiros, em que a direção da Bolsa, do dólar e da curva de juros passa a depender da interpretação dos investidores sobre qual dos dois vetores será dominante nas próximas semanas.Antes mesmo da decisão do Banco Central brasileiro, o mercado local já havia sentido o peso da mensagem do Fed. O Ibovespa acelerou as perdas durante a tarde após as declarações de Warsh sobre inflação e encerrou o dia em queda de 0,51%, acompanhando o ajuste observado nas bolsas americanas.Para Vinicius Flores, sócio e gestor da Stratton Capital, a decisão do Fed veio dentro do esperado, mas carregou uma mensagem claramente hawkish (dura, mostrando preocupação com a inflação).“O Fed com certeza começou o seu esforço máximo contra a inflação”, afirma. Na sua avaliação, a comunicação do banco central americano sugere até mesmo o início de um novo ciclo de aperto monetário nos Estados Unidos.A leitura é semelhante à de Beto Saadia, economista-chefe da Nomos. Segundo ele, o Fed procurou reconstruir credibilidade em meio aos questionamentos sobre sua independência e entregou uma mensagem mais dura do que o mercado esperava.Para Saadia, o cenário de “higher for longer” (juros mais altos por mais tempo) volta a ganhar força, pressionando a curva de juros americana e sustentando o dólar globalmente. Isso tende a criar um ambiente menos favorável para ativos de risco, incluindo mercados emergentes.Copom ameniza impacto externoJá no caso do Copom, a XP destacou que o comunicado manteve praticamente a mesma estrutura da reunião anterior, preservando um tom cauteloso, mas mantendo aberta a possibilidade de novos cortes de juros. A casa observa que o Banco Central incorporou ao cenário uma inflação mais comportada e sinais mais claros de desaceleração da atividade econômica.O Banco Central deixou os próximos passos em aberto ao afirmar, ao fim da última reunião de política monetária antes das eleições presidenciais, que o atual cenário de incerteza demanda serenidade e cautela na condução da política monetária. Em comunicado com poucas alterações de conteúdo em relação ao documento da reunião de agosto do colegiado, o BC apresentou visão mais firme de uma moderação da atividade, mas trouxe percepção ligeiramente mais negativa para as projeções de inflação.“Em decorrência da dinâmica dos riscos associados à evolução dos preços, o Comitê reafirma que a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações visando assegurar a convergência da inflação à meta”, disse o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC em comunicado, reafirmando mensagem de dependência de dados passada também na reunião do colegiado em agosto.O ponto mais relevante foi a manutenção da projeção de inflação de 3,2% para o horizonte relevante da política monetária, mesmo com mudanças na composição das estimativas. Para a XP, isso reforça a visão de continuidade do ciclo de afrouxamento monetário.A corretora segue projetando Selic em 13,25% no fim deste ano e 11,50% em meados de 2027.Na mesma linha, Gustavo Cruz, estrategista-chefe da Sincra, avalia que o comunicado trouxe avanços importantes no diagnóstico da economia.Segundo ele, o Banco Central passou a afirmar que a desaceleração da atividade não apenas é sugerida pelos indicadores, mas efetivamente “mostrada” pelos dados recentes. Além disso, tanto a inflação cheia quanto os núcleos passaram a ficar abaixo do teto da meta, uma evolução em relação à reunião anterior.Leia tambémSelic cai a 13,75%: quanto R$ 10 mil rendem em CDB, Tesouro e LCI?Veja a evolução da rentabilidade em prazos de até cinco anos; letras de crédito lideram no primeiro ano, mas perdem para o CDB a partir do segundoPara Cruz, o cenário-base continua sendo de manutenção dos cortes graduais de 0,25 ponto percentual.Bolsa deve olhar mais para os juros domésticosDepois da reação inicial ao Fed, parte do mercado passou a enxergar o comunicado do Copom como um contraponto positivo para os ativos brasileiros.Para Augusto Parente, fundador da AW Capital, o fato de o Banco Central não ter encerrado explicitamente o ciclo de cortes pode favorecer a Bolsa na abertura seguinte, desta quinta-feira (17).Na visão dele, os investidores podem voltar a precificar novas reduções da Selic nas próximas reuniões, o que tende a beneficiar especialmente ações domésticas mais sensíveis aos juros.Já Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha Investimentos, argumenta que, passada a reação ao Fed, o foco tende a voltar para os fatores locais, especialmente as pesquisas eleitorais.Segundo ele, investidores continuam aumentando exposição a ativos brasileiros diante da expectativa de alternância de poder e de uma política econômica mais comprometida com o ajuste fiscal.O economista-chefe da Asset1, Luis Fernando Cezario, também ressalta que os fatores domésticos vêm desempenhando papel crescente na formação dos preços dos ativos, especialmente o debate eleitoral e as incertezas políticas recentes.E o dólar?Sobre o dólar, há forças contrárias. As falas de Warsh fortalecem o dólar globalmente. O presidente do Fed deixou claro que ainda não vê progresso suficiente na inflação e afirmou que as condições financeiras americanas não parecem suficientemente restritivas.Além disso, listou três fatores para a recente alta dos rendimentos dos Treasuries: a força da economia americana, a crescente competição global por capital em meio ao aumento dos investimentos corporativos e os riscos geopolíticos.Leia tambémCopom leva Selic a 13,75%: eleições e riscos globais vão travar mais cortes?Comitê reduz Selic em 0,25 ponto percentual sem “forward guidance”. Petróleo, El Niño e urnas pesam na decisão. Já o real continua amparado pelo diferencial de juros, com a avaliação de que a moeda brasileira deve permanecer relativamente estável, sustentada pelos fundamentos externos do país e pelo elevado nível da taxa real doméstica.Marcos Vinícius Oliveira, da ZIIN Investimentos, compartilha visão semelhante. Segundo ele, o nível ainda elevado da Selic ajuda o real a resistir ao fortalecimento global do dólar, mesmo em um ambiente de petróleo mais alto.Curva de juros: disputa entre Fed e CopomO mercado de juros talvez seja onde a disputa entre Fed e Copom fique mais evidente.Para Augusto Parente, o comunicado do Banco Central brasileiro favorece um fechamento adicional da curva, na medida em que preserva a possibilidade de novos cortes.Já Bruno Perri, economista-chefe da Fórum Investimentos, adotou uma leitura mais conservadora.Leia também13 ações pagam dividendos acima do CDI após novo corte na Selic; veja quaisLevantamento com dados da Economatica mostra, no entanto, que nove das treze pagadoras acima do CDI destruíram capital do investidor nos últimos 12 mesesNa avaliação dele, apesar do corte da Selic, o comunicado trouxe diversos elementos hawkish, como a preocupação com a inflação de serviços, os riscos associados ao petróleo e as incertezas eleitorais.Perri entende que o Banco Central deixou claro não ter compromisso prévio com novas reduções e que uma pausa no próximo encontro do Copom permanece um cenário plausível.Para a ZIIN, o tom também foi mais cauteloso do que parte do mercado vinha esperando. A casa destaca que as projeções de inflação para 2026 e 2027 seguem acima do centro da meta, o que pode justificar uma interrupção do ciclo caso os próximos dados não confirmem uma desaceleração mais intensa da economia.The post Dólar, Bolsa e juros: como mercado brasileiro deve reagir nesta 5ª após Copom e Fed? appeared first on InfoMoney.
