A possibilidade de um “Super El Niño” entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027 está sendo monitorado pelos meteorologistas, e surpreendentemente, pelos analistas do mercado financeiro. Em relatório temático divulgado na sexta-feira (22), a Genial Investimentos afirma que o fenômeno climático pode trazer impactos relevantes para empresas ligadas à geração de energia, mineração, bancos, seguros e agronegócio, enquanto segmentos como saneamento, papel e celulose e imobiliário devem sentir efeitos mais limitados.Segundo o documento da Genial, o “El Niño Watch” do Centro de Previsão Climática da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica) dos Estados Unidos, mostra que há 82% de chance que o fenômeno se forme entre maio e julho de 2026 e continue durante o inverno do Hemisfério Norte de 2026-27 (96% de chance entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027). Os analistas ressaltam que o centro da tese não reside no mero acontecimento do ciclo, mas na intensidade com que ele deve se manifestar. Existem 2 em 3 chances de o aquecimento da superfície do mar na região central e leste do Pacífico Equatorial atingir patamares considerados “Fortes” (entre 1,5ºC e 2,0ºC) ou “Muito fortes” (acima de 2ºC), igualando-se aos históricos estresses climáticos de 1982/83, 1997/98 e 2015/16.“Os impactos típicos do El Niño no Brasil são bem regionais: ele tende a provocar mais chuva no Sul, menos chuva no Norte/Nordeste e temperaturas acima da média em várias regiões”, diz o relatório. Leia tambémIbovespa Hoje Ao Vivo: Bolsa cai com pressão de PETR4, na contramão do exteriorBolsas dos EUA avançam em meio a volatilidade e balanços Embora a Genial Investimentos faça a ressalva de que o documento “se baseia em um cenário hipotético”, a corretora mapeou de forma minuciosa o nível de exposição e os riscos operacionais das ações listadas na B3.Previsões para setoresA alteração nos regimes de chuva e temperatura mexe diretamente no custo fixo, na colheita e nas rotas logísticas das empresas nacionais. Veja o impacto detalhado para cada segmento com base na análise da Genial Investimentos, com contrapontos setoriais adicionais de relatórios de mercado do Bradesco BBI.AgroO setor do agronegócio carrega um risco considerado “Elevado” pela equipe de análise da Genial, enfrentando o fenômeno climático sob um ponto de partida operacional e financeiro já fragilizado. A geografia brasileira dita o impacto na agricultura; chuvas intensas no Sul costumam beneficiar os rendimentos de soja e milho, enquanto o Norte e Nordeste sofrem com condições mais secas.De acordo com o relatório da Genial, a SLC Agrícola (SLCE3) enfrenta risco direto em seus 830 mil hectares situados no Cerrado, com foco no milho de segunda safra, cujo “plantio foi concluído fora da janela ideal (2ª quinzena de março) e rendimento já orçado em queda (-7,5% ano/ano)”. Leia tambémBB: mais ajuda está por vir para o agro; reforço importante ou só adiará problemas?Projeto pode aliviar inadimplência, mas levanta dúvidas sobre risco, capital e rentabilidadeAnálises do Bradesco BBI corroboram essa visão negativa para o papel, acrescentando que “a maior exposição ao Nordeste torna o El Niño um desenvolvimento negativo” para a SLC Agrícola. Como barreiras estruturais, o texto da Genial cita a diversificação para o MAPITOBA (Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia) e os 19.734 hectares irrigados (3,5% da área própria).Leia mais: Ações listadas na B3 podem ser impactadas com o El Niño deste ano; veja quaisNa BrasilAgro (AGRO3), o principal risco está concentrado na cana-de-açúcar, que “já entregou volume abaixo do esperado (-28% a/a em 9M26)”. O relatório afirma que a própria empresa atribuiu o desempenho a “efeitos operacionais e climáticos”. A receita com cana caiu 31% nos nove primeiros meses do ano fiscal, enquanto soja, milho e algodão também enfrentam pressão operacional.Em análises complementares, o Bradesco BBI avalia que 3tentos (TTEN3), São Martinho (SMTO3) e Camil (CAML3) podem se beneficiar do fenômeno. “A São Martinho também se beneficia pois a produção de cana na ASEAN costuma ser prejudicada pelo El Niño, o que melhora a perspectiva para os preços globais do açúcar”, afirma o banco.Energia elétricaO risco para as empresas de geração de energia elétrica é classificado como “Moderado/Alto”. Os analistas da Genial apontam que “um cenário hidrológico extremado é um cenário com múltiplos riscos para as empresas de geração”, destacando três fatores principais: risco de submercado, risco hidrológico e risco de preço. O relatório identifica a Axia Energia (AXIA3) como a companhia potencialmente mais exposta do ponto de vista de volumes, uma vez que ela “possui c. 64% da sua capacidade instalada (28 GW) expostas as regiões Norte e Nordeste, exatamente aquela que pode eventualmente ter maior exposição a seca”. No sentido oposto, a Copel (CPLE3) é vista pela Genial em posição defensiva por sua concentração geográfica na região Sul, beneficiada pela previsão de chuvas volumosas. A corretora pontua que estimar os impactos exatos é um desafio, dado que o submercado Sudeste/Centro-Oeste opera como a grande “caixa d’água” do país, concentrando cerca de 60% da capacidade do Sistema Integrado Nacional (SIN).Leia tambémCopel aprova renovação de recompra de açõesA empresa poderá adquirir até 285,5 milhões de ações, representantes de 10% das ações em circulaçãoEm contraponto, o Bradesco BBI avalia que a Axia e a Eneva (ENEV3) poderiam se beneficiar financeiramente de preços mais altos de energia e do maior despacho térmico.Bancos e segurosA carteira de crédito rural concentra as vulnerabilidades do setor bancário, cujo risco foi fixado pela Genial em “Moderado/Alto”. O relatório contextualiza que as assimetrias climáticas do Super El Niño tendem a impactar a capacidade de pagamento dos produtores rurais, justamente em um momento no qual o agronegócio atravessa um ciclo pressionado por:Margens comprimidas; Alto endividamento; Juros elevados; Queda nos preços de algumas commodities agrícolas; e Aumento das recuperações judiciais no campo.Para conter perdas, as instituições utilizam as apólices rurais. “O Banco do Brasil (BBAS3), por exemplo, possui parcela relevante da carteira agro protegida por seguro climático, transferindo parte do risco: para seguradoras; resseguradoras locais; e, posteriormente, são repassadas para outras resseguradoras internacionais”, diz o relatório.Apesar disso, a proteção não elimina totalmente os efeitos operacionais, que podem desencadear o aumento de provisões (PDD), renegociações e pressões sobre o capital regulatório. O documento da Genial cita Banco do Brasil (BBAS3), Banco ABC (ABCB4) e Banrisul (BRSR6) como as instituições mais sensíveis devido à maior exposição ao agronegócio.Nos seguros, o impacto bate na linha de sinistralidade de forma assimétrica. A Genial destaca a Porto Seguro (PSSA3), que sofre mais com chuvas e enchentes nos ramos automotivo e residencial no Sul e Sudeste. Leia tambémDados de beneficiários do INSS vazam após falha de segurança da DataprevTécnicos dizem que problema afetou cerca de dois milhões de pessoas, mas número não foi revelado pelo institutoJá a BB Seguridade (BBSE3) e o IRB (IRBR3) são os mais sensíveis à seca no Centro-Oeste por sua exposição ao agro. No contrafluxo, a Caixa Seguridade (CXSE3) atua de forma defensiva por ter uma carteira pulverizada e sem exposição climática direta. No longo prazo, a tendência é de resseguros mais caros e modelos atuariais revisados.Metais e mineraçãoA Genial aponta risco “Moderado/Alto” para Vale (VALE3), CSN Mineração (CMIN3), CSN (CSNA3), Gerdau (GGBR4) e Usiminas (USIM5).Na Vale, o foco de preocupação está no Sistema Sudeste, sujeito a interrupções logísticas na ferrovia EFVM e nos complexos de Brucutu e Mariana. A mudança para produtos de menor qualidade “deve corroer o all-in premium (+72% na comparação trimestral no 1T26)”. O principal mitigador é o Sistema Norte (Carajás), responsável por 53% do mix no trimestre.A CSN Mineração concentra 100% da produção em Minas Gerais e já enfrentou impactos relevantes de chuva no primeiro trimestre do ano. A CSN Holding absorve riscos tanto pela mineração quanto pelo aumento do custo de energia na Usina Presidente Vargas.Na Gerdau, os gargalos se concentram em Ouro Branco (MG), mas a forte presença nos EUA reduz o impacto consolidado. Já a Usiminas possui “a exposição mais direta do setor de siderurgia”, segundo a Genial.FrigoríficosNo setor de proteínas, a Genial vê risco “Moderado” para JBS (BDR: JBSS32), Minerva (BEEF3) e Marfrig (MBRF3).A alta da arroba bovina pressionou as margens da JBS Brasil e levou a empresa a conceder férias coletivas em duas plantas no Mato Grosso. O Bradesco BBI destaca, porém, que as operações australianas da companhia poderiam se beneficiar no início do fenômeno. “O aumento do abate na Austrália pode favorecer as margens da JBS no estágio inicial do fenômeno”, diz o banco.A Minerva é descrita como “o ativo de maior beta (volatilidade) frente ao evento climático”, por depender exclusivamente da proteína bovina sul-americana.Leia tambémCautela política e alerta de inflação nos EUA: o que faz Ibovespa cair mais de 1%Investidores monitoram desdobramentos das negociações indiretas entre os EUA e o Irã para o fim do conflito no Oriente MédioNa Marfrig/BRF, o principal risco está ligado aos preços de milho e farelo de soja, que podem subir em caso de quebra de safra no Centro-Oeste.Papel e celuloseO risco para Klabin (KLBN11) e Suzano (SUZB3) é considerado “Baixo”. Na Klabin, as chuvas excessivas no Sul pressionam custos florestais e logística. “O custo de madeira na polpa atingiu R$845/toneladas no 1T26, o maior componente individual do custo caixa de celulose (R$ 1.326/t, +4% na comparação anual)”, diz o relatório.Na Suzano, a preocupação envolve operações no sul da Bahia, Espírito Santo e Mato Grosso do Sul, onde o excesso de chuva afeta colheita e transporte de madeira. Como mitigadores, a Genial cita investimentos logísticos e hedge de commodities.SaneamentoA Genial atribui risco “Baixo/Moderado” para Sabesp (SBSP3), Copasa (CSMG3) e Sanepar (SAPR11). “Dentre as empresas de capital aberto (SBSP3, CSMG3 e SAPR11), acreditamos que o risco seja baixo para cada um dos cases tendo em vista a respectiva exposição geográfica de cada um dos cases”, afirma o relatório.A corretora lembra que o impacto do El Niño de 2015/16 sobre a Sabesp foi ambíguo, já que as chuvas ajudaram a recompor reservatórios após a crise hídrica iniciada em 2014.O Bradesco BBI, porém, avalia que ondas de calor e chuvas irregulares no Sudeste poderiam prejudicar os reservatórios da companhia. “Para a Sabesp, o impacto é negativo, pois não há benefício compensatório de preços para volumes menores de reservatórios”, diz o banco.ImobiliárioO setor imobiliário aparece com risco “Baixo”. Segundo a Genial, chuvas intensas no Sul e Sudeste podem atrasar obras, reduzir produtividade e pressionar custos da construção.Nos shopping centers, os efeitos tendem a ser mistos. “Eventos climáticos extremos, como chuvas intensas ou temperaturas elevadas, podem favorecer o fluxo de consumidores, atuando como ‘refúgio’”, afirma o relatório. Por outro lado, despesas com manutenção e energia podem subir.The post “El Niño Godzilla”: quais empresas da Bolsa podem ser mais impactadas? Veja lista appeared first on InfoMoney.
