Durante décadas, possuir fábricas próprias era uma das maiores vantagens competitivas da indústria. Agora, a leitura começa a mudar: em muitas categorias, cresce a relevância das empresas que conseguem combinar produção interna com redes terceirizadas de alta qualidade, explica Raphael Traticoski, CEO da GrowinCo, plataforma que conecta marcas a fabricantes, fornecedores de ingredientes e de embalagens, ao InfoMoney. “Não tem como, para cada nova necessidade do consumidor, as empresas se adequarem sozinhas à demanda. A terceirização é uma das grandes tendências da indústria”, afirma.Nessa tendência, a Copacol, cooperativa agroindustrial do Paraná, saiu na frente. A empresa ficou no topo de um ranking inédito conduzido pela GrowinCo que mede quais empresas de alimentos e bebidas no Brasil melhor transformam a co-manufatura em instrumento de crescimento, inovação e escala.O levantamento, compartilhado com exclusividade com a reportagem do InfoMoney, colocou a cooperativa à frente de gigantes como Unilever, JBS Brasil, Nestlé e Mondelez — um resultado que ajuda a ilustrar uma mudança mais ampla na lógica industrial do setor de consumo.O rankingBatizado de CPG Leaders 100, o estudo analisou mais de 21 mil empresas do mercado brasileiro de bens de consumo e rastreou 168.992 lançamentos de produtos de alimentos e bebidas realizados entre 1996 e 2026. Desse total, 29.938 lançamentos foram feitos por meio de parcerias de co-manufatura. Para esta primeira edição, 135 organizações atenderam aos critérios mínimos de elegibilidade e receberam uma pontuação de 0 a 100 baseada em três pilares: escala, inovação e network. Confira o Top 10Copacol – 85,6Unilever – 82,2Linea – 80,6JBS Brasil – 80,2Native Orgânicos – 79.9Nestlé – 79,8Catupiry – 79,5Korin Agropecuária – 77,9Mondelez – 77,7Mais Mu – 75,4O ranking foi desenvolvido para preencher uma lacuna histórica do setor. Enquanto indicadores tradicionais medem faturamento, market share ou presença em gôndola, o CPG Leaders 100 avalia a capacidade das empresas de terceirizar de forma madura, construir relações com parceiros industriais e usar essa estrutura para acelerar lançamentos e expandir portfólio.Leia tambémPequenos negócios têm fonte de renda como pontos de retirada; veja como se tornar umMarketplaces também oferecem opção de cadastro para parceiros de entrega para tornar operação logística ainda mais eficienteA terceirização deixou de ser exceçãoA GrowinCo nasceu há sete anos justamente em torno dessa tese. Segundo Traticoski, a empresa surgiu da percepção de que a terceirização industrial deixava de ser uma solução tática e passava a ganhar status de ferramenta estratégica.“Viemos da indústria, trabalhamos muito de perto com a dor da terceirização em consumo rápido, e a nossa ideia sempre foi estudar a co-manufatura. Hoje, 18% de todos os produtos lançados em alimentos e bebidas já são feitos através de terceirização. Esse é um dado inédito”, disse.Raphael Traticoski, CEO da GrowinCo (Foto: Reprodução)O número ajuda a explicar por que a discussão ganhou tração. Num ambiente em que as demandas do consumidor mudam rápido — de produtos funcionais e saudáveis ao impacto de tendências como GLP-1 —, nem sempre faz sentido para uma companhia adaptar suas próprias fábricas a cada novo nicho.Na leitura do executivo, a terceirização ganha força porque responde a dois problemas centrais ao mesmo tempo: reduz a necessidade de investimento pesado em ativos industriais e acelera a entrada em novas categorias.Um exemplo citado por ele é o da Danone com YoPRO. “Quando o YoPRO começou, era terceirizado. A empresa estava entrando em uma nova categoria e isso só foi possível com terceirização. Depois, com o sucesso do produto, a Danone investiu e fez o insourcing [passou a produzir internamente]”, disse.Leia também: QI Tech compra a Autobanking para atacar um mercado de R$ 544 bilhõesCooperativa no topoA liderança da Copacol surpreendeu até a própria GrowinCo. “Nos surpreendemos com empresas que a gente não sabia que tinham um trabalho tão forte de terceirização. A Copacol, por exemplo: conhecíamos o mercado de proteína. O que a empresa fez foi: uma vez que já tinha a logística congelada, começou a oferecer produtos congelados como ervilhas e legumes”, afirmou Traticoski.O caso ajuda a mostrar que a co-manufatura pode ser uma alavanca de expansão para grupos que já têm escala industrial relevante, mas querem ocupar novas categorias sem replicar toda a estrutura produtiva. Segundo a análise da GrowinCo, cooperativas bem estruturadas podem competir em pé de igualdade com multinacionais exatamente por combinarem produção própria relevante com uma rede externa bem coordenada.“O ranking mostra que governança e capacidade de coordenação importam tanto quanto tamanho. Cooperativas bem estruturadas conseguem construir redes produtivas tão sofisticadas quanto as das multinacionais e competir em pé de igualdade”, disse o executivo.A Aurora, por exemplo, outra cooperativa, aparece na 11ª posição, logo atrás do top 10.Da mesma forma, a terceirização de produção também pode ser uma ferramenta para marcas asset light ou nativas digitais e ajudar a reduzir barreiras de entrada. A Mais Mu, por exemplo, ficou na décima colocação com o maior score de inovação do estudo. A Desinchá também aparece entre as 20 empresas mais bem posicionadas.Para a GrowinCo, isso reforça uma transformação importante: hoje, em várias categorias, marcas conseguem crescer sem investir diretamente em fábricas próprias — desde que saibam construir uma boa rede de parceiros. “Há dez anos, competir com grandes indústrias exigia construir fábricas. Hoje, o diferencial está em construir redes. Isso está permitindo o surgimento de uma nova geração de marcas altamente inovadoras e competitivas”, afirmou Traticoski.Mas apenas construir redes, não basta. A Nestlé, por exemplo, teve o maior score de Network do ranking, com 93,9 pontos, mas terminou apenas na sexta posição geral. A La Violetera, por sua vez, aparece com um dos maiores scores de rede, mas ficou apenas na 44ª colocação.A explicação, segundo a GrowinCo, é que a maturidade em co-manufatura depende de equilíbrio entre escala, frequência de uso, capacidade de inovar e qualidade das relações industriais.Leia também: Como a Seara aumentou sua fatia no mercado de pizzas congeladasEspaço para crescerApesar da evolução, o mercado brasileiro de co-manufatura ainda é visto como pouco maduro quando comparado a Estados Unidos e Europa. “Existem mercados de terceirização bem mais maduros que o brasileiro. No europeu, 50% do volume de vendas de alimentos e bebidas é feito com terceirização”, disse o CEO.No Brasil, segundo ele, um dos principais gargalos é estrutural: faltam fabricantes dedicados exclusivamente à produção para terceiros. “Hoje, não existe no Brasil um parque fabril voltado para terceirização. Em geral, são indústrias que têm suas próprias marcas e fazem terceirização com a capacidade que sobra. Em mercados mais consolidados, existem indústrias 100% white label”, afirmou.Essa diferença pesa em custo, especialização e qualidade da oferta. Também ajuda a explicar por que o mercado local ainda tem dificuldade em atender com eficiência grandes companhias, que exigem padrões mais elevados de qualidade, segurança alimentar e compliance. “Quando a Nestlé quer terceirizar, ela tem níveis de exigência muito altos. E vai buscar o match com esse nível de exigência”, disse Traticoski.Na visão dele, o amadurecimento desse ecossistema pode ajudar a resolver outras ineficiências da indústria brasileira, de logística a capacidade ociosa. “Dados da CNI mostram que 25% da indústria está ociosa. A gente precisa fazer algo com isso”, disse. Também, com fábricas mais perto dos consumidores, explica o executivo, os custos de logística também cairiam — uma redução, que poderia ser repassada aos clientes finais. O próprio custo da produção também poderia ser reduzido, explica o executivo. “Terceirizadores são mais eficientes do ponto de vista de custo porque conseguem diluir em um volume maior. Concentrar a produção em maior escala gera benefícios principalmente para as indústrias que desenvolvem relacionamentos de longo prazo”, explica. Hoje, a maior parte das terceirizações ainda acontece dentro do Brasil, mas há categorias em que as marcas já buscam produção fora do país, seja por especialização técnica, seja por falta de capacidade local. Há, por exemplo, indústrias que terceirizam a produção de molhos, queijos e massas da Itália, a produção de azeites na Espanha e de produtos como snacks fritos e ramén, da China. “Esse é um movimento que não existia com a força que tem hoje”, afirmou.Para o executivo, a pandemia, sem dúvida, ajudou a acelerar o movimento de terceirização. Segundo Traticoski, o pós-covid elevou o interesse das indústrias por causa das disrupções nas cadeias de abastecimento e da ascensão das marcas próprias do varejo. “Quando você combina grandes marcas terceirizando e redes varejistas lançando marcas próprias, você tem um mercado muito mais representativo”, disse.E este crescimento deve se manter: para o CEO da GrowinCo, a co-manufatura vai ganhar ainda mais espaço na medida em que a indústria de consumo precise responder mais rápido a mudanças de demanda, nichos de produto e pressão por eficiência.A própria GrowinCo atua como intermediária nesse processo: conecta marcas a fabricantes, ajuda a encontrar parceiros e participa da negociação e estruturação dos projetos e já viu um aumento de demanda e pelo número e quantidade de clientes que buscam investir e trabalhar com a terceirização. “Tem uma enorme oportunidade no Brasil. O negócio de manufatura e de gestão de marcas são diferentes. Faz sentido ter negócios especializados e tem espaço para isso aqui”, resume. Para ele, na indústria de consumo, a vantagem competitiva do futuro pode estar menos em possuir a fábrica — e mais em saber orquestrar a rede certa.The post Em ranking inédito de indústrias, uma cooperativa ficou à frente da Unilever e Nestlé appeared first on InfoMoney.
