As ações dos bancos brasileiros caminham para encerrar 2026 em um cenário complexo: os investidores começam a antecipar os possíveis efeitos das eleições presidenciais sobre juros, crédito e atividade econômica, enquanto casas de análise passaram a revisar para baixo suas projeções para 2027, citando desaceleração econômica, menor estímulo fiscal e crescimento mais moderado das carteiras de crédito.Fique sabendo dessa e de outras manchetes antes de todo mundo. Assine InfoMoney Premium e não perca nada de importante no mercado.O movimento ocorre após uma forte recuperação de parte do setor na Bolsa, especialmente em nomes mais sensíveis à disputa eleitoral, como Banco do Brasil (BBAS3). A ação passou a refletir não apenas fundamentos operacionais, mas também expectativas sobre o cenário político e a possibilidade de mudanças na governança da instituição a partir de 2027.Sobre o setor, os relatórios divulgados por Pedro Leduc e equipe, do Itaú BBA, e por Marcelo Mizrahi, do Bradesco BBI, sugerem que o principal debate para os investidores deixou de ser apenas o resultado eleitoral e passou a ser a capacidade dos bancos de sustentar crescimento dos lucros em um ambiente que tende a ser menos favorável no próximo ano.Itaú BBA reduz projeções para 2027Em sua atualização para o setor bancário, o Itaú BBA adotou uma postura mais cautelosa para o médio prazo. A instituição afirma continuar vendo um cenário benigno para a qualidade do crédito no curto prazo, sustentado pelo mercado de trabalho resiliente e pelos estímulos fiscais ainda presentes na economia. Entretanto, avalia que o quadro para 2027 se tornou mais incerto.Entre os fatores de preocupação estão a desaceleração do PIB, a redução do suporte fiscal às famílias e empresas e a possibilidade de pressões inflacionárias decorrentes da alta recente do petróleo e de commodities agrícolas. Diante desse panorama, o banco reduziu estimativas para praticamente toda sua cobertura de bancos.Leia tambémBBA reduz projeções para bancos e rebaixa Nubank; Bradesco é único bancão com compraAnalistas reforçaram sua preferência por empresas ligadas ao mercado de capitais, como B3 (B3SA3), BTG Pactual (BPAC11) e XP (BDR: XPBR31), em detrimento a bancos tradicionaisOs cortes mais expressivos ocorreram em Nubank (BDR: ROXO34), cuja projeção de lucro para 2027 foi reduzida em 8%, em Agibank (-16%) e em Banrisul (BRSR6) (-25%). O Itaú BBA também rebaixou a recomendação de Nubank de Outperform (recomendação acima da média do mercado, equivalente à compra) para Market Perform (recomendação em linha com a média do mercado, equivalente à neutra), alegando menor potencial de crescimento dos resultados no próximo ciclo.O principal vencedor da revisão do Itaú BBA é o Bradesco (BBDC4), que se tornou o único grande banco com recomendação Outperform entre os nomes cobertos pela instituição.Na visão dos analistas, o banco reúne atualmente a melhor relação entre risco e retorno, negociando a múltiplos considerados atrativos e apresentando evidências crescentes de melhora de execução tanto no varejo quanto no segmento corporativo. O braço de seguros, responsável por mais de 40% dos lucros do grupo, também segue como um importante vetor de crescimento.O Itaú BBA projeta lucro de R$ 32,5 bilhões para o Bradesco em 2027, alta de 14% na comparação anual, mantendo a instituição acima do consenso do mercado.Banco do Brasil continua dividindo opiniõesNo caso do Banco do Brasil (BBAS3), o cenário permanece mais controverso.A visão é de que a ação segue negociando a múltiplos historicamente descontados, mas as principais incertezas continuam concentradas na carteira de agronegócio e na deterioração observada em alguns segmentos do varejo, aponta o BBA. O banco cita que a inadimplência acima de 90 dias entre pessoas físicas atingiu 8,41%, enquanto o índice de atraso no cartão de crédito chegou a 14,6%.Ainda assim, a casa elevou seu preço-alvo de R$ 21 para R$ 23 por ação e manteve estimativas praticamente inalteradas para 2027, projetando lucro de R$ 25,6 bilhões no período.A discussão eleitoral segue sendo um componente importante para o papel. Como estatal, o Banco do Brasil tende a reagir com mais intensidade às mudanças de percepção sobre a condução futura da política econômica e sobre o papel das empresas controladas pela União. A dinâmica lembra o que ocorreu em outros ciclos eleitorais, quando os papéis passaram a incorporar não apenas expectativas de resultados, mas também cenários para governança corporativa e direcionamento estratégico.Qualidade do crédito ainda não preocupaApesar da cautela com 2027, tanto o Itaú BBA quanto o Bradesco BBI argumentam que o mercado pode estar exagerando os riscos imediatos relacionados à inadimplência.Segundo o Itaú BBA, parte da deterioração observada nos indicadores agregados decorre de mudanças regulatórias no reconhecimento de créditos inadimplentes e do aumento da participação dos bancos digitais e fintechs no sistema financeiro. Os grandes bancos tradicionais continuam apresentando comportamento de crédito superior ao da média do sistema.O Bradesco BBI reforça essa visão ao analisar os programas de crédito garantidos pelo governo para pequenas e médias empresas. O banco estima que os fundos garantidores FGI e FGO já sustentaram mais de R$ 650 bilhões em concessões desde a pandemia e permitiram expansão do crédito sem deterioração relevante da qualidade dos ativos.Para a instituição, embora o fim da Medida Provisória 1.355 deva desacelerar as concessões a partir do quarto trimestre, não há sinais de que a inadimplência ultrapasse os mecanismos de proteção previstos nos programas.O que esperar para as ações até o fim do ano?Para os analistas, o desempenho das ações bancárias até dezembro deverá depender menos dos resultados trimestrais e mais da evolução das expectativas para 2027.Caso o mercado enxergue um cenário de maior responsabilidade fiscal após as eleições, a tendência é de fechamento dos juros longos e melhora das perspectivas para crédito e atividade econômica. Nesse ambiente, bancos mais expostos ao ciclo doméstico, como Bradesco (BBDC4) e Banco do Brasil (BBAS3), tendem a se beneficiar.Mas se prevalecer a percepção de desaceleração econômica combinada com inflação mais resistente, os investidores podem continuar privilegiando instituições mais diversificadas e negócios ligados ao mercado de capitais, como BTG Pactual (BPAC11), B3 (B3SA3) e XP (BDR: XPBR31), que seguem entre as preferências do Itaú BBA para o setor financeiro.The post Entre eleição e desaceleração: o que esperar do fim de ano para as ações de bancos? appeared first on InfoMoney.
