O ditado “sell in May and go away” (“venda em maio e vá embora”, em tradução livre) parece fazer mais sentido que nunca para estrangeiros que investem na Bolsa brasileira. O movimento começou mais cedo, com saída de R$ 11,5 bilhões ainda na segunda metade de abril, que foi parcialmente compensado por entradas de R$ 14,6 bilhões na primeira parte do mês. No relatório Fluxo em Foco, elaborado pelo Research da XP, analistas explicam que,, em maio, a tendência negativa se mantém já no mercado à vista, com R$ 3,6 bilhões de saídas líquidas. O mês foi marcado também pela retirada de R$ 2,4 bilhões em apenas um dia, o que aconteceu em 15 de maio. Leia tambémMaioria do Fed vê elevação nos juros nos EUA se inflação seguir alta, diz ataDirigentes defenderam que o Fed deveria “preparar terreno” para possível alta de juros, segundo documento divulgado nesta quarta-feiraAbertura parcial de Ormuz e recuperação após tombo: o que faz Ibovespa subir 2%No exterior, o mercado aguarda a ata do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), à tarde, e o balanço da Nvidia., pós o fechamento dos mercadosA tendência já havia sido mencionada pelos estrategistas no começo de maio, ao comentar que uma correção estava em curso.A ideia se pauta na força da tese de Inteligência Artificial e forte crescimento de lucros do setor de tecnologia, que sustentaram e trouxeram recordes para índices como Nasdaq. Com isso, as preocupações com preços mais altos de petróleo ficaram ofuscadas em primeiro momento e o fluxo para emergentes foi revisto. No caso brasileiro, a repercussão aconteceria principalmente com a revisão da tese HALO, segundo os analistas da XP.A sigla para High Assets, Low Obsolescence caracteriza empresas com muitos ativos físicos e baixo risco que podem ser mais resilientes em relação aos avanços da IA. A ideia “pé no chão” favoreceria antes o mercado brasileiro em um todo, mas com destaque para setores como energia, utilities e materiais. Leia mais: O que é o efeito HALO e por que 10 ações brasileiras “pé no chão” podem sair ganhandoPara além da tese HALO, o contexto para mercados emergentes também se mostrava mais favorável por fatores não relacionados diretamente ao Brasil, segundo Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad. Assim, com a alta da bolsa americana, investidores globais procuraram países com bons fundamentos e valuations mais atrativos que os norte-americano. O especialista também cita o dólar mais fraco globalmente e as perspectivas de cortes de juros pelo Federal Reserve no começo do ano. “Soma-se a isso a sustentação dos preços das commodities; moedas de elevado carry (como o real, o peso mexicano e a lira turca); e o fato de que muitos países que compõem os emergentes estão muito bem integrados nas cadeias de produção de semicondutores — como Coreia do Sul, China e Taiwan. Tudo isso resultou no mercado, de forma geral, comprando essa classe de ativos de maneira ampla neste ano”, diz. A bolsa brasileira também seria especialmente atrativa no tema “commodities” e teria surfado a onda de petróleo mais elevado em um primeiro momento, quando estourou o conflito entre EUA e Irã. No entanto, a precificação também de maior duração do conflito deixou de ser vista como oportunidade para a commodity para se tornar combustível para expectativa de inflação mais elevada. Com isso, a Bolsa perdeu brilho. Nesse contexto, os rendimentos das Treasuries americanas chegaram a seus maiores patamares desde 2007 no começo desta semana, com destaque para o avanço observado na terça-feira. Mesmo com recuperação nesta quarta, com queda de 2 pontos-base nos rendimento do Treasury de dez anos -referência global para decisões de investimento- , a 4,645%, o movimento ainda norteia investidores e pode seguir desfavorável para a B3. A alta nos título atrai o capital de volta para os EUA e drena ainda mais a liquidez para mercados emergentes.“O cenário macroeconômico está bem incerto: o mundo se encontra com uma inflação maior e estoques de petróleo cada vez menores. Isso tem levado a um movimento de maior aversão ao risco no geral, o que acaba penalizando mais os mercados emergentes (por serem mais voláteis)”, diz o especialista da Nomad. No momento sentido, segundo relatório do JPMorgan da semana passada, depois de um início de ano marcado por forte entrada de capital – R$ 70 bilhões até meados de abril – , a tese pró-Brasil perdeu fôlego na esteira de fatores globais, reprecificação de juros e um novo componente de risco político doméstico.Cenário doméstico também preocupaPara além do contexto global, o ambiente doméstico também não parece favorável para que o estrangeiro volte o apetite para bolsa brasileira. Antes as pesquisas mostravam que o principal candidato da oposição, Flavio Bolsonaro, se mostrava parelho e até mesmo superando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Isso parecia mostrar melhores perspectivas quanto à política fiscal e demais temas econômicos. No entanto, após a divulgação, em 13 de maio, de ligação com o banqueiro Daniel Vorcaro para financiamento do filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, as pesquisas recentes mostram menos vantagem para Bolsonaro. Com isso, aumenta a percepção de risco no mercado local, com fatores eleitorais entrando na conta, segundo Bruno Perri, economista-chefe, estrategista de investimentos e sócio-fundador da Forum Investimentos.Leia tambémItaú BBA: 3 fatores que podem reacender interesse nas ações do BrasilRotação global para tecnologia tem desviado a atenção setorial da América Latina“As eleições já assumem protagonismo na agenda econômica e dos mercados por aqui, e medidas populistas por parte da situação e a complicada situação do principal candidato da oposição, que vem caindo em pesquisas recentes, não tem data para se atenuarem”, afirma Perri. Mas, afinal, com todos os fatores externos e domésticos, os gringos vão se manter longe da Bolsa brasileira de vez? Gringos vão ficar fora da B3?Para analistas, a resposta é não, no médio e longo prazo. Ainda que, no curto prazo, os fatores que retiram fluxo do Brasil se mantenham e sustentem a dinâmica negativa. O movimento seria a “tempestade perfeita” entre a re-rotação em favor de mercados desenvolvidos, em especial com mais apostas em IA, com realização de lucros após a temporada de resultados no Brasil e maior percepção de risco.“A volta do fluxo para a B3 segue condicionada à melhora do cenário externo, enquanto o cenário eleitoral doméstico também começa a fazer preço”, afirma Shahini.Ainda assim, para Perri, conforme a bolsa brasileira perde preço e o real passa a recua em relação ao dólar, a atratividade dos ativos brasileiros tenderia a retornar.O recuo observado também não torna o fluxo cambial fraco, com o cuidado de separação de fluxos de investimento e de carry trade, segundo Leonardo Santana, especialista em investimentos e sócio da casa de análise Top Gain. “Separando o fluxo, o gringo ainda entra, a gente tem um diferencial de juros muito alto ainda, então sem sombra de dúvida que vai ter ainda entrada de capital. Ainda se vê um cenário pessimista interno com as incertezas geradas com o áudio vazado de Flávio Bolsonaro e externo com o guerra, então o fluxo para investimento infelizmente cessou um pouco, que era o fluxo para investimento da nossa bolsa, nos nossos ativos”, diz. Leia mais: “Carry trade” ganha força no câmbio – real e rand estão entre moedas favoritasAinda assim, Santana destaca que o chamado carry trade (mecanismo busca lucrar com a diferença entre as taxas de juros de um país para outro) deve manter o dólar baixo por mais tempo, até que haja novos horizontes para corte de juros. Com isso, novo fluxo de capital para investimento deve vir e haverá a saída do fluxo de carry trade. The post Estrangeiros vão abandonar a Bolsa brasileira de vez? appeared first on InfoMoney.
