BRASÍLIA, Brasil — Uma crise diplomática está dificultando a cooperação entre os Estados Unidos e o Brasil no combate conjunto ao crime organizado, segundo autoridades americanas e brasileiras, um tema que o governo Trump colocou no centro de sua agenda no Hemisfério Ocidental.O Departamento de Estado reteve vistos para dois agentes da Polícia Federal brasileira designados para postos nos Estados Unidos, onde trabalhariam com a Divisão de Investigações de Segurança Interna dos EUA e outras agências federais no combate ao crime transnacional, segundo um americano e três altos funcionários brasileiros que falaram sob condição de anonimato por não estarem autorizados a se pronunciar publicamente.Em resposta, o Brasil também está bloqueando o visto de um agente da lei americano que deveria ser destacado para o país, de acordo com autoridades americanas e brasileiras.O governo dos EUA, alegando uma agenda lotada, também recusou um pedido de visita de agentes alfandegários e fiscais brasileiros que investigam lavagem de dinheiro e contrabando de armas por cartéis internacionais de drogas, segundo dois outros funcionários brasileiros.Brasil e Estados Unidos têm uma longa história de investigações conjuntas sobre crimes internacionais, como fraude e tráfico de pessoas, e de envio de agentes da lei para os respectivos países. O Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) mantém um adido no Brasil há mais de duas décadas.No passado, a ação conjunta do Brasil e dos Estados Unidos ajudou as autoridades a desmantelar esquemas internacionais de corrupção, redes de pirataria e quadrilhas de tráfico humano.Esse tipo de cooperação estreita, segundo especialistas, está se tornando crucial para combater os cartéis de drogas da América Latina, que possuem mais recursos e maior alcance geográfico do que nunca.“Hoje, as facções criminosas não conhecem fronteiras”, disse Edvandir Félix de Paiva, presidente da associação dos comissários da Polícia Federal do Brasil. “Por isso, precisamos trabalhar juntos.”As recentes rupturas na cooperação, que não haviam sido relatadas anteriormente, ocorrem em um contexto de relações tensas ao longo do último ano, decorrentes das tentativas do presidente Donald Trump de interferir nos assuntos internos do Brasil. Essa ruptura só se aprofundou nos últimos meses com a aparente disposição do governo Trump em ajudar Flávio Bolsonaro, o candidato de direita que desafia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de esquerda, nas eleições brasileiras de outubro.Leia tambémTrump diz que guerra com Irã terminará após eleições de meio de mandato nos EUAPresidente dos EUA disse ainda que preços do petróleo cairão assim que o conflito acabarO combate às gangues transnacionais tornou-se uma das principais prioridades do governo Trump, que, nessa luta, uniu forças com países latino-americanos liderados por governantes conservadores. No entanto, o desgaste das relações diplomáticas pode estar prejudicando a cooperação entre os Estados Unidos e o Brasil, as nações mais populosas do hemisfério.“A percepção é de que a política de segurança dos EUA em relação ao Brasil se tornou intrincada com a política interna”, disse Robert Muggah, especialista em segurança e diretor de pesquisa do Instituto Igarapé, uma instituição de pesquisa com sede no Brasil. “Isso não levou a uma ruptura fundamental”, acrescentou, “mas introduziu novas complexidades na relação e a impregnou com níveis de desconfiança.”O Departamento de Estado se recusou a comentar os detalhes dos vistos, mas afirmou em comunicado que o governo Trump estava protegendo “a nação e seus cidadãos, mantendo os mais altos padrões de segurança nacional e segurança pública por meio de nosso processo de vistos”. O departamento acrescentou que continuaria trabalhando com o Brasil para promover “interesses comuns de longa data”.A Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA afirmou em comunicado que está comprometida em colaborar com as autoridades brasileiras para promover “objetivos de segurança e combater o crime transnacional”.A Polícia Federal brasileira e o Ministério das Relações Exteriores se recusaram a comentar. O ministério, que supervisiona a alfândega, a receita e o controle de fronteiras do país, afirmou que as duas nações mantêm um diálogo com o objetivo de trocar boas práticas e combater o crime transnacional.Os dois agentes da Polícia Federal brasileira que não receberam vistos deveriam assumir seus postos em Miami e Nova York no mês passado, segundo autoridades brasileiras. Eles já haviam sido selecionados e avaliados pelas autoridades americanas e brasileiras no início deste ano, como parte de uma troca de pessoal de rotina, disse uma das autoridades.Um dos adidos da Polícia Federal substituiria Marcelo Ivo de Carvalho, que foi expulso dos Estados Unidos em abril e acusado pelo governo Trump de uma “perseguição política” por seu papel na prisão de um ex-chefe da inteligência brasileira. O chefe havia fugido para os Estados Unidos após ser condenado por conspirar para um golpe de Estado em seu país com o ex-presidente Jair Bolsonaro.Leia tambémLula faz forte aceno ao eleitorado feminino em comício realizado em CuritibaPresidente e candidato à reeleição disse em comício neste sábado que mulheres não podem ficar subordinadas a “quem tem comportamento cafajeste”O patriarca Bolsonaro, aliado de Trump, cumpre pena de 27 anos por sua tentativa de se manter no poder. Em resposta à expulsão de Carvalho, o Brasil revogou as credenciais de um agente da lei americano que trabalhava em Brasília, a capital.Em mais uma medida recíproca, o Brasil está retendo o visto para o sucessor do agente da lei americano até que seus próprios adidos policiais sejam autorizados a assumir seus cargos nos EUA, segundo dois altos funcionários brasileiros. As autoridades de ambos os países ainda estão negociando os vistos, disseram autoridades americanas e brasileiras.Uma equipe de quase uma dúzia de agentes da Receita Federal brasileira também solicitou uma visita aos seus homólogos americanos em Washington, em junho, como parte de uma iniciativa recente para aumentar a cooperação no combate à lavagem de dinheiro e ao contrabando transnacional. No entanto, as autoridades americanas negaram o pedido, alegando uma agenda lotada até novembro, disseram os dois funcionários brasileiros.Segundo um dos funcionários, um novo sistema de compartilhamento de informações implementado este ano permite que agentes alfandegários de cada país se alertem mutuamente sobre remessas de contêineres suspeitas, auxiliando as autoridades americanas e brasileiras na interceptação de cargas ilícitas, como armas.Embora especialistas policiais e de inteligência afirmem que esse tipo de cooperação técnica entre o Brasil e os Estados Unidos continue, a falta de coordenação em alto nível pode frustrar planos mais ambiciosos.Embora o Brasil não exporte quantidades significativas de drogas para os Estados Unidos, é uma importante rota de trânsito para a cocaína que segue para a Europa, África e outros lugares. Além disso, as gangues brasileiras estão cada vez mais formando alianças com gangues mexicanas e colombianas e encontrando novas maneiras de contrabandear drogas para fora da América Latina.Especialistas afirmam que grupos criminosos organizados brasileiros utilizam o sistema bancário americano para lavar dinheiro proveniente de atividades ilícitas. Os Estados Unidos também são uma importante fonte de armas ilegais para esses grupos, contrabandeadas de estados americanos com leis permissivas em relação a armas. No mês passado, a polícia brasileira prendeu dois homens em conexão com peças de armas enviadas da Flórida.Durante diversas reuniões e telefonemas ao longo do último ano, incluindo um tão recente quanto 21 de agosto, Lula defendeu com Trump uma cooperação mais estreita no combate ao crime organizado.Em uma reunião na Casa Branca em maio, Lula apresentou uma proposta sobre como os dois países poderiam combater os cartéis de drogas em conjunto, visando o controle de suas armas e finanças, de acordo com um funcionário brasileiro. O governo Trump nunca respondeu à proposta, disse o funcionário.Naquele mesmo mês, os Estados Unidos designaram as duas maiores facções criminosas do narcotráfico do país como organizações terroristas, após forte pressão de Flávio Bolsonaro e seus aliados, que acusam Lula de ser leniente com o crime. A segurança pública é uma grande preocupação para muitos brasileiros e um tema central nas eleições presidenciais de outubro.Leia tambémTrump diz que poderia resolver disputa entre Reino Unido e Argentina sobre MalvinasNo sábado, Trump foi questionado sobre uma recente conversa telefônica com o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, e se as Ilhas Malvinas haviam sido um dos assuntos discutidosO impacto total da designação pelos EUA ainda não está claro, mas já levou a pelo menos um deslize policial. Os Estados Unidos usaram a designação para aplicar sanções a pessoas que estavam sendo investigadas secretamente pela polícia brasileira, revelando seus vínculos com gangues e alertando-as sobre a investigação. Como resultado, a polícia brasileira teve que agir rapidamente para prender os alvos.Ao mesmo tempo, Washington tem buscado fortalecer a cooperação com líderes conservadores no Hemisfério Ocidental por meio do Escudo das Américas, uma nova aliança de segurança contra o narcotráfico, que não inclui o Brasil. Alguns membros, incluindo Equador e Colômbia, concordaram em realizar operações militares conjuntas com os Estados Unidos em seus países.No mês passado, o Brasil também não foi convidado para uma reunião de autoridades de segurança da América Latina e do Caribe, liderada pelos Estados Unidos, nas Nações Unidas.A disputa diplomática entre o Brasil e os Estados Unidos se intensificou nos últimos meses, com uma série de novas rejeições e cancelamentos de vistos.Mas, embora o governo Trump tenha procurado usar vistos como parte de seu esforço para afirmar sua dominância na América Latina, essa abordagem pode apenas alienar ainda mais o Brasil.“Queremos que o Brasil esteja mais próximo dos Estados Unidos, e não mais distante”, disse Jimmy Story, ex-embaixador dos EUA e sócio fundador da Global Frontier Advisors, uma empresa de consultoria. “E esse tipo de diplomacia tem o efeito contrário.”©2026 The New York Times CompanyThe post EUA e Brasil uniram forças no combate ao crime – mas crise diplomática afeta parceria appeared first on InfoMoney.
