Fundos de ações no Brasil encolhem em meio ao imediatismo dos investidores

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A indústria brasileira de fundos de ações atravessa uma crise severa, com o patrimônio total recuando mais de 80% nos últimos anos. Atualmente, a categoria retém cerca de R$ 100 bilhões, um valor considerado baixo para o potencial do mercado. O cenário foi debatido pelos gestores Cesar Paiva (Real Investor) e Pedro Gonzaga (Mantaro Capital) no podcast Stock Pickers, durante o encontro anual da Berkshire Hathaway em Omaha.Para os gestores, o investidor brasileiro tornou-se excessivamente imediatista, movido por uma busca de “dopamina financeira” em resultados de curto prazo. A taxa Selic, fixada em 14,50% ao ano, reforça esse comportamento ao oferecer retornos elevados na renda fixa sem risco. Em contraste, o mercado americano praticamente não oferece essa alternativa, obrigando o capital a buscar o setor produtivo e o mercado de capitais.Veja mais: Berkshire sem Buffett: o maior desafio em 60 anos começa agoraE também: BC sem saída? Gestores veem corte menor de juros após choque globalCesar Paiva citou uma metáfora de Warren Buffett para descrever a situação: o mercado financeiro assemelha-se a uma igreja com um cassino ao lado, onde o cassino costuma ser mais atraente para a maioria. No Brasil, essa preferência pela aposta rápida em detrimento da capitalização lenta tem drenado os recursos que antes alimentavam os fundos de gestão ativa de ações.Olimpíadas e Copa do Mundo: EUA conseguirá repetir feitos econômicos anteriores?Vale (VALE3): a tese mudou? O que fazer com ação após derrocada com balanço do 1TO abismo cultural entre Brasil e Estados UnidosUma das diferenças mais marcantes observadas em Omaha foi o perfil do público. Enquanto nos Estados Unidos o investimento em ações é um hábito de pessoas comuns e famílias, no Brasil os eventos do setor são dominados por profissionais do mercado financeiro. A tradição americana de presentear filhos com carteiras de ações contrasta com o hábito brasileiro de focar exclusivamente em títulos públicos ou CDBs.Pedro Gonzaga ressaltou que a associação direta entre o mercado de ações e o índice Ibovespa também prejudica a percepção do investidor local. Em janelas longas, a composição do índice pode sugerir que a renda variável não gera valor, ignorando o histórico de gestores que superam consistentemente o benchmark. Para ele, essa visão equivocada afasta o capital de estratégias de valor bem fundamentadas.A política econômica também desempenha um papel no desestímulo ao risco. Paiva observou que, enquanto nos EUA a baixa remuneração dos títulos públicos incentiva o empreendedorismo e a abertura de empresas, no Brasil a renda fixa “polpuda” acaba capturando o capital que poderia ser investido na economia real. O resultado é uma indústria de fundos que luta para manter sua relevância.Leia tambémEstrangeiros impulsionam Petrobras, mas gestores alertam para risco do petróleoComo o dinheiro estrangeiro entra via índices, ele compra automaticamente as ações de maior pesoPerspectivas para a retomada do setorApesar do cenário adverso, os gestores mantêm o otimismo com a capacidade de gerar retornos acima da média por meio de uma seleção rigorosa de ativos. Eles acreditam que, embora o índice geral possa oscilar, carteiras bem montadas e focadas em fundamentos continuam sendo o melhor caminho para a preservação e crescimento do patrimônio no longo prazo.A conclusão é que a recuperação da indústria de fundos de ações no Brasil depende não apenas de uma queda sustentada dos juros, mas de uma mudança cultural profunda. Sem paciência para o processo de capitalização e sem um olhar voltado para o valor real das empresas, segundo os gestores, o mercado brasileiro continuará perdendo espaço para o imediatismo da renda fixa e das apostas de curto prazo.The post Fundos de ações no Brasil encolhem em meio ao imediatismo dos investidores appeared first on InfoMoney.

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