Grupo Boticário espera pressão de juros após anos de crescimento sólido, diz CEO

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Fernando Modé chegou ao Grupo Boticário — então apenas O Boticário — em 1999. Advogado de formação, seria o responsável por estruturar o departamento jurídico da empresa. Cerca de 20 anos depois, ele se tornaria a primeira pessoa de fora da família fundadora a assumir o cargo de CEO da companhia em um de seus principais ciclos de crescimento.Entre 2021 e 2024, o Grupo Boticário adicionou em vendas ao consumidor o mesmo tanto que construiu de 2020 para trás. “O que nós estamos vendo agora é um estágio de acomodação do que criamos nos últimos cinco anos. Quase triplicamos a companhia”, conta o executivo em entrevista de vídeo ao InfoMoney Entrevista.Em 2025, o Grupo Boticário atingiu a marca de R$ 38,1 bilhões em vendas ao consumidor, um crescimento de 7% em comparação ao ano anterior. Essa evolução ocorre em um cenário desafiador: além de um arrefecimento do desempenho do mercado de cosméticos em geral, há pressão vinda da economia e até da geopolítica.Os juros elevados nos últimos anos tomaram parte da renda disponível das famílias, com uma Selic hoje em 14,5%. “Estamos em um setor e uma empresa bastante resiliente em relação aos níveis de venda, mas não estamos deslocados dessa relação de mercado.”, afirma Modé. Além do mais, ele pondera que a evolução da cesta de consumo — ou seja, a quantidade de produtos e serviços comprados — também aumenta a disputa pelos bolsos dos brasileiros.Parte dessa concorrência pela preferência dos consumidores ocorre no próprio mercado de cosméticos, enquanto empresas nativas digitais associadas a influenciadores se popularizam, especialmente no segmento de maquiagem, mais capaz de capturar a imagem dessas celebridades. Para Modé, no entanto, há um desafio para esses entrantes. Apesar da influência de figuras digitais reduzir as barreiras de entrada no mercado, operações envolvendo maquiagem, em específico, são complexas. “Precisa de muita inovação, variedade, diversidade. Há infinidades de cores de pele e infinitas cores de batom e de esmalte”, avalia.Segundo o executivo, a participação de mercado dessas empresas emergentes ainda fica abaixo de 5%. “O que acaba acontecendo é que a barreira de entrada é menor, mas a continuidade é muito difícil”, conta.Embora ainda reticente sobre expor cálculos internos, Modé disse na entrevista que o Grupo já mensura os potenciais impactos da aprovação de uma lei para a redução da jornada de trabalho da escala 6×1 na operação. Ele avalia que a alternativa do Senado Federal ao texto aprovado da Câmara dos Deputados “faz mais sentido”.“Para nós, o impacto maior se dá no varejo: trabalhamos de segunda a domingo de forma ininterrupta, principalmente quando dentro de shoppings”, diz ele, ponderando que o impacto seria menor na indústria e nos escritórios. “Acreditamos bastante na adequação de cada estilo e ter liberdade de negociação com a participação dos sindicatos, como vem sendo.”Leia, abaixo, a entrevista editada com o CEO do Grupo Boticário, Fernando Modé:InfoMoney: Em 2022 o Grupo Boticário adquiriu a marca Truss. Fusões e aquisições estão no radar da empresa para manter o ritmo de expansão?Fernando Modé: Fizemos diversas aquisições desde 2020 para adicionar competências que precisávamos. Nesse mundo de transformação digital, foram fintechs, empresas de operação financeira, logtechs. Também tivemos aquisições de empresas de dados. Por esse meio, trouxemos 180 cientistas de dados para dentro de casa. Hoje, no nosso grupo de colaboradores, são cerca de 500 profissionais do tipo. Tínhamos zero há cinco anos.Sempre olhamos para o mercado. Hoje, em termos de competências de tecnologia, estamos bem cobertos.Olhando para o negócio principal, há várias possibilidades aqui no Brasil, inclusive, de criação de marcas orgânicas, como já sabemos fazer. O que estamos vendo agora é um estágio de acomodação do que criamos nos últimos cinco anos. Quase triplicamos a companhia. Há dores nesse processo também. O mercado nos últimos dois anos arrefeceu bastante e, nesse momento, vamos fortalecer e vir com mais capacidade e agilidade na forma de atender às demandas do consumidor.IM: Quanto desse processo de crescimento vem também de uma operação internacional?FM: Está estável em 5%. Não porque não estamos crescendo. No período de 2020 para cá, multiplicamos por seis vezes o tamanho da nossa operação internacional, mas mesmo assim, como o crescimento interno foi bastante forte, ele ainda participa 5% do total de negócios gerados. Não há perspectiva de aumentar isso no curto prazo, mas os negócios internacionais vão continuar crescendo.IM: Como mudanças no mercado como a aderência a produtos cosméticos da Coreia ressoam no negócio de vocês em termos de concorrência e adaptações em pesquisa e desenvolvimento?FM: No nosso setor existe essa característica de ondas, porque em ciclos curtos sempre aparece alguma coisa. K-Beauty realmente é quente não só no Brasil, mas fora também. A cultura coreana é propalada desde a década de 90. O K-Beauty está associado ao K-Pop. Tem toda uma indústria que se planejou para chegar nesse ponto e, hoje, percebemos isso com uma força maior.Se fizermos um recorte sobre fragrância, também há a perfumaria árabe, um hype importante no momento em que vivemos. A lógica de operação de cada uma das nossas marcas vai seguir a disciplina de cada uma delas, não fechando os olhos para esse tipo de possibilidade. O que pudermos entender e entregar para o consumidor, naquilo que ele está buscando, influenciado por esse tipo de hype, faremos.Lançamos um perfume árabe, além de outros que já possuem fragrâncias similares, como o Blend, um produto que já é do nosso carro-chefe. Mas lançamos também o Hadiya no final do ano passado, que foi um sucesso de vendas.IM: Outro movimento de mercado é a criação de marcas nativas digitais, muitas vezes associadas a ícones populares na internet, celebridades, influenciadores. Como isso também impacta o Grupo?FM: Vejo duas coisas: uma questão mais estrutural, outra mais contextual.A estrutural: nosso mercado tem uma característica de ter uma barreira à entrada de novos players muito baixa. As celebridades sempre tiveram uma chance de monetizar parte do que elas têm de capacidade de influenciar outras pessoas no consumo de algo. Estou falando desde Luma de Oliveira, na década de 1990, até Gisele Bündchen. Nosso setor sempre teve esse tipo de coisa.O que vemos é que, com o advento das influenciadoras, isso se intensifica um pouco. Então, olhamos, na verdade, o volume de tentativas de chegar a um mercado maior. Se somarmos todas elas, é uma participação ainda pequena no mercado: abaixo de 5% na totalidade.No nosso setor, o acesso, normalmente, se dá por meio da categoria de maquiagem, que elas conseguem associar com sua própria imagem. Mas esta é a categoria mais difícil de ser operada. Precisa de muita inovação, variedade, diversidade. Há infinidades de cores de pele e infinitas cores de batom e de esmalte. Imagine gerenciar tudo isso em uma cadeia de produção, com volume de perda e estoque?A barreira de entrada é menor, mas a continuidade é muito difícil.A Nina Secrets é uma marca nossa que surgiu de um acordo com a influenciadora. Uma parceria entre uma influenciadora que causa desejo e consegue impulsionar produtos de qualidade, com a sua cara, sua determinação e uma companhia como a nossa, que consegue colocar isso à disposição do consumidor de maneira competente. Conseguimos levar um nível de faturamento bastante grande e importante, colocando nos canais que operamos. IM: Uma pesquisa da Nielsen diz que vendas de produtos de beleza em farmácias cresceram 6%, contra uma queda de 1% no volume total do setor em 2025. Como o varejo físico de cosméticos e beleza tem se adaptado à concorrência do varejo digital?FM: No mundo em que vivemos a maior evolução se dá pelo hábito do consumidor em diversos momentos de consumo. Se estou em casa, relaxado no sofá, abro o celular e vou querer procurar alguma coisa, até para comprar. Mas, às vezes, eu quero ter uma experiência física. Vou me dirigir a um shopping center, ou uma loja de rua do Boticário.Hoje a jornada começa, muitas vezes, na palma da sua mão, com a informação sobre o produto que você quer e através de lá é que você se direciona para uma loja. Depois que você sair da loja, muito provavelmente a relação com o celular ainda continua.O que vemos é que, estruturalmente, a divisão de canais do Brasil e do nosso setor não tem se alterado tanto. O canal cresceu mais na pandemia, depois devolveu em parte o que tinha conquistado em participação. O marketplace ganhou espaço, mas a distribuição em canais como um todo se mantém.IM: O Grupo Boticário atingiu R$ 38,1 bilhões em vendas em 2025. O cenário de juros elevados e incerteza sobre o patamar que ele estará no fim do ciclo de quedas pode reduzir o crescimento?FM: Pode ser menor por conta do macro que vai afetar todo o setor. Em 2025, o nosso crescimento foi de 7%. O que vemos, não do ponto de vista da nossa própria atividade empresarial — continuamos crescendo, investindo —, mas os juros tomam uma parte importante da renda disponível e já tem feito isso há muito tempo. Quase 70% do nosso PIB é formado pelo consumo das famílias. O consumo das família, que em 2024 foi de 5,1%, foi só de 1,3% em 2025.Estamos em um setor e uma empresa bastante resiliente em relação aos níveis de venda, mas não estamos deslocados dessa relação de mercado. A cesta de consumo evoluiu muito também, então tem muita gente operando a demanda para o mesmo bolso do consumidor, e essa é a nossa briga constante: nos apresentarmos como a melhor companhia para atender as necessidades, seja de uso próprio, seja de presentear alguém.IM: Outra questão que impacta companhias de todos os setores é o contexto geopolítico. O fechamento do Estreito de Ormuz recentemente, por exemplo, gerou impacto nas cadeias produtivas. Guerras no Oriente Médio e na Ucrânia impactam de alguma forma o Grupo Boticário?FM: Ainda não experimentamos, mas em algum momento, com certeza, iremos. O preço do barril de petróleo próximo a US$ 100 afeta uma série de cadeias de insumos, como a de plástico, que nós utilizamos. A guerra no Oriente Médio também atrapalha a circulação de navios para entrega de produtos, o que impacta a logística do mundo todo. Ainda não sentimos, mas sentiremos quando tivermos um custo de reposição da matéria-prima do insumo que compramos, como material de embalagem que, provavelmente, será reprecificado.IM: Deve haver um repasse desse aumento aos consumidores?FM: Veremos o quanto é possível absorver internamente, dado que o mercado também está se comportando de maneira não recessiva, mas de crescimentos mais atenuados. Vamos tentar segurar o máximo possível com os fornecedores, com eficiências internas e repassar o mínimo possível desses impactos de custos para que o preço não fique muito desajustado num mercado que está menos comprador.Leia também: Medley vê “nova fase” com possível compra pela EMS e mira crescer além dos genéricosIM: Outra questão para a qual setores produtivos entendem que deve haver impacto de preço é o fim da escala 6×1. Em maio, a Câmara aprovou um texto, que ainda precisa passar pelo Senado. Para vocês, que tipo de impacto teria essa eventual nova jornada?FM: Ainda depende da aprovação do Senado, que tem sua própria proposta paralela à aprovada na Câmara, a PEC 12. Não sei para onde essa questão vai, mas se tomarmos isso como consolidado, haverá impacto em custos. Para nós, o impacto maior se dá no varejo: trabalhamos de segunda a domingo de forma ininterrupta, principalmente quando dentro de shoppings. Em lojas de rua, às vezes não abrimos aos domingos, mas aos sábados, com certeza. Essa mudança altera todo o regime de jornada de quem está trabalhando intensivamente nas vendas. E o comportamento do consumidor também. Hoje, o 6×1 permite que consumidores possam comprar no sábado, por exemplo, porque há pessoas trabalhando além dos cinco dias úteis, como chamamos. Apesar de o sábado também ser um dia útil, na jornada atual. Na indústria, o impacto é pequeno e no escritório, ainda menor. Nos escritórios, hoje, temos uma jornada em torno de 42 horas. Seria mais fácil de acomodar.IM: Vocês calculam de quanto seria esse impacto? FM: Fazemos vários estudos, mas não queremos cravar nada antes da regulamentação. Assim que aparecer, vamos precisar lidar com ela. Hoje, estamos nos especializando, independente disso, em qual o melhor regime de uso do espaço que temos. Tanto o espaço físico, quanto também da mão de obra associada a esse espaço físico. Temos algoritmos a serem desenvolvidos para que possamos inclusive disponibilizar às nossas franquiais, para operar da maneira mais eficiente possível.IM: E essa alternativa que está no Senado, que eles chamam de PEC da flexibilização, é uma alternativa que faz mais sentido na impressão de vocês?FM: Faz mais sentido na lógica do que foi a reforma trabalhista que tivemos por volta de 2017, que vai, na verdade, na flexibilização e não no enrijecimento. Falamos em 6×1, mas há várias outras escalas. A Constituição, desde 1988, privilegia, inclusive, o acordado sobre o legislado, porque é difícil acomodar, a priori, uma realidade para todas as empresas. Acreditamos bastante na adequação de cada estilo e ter liberdade de negociação com a participação dos sindicatos, como vem sendo. Talvez o texto final trabalhado no Senado também inclua isso, ainda que na lógica de 6×1.The post Grupo Boticário espera pressão de juros após anos de crescimento sólido, diz CEO appeared first on InfoMoney.

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