Guerra e salto do petróleo aumentam peso da segurança energética: como Brasil está?

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Os ataques dos EUA e de Israel contra o Irã, no coração da região responsável por boa parte da produção global de petróleo e gás, têm o potencial de redefinir o setor de energia, com implicações geopolíticas, num mundo já turbulento. O tarifaço de Donald Trump deu mais um passo rumo ao fim da ordem multilateral sob as Nações Unidas, enquanto cientistas vinham alertando para a lentidão da transição energética, desdenhada pela Casa Branca.A guerra — maior disrupção na oferta de petróleo e gás da história, superando as crises dos anos 1970, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE) — incluiu de vez a dimensão da segurança na busca por fontes de baixo carbono, reforçando a importância de matrizes diversificadas e menos dependentes de poucos fornecedores, disseram especialistas ao GLOBO.A junção de sustentabilidade ambiental com estratégia geopolítica, sinalizada desde 2022 com a invasão da Ucrânia pela Rússia, poderá arrastar ainda mais o ritmo da transição. O carvão, mais poluente das fontes fósseis, deverá ter uma sobrevida, enquanto a energia nuclear poderá ganhar fôlego para além de sua capacidade de atender a demanda crescente dos datacenters da inteligência artificial (IA). O Brasil é considerado bem preparado, mas não faltam riscos por todos os lados.Alerta de AIE, FMI e Banco MundialLogo na abertura das reuniões de primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, no último dia 13, os líderes dos organismos multilaterais se uniram ao diretor-executivo da AIE, numa declração conjunta, para alertar que “o impacto da guerra é substancial, global, e altamente assimétrico, afetando desproporcionalmente os importadores de energia, em particular países de baixa renda”.“O choque levou a preços mais altos de petróleo, gás e fertilizantes, disparando preocupações sobre a segurança alimentar e também sobre perdas de empregos. Alguns produtores de petróleo e gás no Oriente Médio também viram uma perda dramática de receita com exportações”, diz a declaração.Leia tambémPetrobras (PETR4) eleva querosene de aviação em 18% a partir desta sextaO aumento da Petrobras corresponde ⁠a ‌um acréscimo de R$1,00 ⁠por litro em relação ao preço do mês anterior— O tema que orientará os próximos anos é como governos, empresas e populações vão procurar meios para reduzir sua insegurança e incerteza, e como isso impactará na estabilidade dos governos e nas relações econômicas internacionais — disse Luiz Carlos Delorme Prado, professor do Instituto de Economia da UFRJ, dando mais ênfase à segurança do que a preocupação ambiental que move a transição energética.Quem acompanha as tendências da transição para o baixo carbono segue vendo um caminho sem volta, mas aposta numa associação das duas dimensões. A necessidade de diversificar fontes em prol da segurança, para não ficar dependente de importações de gás natural do Oriente Médio, por exemplo, levará os países a investirem mais em renováveis, segundo Clarissa Lins, sócia da consultoria de sustentabilidade Catavento e conselheira do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).Além disso, como a geração de eletricidade já é naturalmente mais nacional do que as demais componentes da matriz energética, os incentivos para a eletrificação poderão ser reforçados.A sobrevida do carvãoNa combinação de segurança com baixo carbono, o carvão sobrevive, por mais poluente que seja, porque, no curto prazo, pode ser um porto seguro para quem depende da importação de petróleo e gás, especialmente na Ásia, que busca de 80% a 90% desses insumos no Oriente Médio. Tanto que, no início do mês, o governo da Índia pediu o adiamento, para julho, de uma série de paradas de manutenção em usinas termelétricas a carvão, que seriam feitas até junho, informou a agência Bloomberg. Dias antes, a Taiwan Power Co., estatal responsável por boa parte da geração de eletricidade da ilha que é a meca da produção de chips, anunciou que vai ampliar a produção de uma usina a carvão.— A Ásia vai adiar o phase out (abandono gradual) do carvão, mas temos que entender o que é conjuntural e o que é estrutural. Estruturalmente, segue a corrida por renováveis. Até porque o carvão não é competitivo no médio prazo — disse Clarissa, lembrando que a China, cuja estratégia geopolítica chama a atenção ao focar também numa corrida por tecnologias verdes, investe para se tornar “campeã em energia de baixo carbono”, mas, por segurança, “não abre mão do carvão”.Mais um argumento para a energia nuclearA energia atômica poderá ganhar mais do que uma sobrevida. Seus defensores já listavam suas vantagens: produção constante de eletricidade, baixa emissão de gases do efeito estufa e geração de grandes quantidades em espaços menores do que os de usinas eólicas ou solares. Agora, a menor dependência do Oriente Médio também foi incluída.De acordo com o relatório Perspectivas Mundiais de Energia de 2025, da AIE, o nível atual dos investimentos em usinas atômicas dobrou ante 2015. Hoje, a fonte nuclear responde por 5% da oferta global. Nas contas da AIE, a fatia chegará a 7% em 2050, mas poderá ficar em 8%, se as políticas de combate a mudanças climáticas já anunciadas forem levadas adiante.A França, bastião da energia atômica na Europa, registrou mês passado a maior geração nuclear para meses de março desde 2019, de acordo com a Bloomberg. Até a Alemanha, que desligou em 2023 sua última usina — num acelerado plano de transição, reforçado pelo desastre de Fukushima, no Japão, em 2011 —, parece arrependida. — O phase out da energia nuclear foi um erro enorme e sentimos falta dessa energia, também porque ela era produzida por preços economicamente viáveis — disse a ministra de Assuntos Econômicos e de Energia da Alemanha, Katherina Reiche, no fim de março.A ministra fez a avaliação durante a CERAWeek, encontro promovido pela Standard &Poor’s (S&P) em Houston (EUA), numa sessão, disponível no site do evento, mediada por Daniel Yergin, vice-presidente do conselho da consultoria e agência de risco.Setor mais resiliente e diversificadoPara Yergin, renomado especialista em energia, uma guerra no Oriente Médio é o “cenário de pesadelo” desde a Revolução Islâmica no Irã, em 1979, mas o atual conflito encontra o setor “mais resiliente e diversificado”.A resiliência aparece nos estoques de petróleo da China e dos países da AIE e nos oleodutos da Arábia Saudita — alternativa ao Estreito de Ormuz.E “a maior mudança” na diversificação ocorreu nos EUA, segundo artigo de Yergin publicado no jornal britânico Financial Times, logo após o início da guerra. “Menos de duas décadas atrás”, diz o texto, os EUA eram “o maior importador de petróleo do mundo”. Hoje, são o maior produtor e o maior exportador de GNL, o gás natural liquefeito, após a revolução do xisto.Segundo Lucas Boacnin, gerente de desenvolvimento de negócios da consultoria Argus no Brasil, os EUA estão numa melhor situação do que nas crises dos anos 1970, e os produtores americanos poderão sair ganhando como fornecedores mais confiáveis do que os países do Oriente Médio ou a Rússia. Mesmo assim, a transição energética seguirá seu rumo, disse o consultor:— Também temos lá alguns dos maiores investimentos em descarbonização. O que tem de investimento em biorrefinarias nos EUA é muito relevante.Para Clarissa Lins, do Cebri, a Casa Branca poderá defender as fontes fósseis, mas poderá encontrar pouco eco entre os potenciais clientes de suas exportações, justamente por causa da segurança, pois a “narrativa” de que as fontes fósseis são mais seguras “é confrontada pela realidade”, desde a guerra da Ucrânia:— É a segunda crise na década.A diferença da década de 1970 para agoraSe, agora, os EUA não são mais o grande importador dependente dos fornecedores do Oriente Médio, como nas crises da década de 1970, o contexto geopolítico é outro. Segundo o professor Delorme Prado, naquela época, houve outro evento marcante para a economia mundial: o abandono da conversibilidade do dólar com o ouro, em 1971. A combinação disso com a reação do Federal Reserve (Fed) à inflação disseminada pelas crises do petróleo — a mais famosa ação de um banco central contra a inflação via juros, levando a taxa básica americana ao recorde de 20% ao ano no fim de 1980 — levou ao fortalecimento do dólar e da hegemonia dos EUA, diante de uma União Soviética “enfraquecida” e de uma Europa “dependente financeira e militarmente” dos americanos.Hoje, a hegemonia americana está ameaçada pela China. Para Prado, a posição atual dos EUA sob o governo Trump poderá trazer ainda mais riscos do que na década de 1970:— Os EUA parecem não ter condição de impor sua agenda, mas têm a capacidade de desorganizar as instituições internacionais, afetar o funcionamento do comércio mundial e provocar crises econômicas e políticas.Brasil está bem posicionado, mas há riscosO Brasil é considerado bem preparado para as mudanças no setor de energia. Do ponto de vista da diversificação, a matriz energética brasileira já é das mais renováveis e menos dependentes, tanto de fósseis quanto de importações.Neste ponto, é o contrário: com o pré-sal, o Brasil está entre os dez maiores produtores do mundo, e hoje é exportador líquido. A disparada nas cotações do barril trará mais dólares para o país, mais arrecadação para os governos e mais crescimento econômico. Como resultado, o câmbio não para de cair por aqui, mesmo com o clima de crise.Além disso, o Brasil está na fronteira dos biocombustíveis: é o segundo maior produtor de etanol do mundo, experimenta um ciclo de investimentos bilionários na produção a partir do milho, que se soma à cana, e tem potencial para substituir boa parte do consumo de gás natural por biometano, substituto idêntico do insumo, fabricado a partir da decomposição de matéria orgânica, como lixo ou esterco. Mas nem tudo são flores. Nas palavras de Javier Toro, gerente sênior de pesquisa da consultoria Wood Mackenzie para o Cone Sul, “o Brasil está bem preparado, comparativamente, mas não está imune”, porque a proteção oferecida por essas vantagens comparativas tem limites:— O Brasil ainda depende da geração termelétrica para cobrir os picos de demanda de eletricidade, importando GNL quando a geração a gás aumenta, criticamente, durante o período de seca, pois a geração das hidrelétricas fica mais fraca.O consultor lembrou ainda que boa parte das usinas termelétricas tem contratos de fornecimento indexados a cotações de mercado do GNL, que assim como o barril de petróleo estão em disparada. O mesmo vale para o gás natural usado na indústria. O risco é a elevação generalizada de custos industriais e de transportes — por causa do diesel que move os caminhões — espalhar inflação por aqui.— Estruturalmente, o Brasil segue melhor posicionado do que a maioria dos países para navegar por esta crise, mas os riscos de inflação ligados às cotações de petróleo e gás vão depender, ultimamente, da duração do conflito e do quão estressado será o ciclo hidrológico — resumiu Toro.Clarissa Lins, do Cebri, alertou também para “oportunidades perdidas”. Uma delas é a redução da dependência do modal rodoviário movido a diesel na matriz logística — isso mesmo após o choque da greve de caminhoneiros de 2018, lembrou a consultora. Para complicar, o setor elétrico está cheio de desequilíbrios, como o excesso de geração eólica e solar que não é plenamente transmitida por todo o país, lembrou Clarissa.E, do ponto de vista geopolítico, uma ordem mundial menos multilateral — temperada por belicismo e traços expansionistas, que surgem na captura de Nicolás Maduro pelos EUA na Venezuela e na retórica de Trump sobre a anexação da Groenlândia ou do Canadá —, poderá ser mais arriscada para o Brasil, país emergente sem capacidade militar de defesa, lembrou Prado.The post Guerra e salto do petróleo aumentam peso da segurança energética: como Brasil está? appeared first on InfoMoney.

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