IA na gestão de recursos: onde o humano perdeu valor (e onde ganhou muito)

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A inteligência artificial já desempenha tarefas que antes definiam o começo de carreira de um analista de investimentos – ao mesmo tempo, tornou os profissionais humanos ainda mais necessários na tomada de decisões.

Para discutir o papel da IA na gestão de investimentos, Clara Sodré, analista de investimentos da XP e apresentadora do Espresso Outliers InfoMoney, entrevistou Alexandre Muller. Ele é CIO da Leto Capital, que tem R$ 23 bilhões sob gestão, mais de 22 mil cotistas e 12 anos de track record em crédito estruturado.

Onde o humano perdeu valor (e onde ganhou muito)

Muller recorre aos seus primeiros dias de carreira para mostrar como a inteligência artificial mudou o ambiente profissional na gestão de recursos. “Eu comecei como analista de crédito, lá em 2003. Meu trabalho era ler um livro, dominar uma técnica, aplicar aquela técnica de análise de balanço financeiros de empresas brasileiras. Isso hoje é facilmente feito por ferramentas de IA”, afirma.

Segundo o CIO da Leto Capital, a habilidade de tomar decisões ganhou importância, multiplicada pela produtividade da tecnologia. “O pensamento crítico, a capacidade de ler as pessoas, de ler o contexto, de aplicar a ferramenta dentro de um processo de construção mais amplo de raciocínio, são essencialmente humanas”, afirma.

Na leitura de Muller, as gestoras de recursos estão dividindo tarefas: a máquina cuida de rotinas cartesianas e libera os humanos para o exercício de julgamento que efetivamente diferencia uma decisão de investimento.

A IA dá escala – aos acertos e aos erros

Para Muller, a inteligência artificial dá escala à decisão humana – e isso pode ser uma boa ou má notícia, dependendo do humano em questão. “Se você gosta de ter acesso a conteúdo, de refletir sobre a variedade de conteúdos, de trocar uma ideia e testar uma hipótese, a ferramenta é brilhante. Vai te acelerar como pessoa, como profissional”, afirma.

“Agora, se você não tem paciência de ler um livro e começa a terceirizar tudo para a inteligência artificial, ela vai potencializar uma tendência negativa sua.”

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O risco mais específico da IA no mercado de capitais, afirma Muller, é de descolamento da realidade. “A natureza do investimento é multiplicação de capital, e o capital não se multiplica pelo acaso: se multiplica quando o trabalho de um grupo de pessoas gera impacto, que vira lucro para a companhia e rentabilidade para os investidores”, afirma Muller.

“Quando o investidor se esquece disso e acha que está em um videogame, passa a ter problema – e a inteligência artificial pode ser uma tentação nesse sentido.”

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IA deve ajudar a pensar melhor, e não menos

Para separar o uso produtivo da tecnologia da terceirização preguiçosa do raciocínio, Muller aposta em um conceito que chama de life long learning – aprendizagem contínua ao longo da vida.

Ele observa que adultos e crianças aprendem de maneiras diferentes. “A criança é muito orientada pela pedagogia clássica: absorve o que o professor ensina. O adulto, não. Precisa se automotivar, se autoestimular.”

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A busca ativa por aperfeiçoamento, segundo Muller, vale tanto para profissionais quanto para empresas. “Companhias que ficam muito dominantes começam a entrar na tentação de deixar de aprender. É um perigo”, afirma.

“A inteligência artificial tem que ser ferramenta para o aprendizado, e não para deixar de aprender”.

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