Investidores que analisam a planejada mega oferta pública inicial (IPO) da Anthropic enfrentam um dilema incomum: como avaliar uma empresa que, segundo alguns especialistas, poderia ajudar a provocar a extinção da humanidade.Pesquisadores que publicaram no X estimativas de 10% ou mais de probabilidade de a inteligência artificial provocar o fim da espécie humana desencadearam um debate do qual participou Dario Amodei, cofundador e CEO da Anthropic.Em um ensaio recente, Amodei expôs preocupações de que os seres humanos possam perder o controle sobre sistemas avançados de IA. Ele também alertou para o uso dessas ferramentas em ataques cibernéticos, bioterrorismo e grandes disrupções econômicas caso os pesquisadores não reduzam o ritmo de desenvolvimento da tecnologia.Embora muitos considerem absurda a ideia de responsabilizar uma empresa pela extinção da humanidade ou mesmo quantificar esse risco em documentos de IPO, os perigos potenciais enfrentados pela Anthropic e pela OpenAI têm sido comparados aos de empresas que lidam com materiais perigosos ou equipamentos militares.Segundo Sam Lessin, sócio da Slow Ventures, um precedente para lidar com esses riscos pode ser encontrado nas medidas adotadas após a crise financeira de 2008. O investidor defende que os laboratórios de IA sejam obrigados a reservar até US$ 1 trilhão como garantia para cobrir eventuais danos futuros, semelhante às exigências impostas aos bancos após a crise.Mesmo assim, ele acredita que o valor poderia não ser suficiente.“As responsabilidades podem representar um risco de US$ 2 trilhões ou US$ 4 trilhões para a sociedade, mesmo antes de considerar os cenários de extinção em massa de que eles próprios falam, o que tornaria essas empresas, no conjunto, valendo menos que zero”, afirmou Lessin à Bloomberg.Ainda assim, alguns investidores podem estar dispostos a comprar ações da Anthropic assumindo que eventuais custos futuros acabariam sendo absorvidos por terceiros.A empresa se recusou a comentar.Debate apocalípticoOs planos da Anthropic de levantar tanto ou mais recursos em seu IPO do que a SpaceX arrecadou em sua estreia histórica ocorreram justamente quando o debate sobre segurança da inteligência artificial passou a incluir cenários extremos.Apesar disso, o tema não parece ter prejudicado o desempenho da SpaceX no mercado.A empresa de Elon Musk também aposta fortemente em IA e desenvolve o modelo Grok, concorrente direto dos sistemas da Anthropic e da OpenAI. Nos documentos de seu IPO, porém, a companhia mencionou riscos como desinformação e enganos produzidos por IA, mas não citou ameaças existenciais.As ações da SpaceX negociam mais de 20% acima do preço da oferta realizada em junho.Para parte dos investidores, a recente iniciativa do presidente Donald Trump de firmar um acordo considerado “moralmente vinculante” com líderes das grandes empresas de tecnologia ajudou a reduzir os temores regulatórios sobre o setor.Kevin Moss, gestor do fundo Private Shares Fund, afirma que a inteligência artificial precisa de um marco regulatório, mas acredita que a discussão sobre segurança dificilmente será capaz de comprometer os planos de IPO da Anthropic.Quanto custa a segurança?Até agora, a maior parte da responsabilidade de mitigar riscos recai sobre as próprias empresas de IA.Analistas avaliam que investimentos em mecanismos de segurança podem elevar custos, mas também fortalecer a confiança dos clientes e criar vantagens competitivas.O desafio é que ainda existe pouca clareza sobre como funcionariam eventuais responsabilidades legais ligadas à IA.A indústria de seguros já trabalha para desenvolver produtos destinados a empresas do setor. Segundo especialistas, entretanto, a ausência de precedentes e de dados históricos dificulta a precificação dos riscos.À medida que a IA evolui de simples ferramenta de informação para sistemas capazes de tomar decisões e interagir autonomamente com outros agentes, cresce também a discussão sobre quem será responsabilizado caso ocorram danos significativos.Para investidores da Anthropic, que pode buscar uma avaliação próxima de US$ 2 trilhões, a decisão acaba sendo relativamente simples: aceitar um risco difícil de medir ou ficar de fora.“É improvável que investidores deixem de participar desses IPOs por exposições que não conseguem quantificar”, afirmou Joe Ziolkowski, CEO da Relm Insurance. “Este é um bom momento para captar recursos antes que alguns desses riscos se tornem objetivamente mensuráveis.”© 2026 Bloomberg L.P.The post IPO da Anthropic gera dilema: como precificar os riscos de uma IA fora de controle? appeared first on InfoMoney.
