O Tesouro dos Estados Unidos triplicou neste mês o limite das recompras de títulos longos para conter a alta dos juros, que levou o rendimento do papel de 30 anos ao maior nível em 19 anos. Para Howard Marks, cofundador da Oaktree Capital Management, a medida melhora o quadro apenas na aparência e deixa intocadas as causas do problema, a começar por uma dívida federal que já chega a US$ 40 trilhões.A crítica está no memorando enviado nesta terça-feira (22) aos clientes da gestora. Em agosto, o Tesouro dobrou o teto por operação, de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões, e em setembro o elevou a US$ 6 bilhões, sem conseguir segurar os rendimentos, que voltaram a subir após os anúncios.“Forçar a queda dos juros comprando títulos é como um médico aplicar uma bolsa de gelo em um paciente com febre”, compara Marks. Para ele, o efeito das recompras tende a ser temporário e em grande parte psicológico, porque não ataca a origem da alta.Entre os fatores apontados pelo guru do mercado de crédito está a inflação persistente agravada pelo petróleo caro com a guerra com o Irã. Pesa também a falta de disciplina fiscal, com déficit perto de 6% do PIB em uma economia com desemprego de 4% e gastos líquidos com juros que devem superar US$ 1 trilhão neste ano, acima do orçamento de defesa.Soma-se a isso a forte demanda por capital, que inclui os investimentos em inteligência artificial e a necessidade do Tesouro de colocar no mercado cerca de US$ 2 trilhões em emissão líquida nova. Marks ainda observa que, se as recompras forem acompanhadas de mais emissão de títulos curtos, o prazo médio da dívida encolhe e o refinanciamento fica mais frequente.O secretário do Tesouro, Scott Bessent, chegou a argumentar que os rendimentos não refletem os fundamentos, citando a guerra e a baixa liquidez no mercado de títulos de 30 anos. Marks discorda. “Acho que os rendimentos dos títulos longos dos EUA estão refletindo os fundamentos”, afirma.Risco está no dólarO gestor não vê risco sério de calote, já que a dívida americana é emitida na moeda do próprio país, que segue dominante nas reservas e nas transações globais. A preocupação está no poder de compra do dólar, que pode ser corroído pelo excesso de emissão e levar investidores a exigir juros ainda maiores.Como saída, Marks defende aumentar a arrecadação como proporção do PIB, com alíquotas maiores no topo da renda e fim de benefícios fiscais, e manter os gastos crescendo abaixo da economia. Ganhos de produtividade com a IA também ajudariam, desde que a receita extra não seja gasta.Questionado por um amigo empresário se deveria vender suas ações, o americano respondeu que não, já que o problema está na gestão fiscal e no dólar, e não nas empresas ou na bolsa dos EUA. Para ele, levar recursos para fora do país traz outros riscos, e a diversificação só faz sentido para quem tem necessidades em outras moedas, e sem exageros.“Este não é um problema de investimento. É um problema político, mas que representa um problema para os investidores”, resume. A única solução, segundo Marks, é mudar o comportamento fiscal. “Vamos encarar o problema e agir?”, questiona ao fim do memorando.Até agora, na avaliação do gestor, ninguém em Washington se dispôs a fazer esse ajuste.The post Juros altos são a fatura da gastança dos EUA, não distorção, diz Howard Marks appeared first on InfoMoney.
