Juros mais altos por mais tempo: como isso muda estratégias para o Brasil e o mundo

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O ano começou com perspectivas favoráveis: o real se valorizava, a economia global desacelerava a inflação e o mercado antecipava cortes de juros no Brasil e no mundo. Em poucos meses, esse cenário mudou. Na edição 188 do Outliers InfoMoney, Clara Sodré e Fabiano Cintra conversam com Andre Raduan e Jose Luiz Torres, sócios da Genoa Capital, para entender os motivos da mudança – e como navegar daqui para frente.Desde 2020, a economia global acumulou choques em sequência: efeitos da pandemia de Covid-19, guerra na Ucrânia, tarifas impostas pelo governo Donald Trump e, mais recentemente, a guerra no Irã. A cada choque, esperava-se uma desaceleração que justificasse cortes de juros. Não foi o que aconteceu.“Mesmo com o choque, de novo a gente está vendo a economia americana surpreender”, afirma Raduan, gestor macro da Genoa. “Você saiu do mundo que era crescimento robusto com desinflação para um mundo de crescimento robusto, apesar de todos os choques, e uma inflação mais pressionada. Aí você não tem como falar de corte de juros mesmo, a taxa de equilíbrio tem que ser mais alta.”EUA: crescimento com juros altosNa avaliação de Raduan, cortes de juros estão descartados e, mais do que isso, o Federal Reserve deverá elevar taxas. A combinação de crescimento robusto, inflação pressionada e dívida pública elevada – os juros dos títulos americanos de 30 anos estão em torno de 5%, o maior patamar em 20 anos – cria um ambiente estruturalmente diferente do que prevaleceu na última década.“À medida que o mundo inteiro está fazendo fiscal ruim, o valor das moedas vai perdendo o valor e os ativos reais ganham”, afirma Raduan. “Se você tem mais dívida para rolar, acaba pagando mais caro. Provavelmente, a gente vai ter que conviver com juros reais altos.”Para Torres, gestor de ações da Genoa, um ambiente de juros altos altera a hierarquia dos investimentos. Levam vantagem negócios menos alavancados, ou com crescimento grande o bastante para superar o elevado custo de financiamento. “Empresas que crescem muito, ou que crescem sem tomar dívida, sofrem menos com esse custo de capital mais alto”, afirma.Veja mais: Fed: Atividade econômica e inflação nos EUA aumentaram nas últimas semanasE também: CPI mostra inflação “teimosa” em serviços e risco de alta de juros nos EUA continuaRevolução da IA puxa infraestruturaResultados acima das taxas de juros são um atrativo do setor de tecnologia nos Estados Unidos, impulsionado pela revolução da inteligência artificial. Torres cita a Nvidia como exemplo: no último trimestre reportado, a empresa registrou seu maior crescimento de lucros em relação aos sete ou trimestres anteriores. “Não será absurdo projetar o nível de receita dela dobrando, ano contra ano, em relação a 2026”, diz.“Os EUA ganharam a guerra tecnológica. As empresas americanas estão liderando a IA”— Andre Raduan, sócio, cofundador e gestor macro na Genoa CapitalÉ possível surfar a onda da IA sem investir diretamente em empresas de tecnologia. “A revolução tecnológica é uma revolução de infraestrutura também”, afirma Torres. Meta, Microsoft, Google, Amazon e Oracle estão investindo, somadas, cerca de US$ 730 bilhões em ativos de longo prazo em 2026 – o dobro do que investiram no ano passado. Parte relevante desse capital vai para terrenos, energia e infraestrutura de dados.Veja mais: BofA: cenário de juros altos por mais tempo desafia rali das big techsE também: Diminuição de apetite por ativos locais com brilho de ‘big techs’ tira força do real“Dá para fugir só da parte tecnológica e pegar esses associados que funcionam como segunda ou terceira derivada dessa revolução”, diz Torres. Nessa linha, a Genoa tem preferido apostar em quem fornece para os grandes investidores em IA – em vez de tentar prever qual modelo de inteligência artificial vencerá a corrida.Brasil: “tempestade perfeita”Um cenário global de juros altos, afirma Torres, é desfavorável aos investimentos locais: “O Brasil, quase que por natureza, é mais sensível a juro, então as empresas acabam sofrendo mais”. Na avaliação de Raduan, o cenário benigno do início do ano mudou. “Tudo se reverteu. Parece uma história de tempestade perfeita”, afirma. A inflação acelera para cerca de 5% a 5,5% e, na avaliação do gestor, ainda não sofreu os impactos da guerra no Irã. Somam-se ao quadro a possibilidade de El Niño e medidas parafiscais do governo.Veja mais: Bolsa perde R$ 778 bilhões em valor de mercado após recordeE também: Juros altos e incertezas: veja onde investir no segundo semestreNo plano fiscal, Raduan é pessimista: “Não vejo forças aqui no Brasil para ajudar o Legislativo a fazer um ajuste fiscal. Acho que vai ter que piorar para a gente chegar à conclusão de que precisa fazer alguma coisa.”“Por enquanto, não vejo por que estar muito alocado em Brasil”— Jose Luiz Torres, sócio e gestor de ações na Genoa CapitalNo cenário atual, a Genoa está com alocação reduzida no mercado local. “Para que eu vou tomar risco na bolsa brasileira, quando nos EUA eu tenho juros e empresas ainda que crescem a 20% ao ano?”, afirma Torres. A baixa exposição da Genoa a Brasil é momentânea, e não conceitual. “A virada acontece do dia para a noite”, lembra Torres. “A gente fica com o dedo no gatilho esperando essa virada.”The post Juros mais altos por mais tempo: como isso muda estratégias para o Brasil e o mundo appeared first on InfoMoney.

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