Longevidade: viver até os 90 anos exige mais do que patrimônio acumulado

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O aumento da longevidade impôs novos desafios ao planejamento financeiro, sendo os custos crescentes de cuidados na velhice o principal deles, um novo cenário que exige uma revisão do conceito tradicional da aposentadoria baseada apenas no acúmulo de patrimônio. Foi o que defendeu o planejador financeiro CFP Flávio Pretti e o médico geriatra medico e doutor em saúde coletiva Daniel Azevedo, durante o painel “Os desafios do profissional CFP na economia prateada. Como se preparar para a fase de pós aposentadoria dos clientes”, no Congresso Planejar 2026.Para os especialistas, depender exclusivamente do patrimônio acumulado não é mais suficiente para financiar uma vida que chega próxima aos 90 anos. Nesse sentido, o planejamento financeiro, para além das suas atribuições comuns de manejo de recursos, agora deve abordar novas fontes de renda, transições de carreira e formas de manter a relevância profissional ao longo do tempo se tornam primordiais.“Por exemplo, muitos dos colegas aqui vieram do setor bancário, de onde eu também vim. Duvido que exista um officer com 60 ou 65 anos. Ou essa pessoa avançou para posições mais altas ou já foi substituída por alguém de 30, 35 anos. Então, quando falamos de longevidade, a discussão passa necessariamente por geração de renda. O mercado financeiro é importante porque ajuda a preservar patrimônio, manter poder de compra e complementar renda ao longo do tempo. Mas, sozinho, não é a resposta. É preciso pensar não apenas em estar saudável para trabalhar por mais tempo, mas em ser empregável, fazer com que seu trabalho siga sendo desejado”, avalia Pretti.Contudo, Pretti admite que o mercado de trabalho ainda não parece preparado para absorver trabalhadores mais velhos.A discussão envolveu inclusive a possibilidade de transições de carreira. Azevedo citou o livro A Vida de 100 Anos, dos economistas Lynda Gratton e Andrew Scott, que propõe uma revisão das trajetórias profissionais diante do aumento da longevidade. Entre as alternativas estão jornadas de trabalho reduzidas, atuação como consultor e até uma segunda carreira após décadas na mesma atividade.Leia mais: Mais brasileiras 60+ vivem sozinhas; veja como proteger patrimônio e autonomiaO custo da dependência: é preciso acertar a contaA diferença entre viver mais e viver com autonomia também foi abordada na conversa, especialmente por parte de Azevedo, que é geriatra. Parte dos idosos passa por períodos prolongados de fragilidade física, dependência funcional ou quadros de demência, situações que podem exigir assistência contínua por muitos anos – como no caso da doença de Alzheimer, cuja duração média é de cerca de nove anos.Na prática, isso pode significar gastos elevados com fisioterapia, enfermagem, acompanhamento médico e instituições de longa permanência. Segundo Azevedo, mensalidades desses locais podem variar entre R$ 9 mil e R$ 15 mil, sem considerar despesas adicionais com medicamentos e produtos de cuidado.“A pessoa pode ficar frágil e por muito tempo, em um patamar baixíssimo de funcionalidade. E isso gera gastos altos”, afirmou o geriatra ao defender que esse tipo de cenário, o worst case scenario, precisa considerado no planejamento de longo prazo.Longevidade estica os processos de sucessãoOutro efeito da vida mais longa aparece dentro do planejamento sucessório das famílias. Segundo Pretti, empresas e famílias já enfrentam dificuldades crescentes para organizar processos sucessórios, porque as gerações mais velhas permanecem ativas por mais tempo, se negando a pensar no futuro. “Certamente há inúmeros exemplos de empresas familiares com problemas de sucessão porque as pessoas não querem ser sucedidas”, afirmou.A avaliação é que a longevidade ampliou o período em que líderes empresariais e detentores de patrimônio permanecem à frente de decisões financeiras e corporativas, adiando transferências de responsabilidade, que antes ocorriam mais cedo, embasada em uma falsa sensação de diminuição da urgência desse tipo de procedimento. Leia mais: Eleitorado mais velho cresce: quais são as regras do voto após os 70 anos?“Quando vamos conversar com um cliente de 60, 70 anos, tem assuntos que ele não quer falar. ‘Vira esta boca para lá, Flávio. Estou ótimo. Não é momento de eu pensar nisso’. Aqui, temos que lembrar da nossa posição: somos co-pilotos de uma operação. Temos que ajudar o cliente a decidir, trazendo todas as variáveis possíveis. Temos que orientar, mas a decisão é do cliente – e esse é o grande problema. Como leva seus clientes pela mão para um caminho que mitigue os riscos”, avalia. O tema se torna ainda mais complexo diante dos novos arranjos familiares, com casamentos múltiplos, filhos de diferentes relações e até cinco gerações convivendo simultaneamente – casos em que as questões relacionadas a patrimônio, saúde e tomada de decisão passam a envolver um número maior de interesses e potenciais conflitos.The post Longevidade: viver até os 90 anos exige mais do que patrimônio acumulado appeared first on InfoMoney.

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