O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a expor neste domingo uma antiga mágoa com o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), indicando que a relação com o magistrado continua estremecida. Em ato inaugural de campanha, o petista relembrou a decisão do integrante do STF que, em 2019, não permitiu que ele acompanhasse o enterro do irmão Genival Inácio da Silva, o Vavá, da forma como havia pedido à Justiça. O desabafo reforça a distância entre ambos, aprofundada desde que Toffolli passou a ser alvo de envolvimento no caso Master.A crítica de Lula foi feita durante ato oficial de campanha em São Bernardo do Campo (SP). Sem citá-lo pelo nome, Lula fez questão de lembrar que o magistrado havia sido indicado por ele ao Supremo.Ao recordar o episódio, o presidente contrapôs a situação vivida durante a Lava-Jato ao tratamento que recebeu quando esteve preso durante a ditadura militar e perdeu a mãe, Dona Lindu.Leia tambémLula ou Flávio terá de “ceder cada vez mais” ao Congresso, diz cientista políticoPara Carlos Melo, fortalecimento do Legislativo limita poder de agenda do próximo presidente e deve tornar governabilidade mais caraLula chega ao primeiro ato favorito nas pesquisas, mas sob pressão de novas crisesPresidente inicia a campanha oficial à frente de Flávio Bolsonaro e com alianças organizadas nos Estados, mas enfrenta avaliação dividida do governo e investigações que atingem pessoas próximas— Você veja a diferença. No tempo da ditadura militar, um delegado de polícia permitiu que eu saísse da cadeia para vir no enterro da minha mãe. Agora, no regime democrático, um juiz, um ministro que eu indiquei não permitiu que eu saísse da cadeia para vir no enterro do meu irmão Vavá. Numa demonstração de que os homens não são medidos por épocas, os homens são medidos pelo caráter, pela dignidade, pela criação que ele teve de berço — disse.A lembrança de Vavá apareceu em um momento do discurso no qual Lula relembrou episódios de sua trajetória pessoal e sindical marcados por mortes. O petista citou lideranças assassinadas, como Wilson Pinheiro e Margaria Alves, e recordou a morte da mãe enquanto estava preso em 1980 por causa da greve dos metalúrgicos do ABC.Ao falar de Dona Lindu, Lula contou que Romeu Tuma, então responsável pelo Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Dops) de São Paulo, permitia que ele deixasse a prisão à noite para visitá-la e autorizou sua presença no funeral.— O Dr. Tuma era o delegado geral da Polícia Federal. Toda semana ele me liberava. Depois das 10h30 da noite, eu vinha na Pauliceia, em São Bernardo, visitar a minha mãe e voltava pra cadeia. E quando ela morreu, ele permitiu que eu viesse no enterro da minha mãe — disse.Foi a partir dessa lembrança que Lula estabeleceu a comparação com o que ocorreu quase quatro décadas depois, durante o período em que esteve preso na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba.O episódio com VaváVavá morreu em 29 de janeiro de 2019, aos 79 anos, vítima de câncer. Lula estava preso em Curitiba e sua defesa pediu autorização para que ele viajasse a São Bernardo do Campo para acompanhar o velório e o sepultamento do irmão.O pedido foi inicialmente rejeitado. A defesa recorreu ao Supremo e o caso chegou a Toffoli, que presidia a Corte e estava responsável pelo plantão durante o recesso do Judiciário. O ministro concedeu uma autorização parcial para que Lula deixasse a prisão e se encontrasse exclusivamente com familiares em uma unidade militar na região. A decisão previa inclusive a possibilidade de o corpo de Vavá ser levada até o local, mas não autorizava a presença de Lula no velório e no cemitério da forma solicitada pela defesa. A Polícia Federal havia se manifestado contra a viagem nos termos pedidos, alegando falta de tempo hábil para organizar o deslocamento e riscos à segurança. Ao decidir, Toffoli entendeu que essas dificuldades não deveriam impedir completamente o direito de Lula de se encontrar com a família e autorizou o encontro sob restrições.A decisão, no entanto, saiu quando o sepultamento de Vavá já estava em andamento. Diante do horário e da impossibilidade de acompanhar a despedida do irmão, Lula decidiu não viajar. À época, o ex-ministro Gilberto Carvalho afirmou que já não fazia sentido o deslocamento apenas para um encontro posterior com familiares.O episódio provocou um afastamento entre Lula e Toffoli. A própria defesa do petista havia lembrado, no pedido ao Supremo, que Lula tivera autorização para acompanhar o funeral da mãe quando estava preso durante a ditadura — a mesma comparação relembrada pelo presidente neste domingo.O pedido de desculpasTrês anos depois, em dezembro de 2022, o episódio voltou à tona durante a diplomação de Lula, após sua vitória na eleição presidencial. Toffoli procurou o petista e pediu desculpas pela decisão tomada em 2019, segundo relatos publicados à época.O ministro reconheceu que Lula deveria ter tido a possibilidade de acompanhar a despedida do irmão. Depois desse episódio, os dois voltaram a se aproximar.A relação, no entanto, atravessou uma nova crise neste ano por causa das investigações envolvendo o Banco Master. Em fevereiro, aliados próximos ao presidente relataram um ambiente de forte desgaste e disseram que Lula demonstrava sentimentos de “decepção” e “traição” em relação ao ministro.Segundo esses relatos, o presidente avaliava que Toffoli deveria deixar a relatoria das investigações por considerar que a condução do caso estava provocando desgaste ao próprio Supremo. O ministro posteriormente deixou o processo, que foi redistribuído a André Mendonça.O episódio do funeral de Vavá era apontado por aliados como a origem do primeiro afastamento entre os dois.The post Lula cita mágoa com Toffoli e reforça distância na relação com ministro do STF appeared first on InfoMoney.
