Malcolm Gladwell: é melhor ter um pai que ganhe US$ 100 mil do que um bilionário

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Fazer parte de uma família milionária, ou até bilionária, pode parecer um sonho. Mas, segundo o jornalista e escritor Malcolm Gladwell, a riqueza extrema pode acabar privando as crianças de algo importante: a motivação para conquistar o sucesso por conta própria.“Eu preferiria ter um pai que ganhasse US$ 100 mil por ano a um pai bilionário”, disse Gladwell em uma palestra realizada na Microsoft em 2009, que recentemente voltou a circular nas redes sociais. “Acho que ter um pai com um bilhão de dólares poderia ser bastante prejudicial para a sua motivação. É uma vantagem que, na verdade, se transforma em desvantagem.”Para Gladwell, que acumulou uma fortuna estimada em US$ 30 milhões graças ao trabalho como jornalista, autor de best-sellers e apresentador de podcasts, a questão não é que toda criança precise crescer enfrentando dificuldades financeiras. O ponto é que existe um equilíbrio ideal entre a escassez e a abundância extrema: dinheiro suficiente para oferecer estabilidade e oportunidades, mas não tanto a ponto de impedir que os filhos experimentem as limitações, frustrações e esforços que ajudam a moldar a ambição.O autor, de 62 anos, aprofundou essa ideia em seu livro de 2013, Davi e Golias: Azarões, Inadaptados e a Arte de Enfrentar Gigantes. Na obra, ele entrevistou uma das pessoas “mais poderosas de Hollywood”, cuja identidade não revelou. O executivo fez uma avaliação semelhante.“Meu instinto é que criar filhos em um ambiente muito rico é mais difícil do que as pessoas imaginam”, afirmou. “Pessoas podem ser prejudicadas por vidas economicamente difíceis. Mas também podem ser prejudicadas pela riqueza, porque perdem a ambição, o orgulho e o senso de valor próprio. Há dificuldades nos dois extremos. Provavelmente existe um ponto de equilíbrio no meio do caminho que funciona melhor.”Gastar milhares de dólares em educação de elite pode sair pela culatraA educação é outro exemplo de como uma vantagem pode se transformar em desvantagem, segundo Gladwell. Ele questiona se escolas de elite realmente oferecem uma vantagem educacional proporcional aos custos cobrados.“Eu adoraria ver uma análise sistemática explicando por que alguém estaria em melhor situação estudando em uma dessas escolas do que aprendendo a lidar com um ambiente muito mais heterogêneo e competitivo de uma escola pública”, disse na palestra de 2009.Além do custo, Gladwell argumenta há anos que o sucesso não depende apenas da capacidade individual. A posição relativa em relação aos colegas também exerce influência. Isso significa que estar cercado apenas por pessoas de desempenho excepcional pode, em alguns casos, ser prejudicial.“Se você quer ter sucesso em uma instituição de ensino, nunca deve estar na metade inferior da turma. É difícil demais”, afirmou no ano passado, durante o podcast Hasan Minhaj Doesn’t Know. “Vá para Harvard se acreditar que conseguirá ficar entre os 25% melhores alunos. Tudo bem. Mas não vá se estiver destinado a ficar no fim da turma. Se estiver cursando áreas de exatas e tecnologia, provavelmente vai desistir.”Há também evidências de que privilégios extremos podem vir acompanhados de pressões e armadilhas.Pesquisadores da Universidade Columbia concluíram, em um estudo de 2005, que filhos de famílias de alta renda apresentam maior propensão ao uso de drogas, ansiedade e depressão, em parte devido à pressão excessiva por desempenho e ao distanciamento dos pais.“O sonho americano alimenta a crença de que uma educação na Ivy League e, posteriormente, uma carreira altamente lucrativa são condições essenciais para a felicidade de longo prazo”, escreveram os pesquisadores. “Na busca muitas vezes obsessiva por esses objetivos, não devemos perder de vista os possíveis custos para a saúde mental e o bem-estar de todos os envolvidos.”Crescer sem riqueza também costuma ser um grande motivadorNo outro extremo, muitos líderes empresariais afirmam que ter vindo de origens humildes serviu como fonte de motivação, e não como obstáculo.A CEO da Ulta Beauty, Kecia Steelman, é um exemplo. Ela contou à Fortune que cresceu “pobre, com fome e determinada” em uma área rural de Iowa. Após engravidar na adolescência, conseguiu um emprego em uma loja da Target, recebendo US$ 8 por hora, e começou a subir na carreira do varejo. No ano passado, foi nomeada CEO da Ulta, a maior rede de produtos de beleza dos Estados Unidos, com cerca de 1.500 lojas.“Ter os pés no chão e lembrar das minhas origens é algo que eu não mudaria”, afirmou.A ex-CEO da PepsiCo, Indra Nooyi, também atribui sua ética de trabalho à infância e às dificuldades que enfrentou no início da vida. Ela chegou aos Estados Unidos no fim da década de 1970 para cursar pós-graduação em administração na Universidade Yale. Para pagar os estudos, trabalhava durante a madrugada, da meia-noite às cinco da manhã, como recepcionista em um dormitório estudantil antes de seguir para as aulas.Ao relembrar a experiência, Nooyi disse que o maior atrativo dos Estados Unidos não era um caminho fácil para o sucesso, mas a possibilidade de construí-lo.“Lembro que antigamente as pessoas diziam que as ruas dos Estados Unidos eram pavimentadas com ouro”, afirmou. “Talvez não fossem pavimentadas com ouro, mas eram pavimentadas com a possibilidade da ambição.”O CEO da Nvidia, Jensen Huang, também defende que aprender a enfrentar dificuldades e desenvolver resiliência é uma das características que diferenciam pessoas bem-sucedidas.“Deixe o sofrimento chegar aos poucos”, disse Huang no mês passado, durante a Startup School 2026, da Y Combinator. “Não fique imaginando o quanto tudo será difícil a ponto de transformar isso em ansiedade e impedir você de agir. Em vez disso, pergunte a si mesmo: ‘Quão difícil isso pode ser?’”© 2026 Fortune Media IP LimitedThe post Malcolm Gladwell: é melhor ter um pai que ganhe US$ 100 mil do que um bilionário appeared first on InfoMoney.

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