Medo da aposentadoria: como planejar finanças e propósito para o futuro com segurança

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A aposentadoria, que por muito tempo foi sinônimo de descanso merecido depois de décadas de trabalho, é vista no Brasil com uma mistura de desejo e apreensão. E não é para menos. O País recebeu nota C no Índice Global de Pensões 2025, alcançando 56,2 pontos e ocupando a 40ª posição entre 52 países pesquisados pela consultoria de gestão global Mercer. O resultado não surpreende especialistas ouvidos pelo InfoMoney e que confirmam que o final de carreira pode sim ser muito problemático, especialmente com os problemas enfrentados pela Previdência e pela falta de planejamento das pessoas para o momento em que param de trabalhar.Leia também: Brasileiro quer se aposentar com até 62 anos e ter renda mensal de R$ 22 milSegundo a consultora em neurociência organizacional pela Nemeses, Joana Coelho, é normal que o tema venha sempre acompanhado de muitos medos, especialmente de faltar dinheiro, de perda do propósito e de não saber o que fazer com tanto tempo livre. Ao mesmo tempo, a longevidade aumentou. É comum que alguém se aposente e ainda tenha 20 ou 30 anos pela frente. “A questão deixa de ser apenas ‘quando parar’ e passa a ser ‘como viver’ essa fase com segurança financeira, saúde física e emocional e dignidade”, disse a consultora.Leia também: Envelhecimento na redação do Enem: Brasil vai mal no ranking de aposentadoriasO que mais assustaDo ponto de vista financeiro, o diagnóstico é direto. Para o co-fundador da Silver Hub (aceleradora de negócios da economia platinada) e ex-CEO de seguradora Mapfre, Marcos Ferreira, a maior preocupação é a queda de renda na aposentadoria. “Quanto maior a distância entre o salário da vida ativa e o benefício, maior o medo de queda de padrão de vida”, disse. Soma-se a isso um segundo fator:  ao mesmo tempo em que despesas com transporte ou vestuário caem, os gastos sobem justamente onde mais dói, na saúde.Isso é ainda mais pesado para as camadas de renda mais baixas, onde muitas famílias dependem majoritariamente do benefício do aposentado para fechar as contas do mês. A advogada previdenciária Sara Miranda lembra que a insegurança não é só matemática, pois envolve também a desconfiança sobre o futuro do INSS, risco de reformas e percepção de que direitos de hoje podem não existir amanhã.Justamente por envolver tantas questões, desde as jurídicas até de sobrevivência, a transição para a aposentadoria deveria ter uma abordagem multidisciplinar, mas com forte componente jurídico, segundo a advogada Daniela Poli Vlavianos, do escritório Arman Advocacia.Para ela, é indispensável revisar o regime previdenciário ao qual o trabalhador está vinculado, analisar os impactos tributários da nova fase, avaliar a necessidade de reorganização patrimonial e verificar se existe, por exemplo, a possibilidade de migração para previdência complementar ou ajustes em investimentos já existentes. A especialista frisa ainda que, para profissionais liberais, como advogados e empreendedores, essa preparação deve incluir também a análise de contratos, planejamento sucessório e organização de responsabilidades remanescentes. “Quem antecipa essas discussões entra na aposentadoria com mais previsibilidade, autonomia e capacidade de exercer seus direitos, em vez de apenas reagir às mudanças.”Leia também: Menos de 1/4 das pessoas faz reserva para aposentadoria; por que isso é um problema?Sistema pressionadoNo plano estrutural, o cenário também não ajuda. As advogadas citam as revisões constantes do sistema previdenciário brasileiro, que tornam o planejamento jurídico e financeiro mais complexo e reforça a sensação de que o terreno é inseguro e está sempre mudando.Sara Miranda destaca cinco medos muito presentes entre os brasileiros:Insegurança financeira – temor de que o benefício público não cubra o custo de vida.Risco de reformas futuras – medo de regras mudarem “no meio do jogo”.Perda de propósito e identidade profissional.Isolamento e fragilidade na saúde, sem rede de apoio.Desigualdade estrutural – quem vive de informalidade ou contribui pouco se sente mais vulnerável a uma velhice precária.Para reduzir essa vulnerabilidade, ela defende ações coordenadas: ampliar cobertura previdenciária, incluir educação financeira e previdenciária em escolas e empresas, aprimorar governança dos investimentos dos fundos e criar mecanismos de aposentadoria parcial e reintegração social – como programas de mentoring, consultoria e trabalho voluntário com aposentados.Além do cracháNão é apenas entre os mais pobres que os medos aparecem. Eles se multiplicam também entre aqueles que construíram uma longa carreira. A consultora Joana Coelho observa que, desde executivos até funcionários de fábricas, muitos chegam perto da aposentadoria sem saber quem são fora do crachá. “O trabalho ocupa o centro da identidade e organiza a rotina. Por isso, num workshop quando pedimos que alguém se apresente sem mencionar a profissão, o exercício vira um desafio. Por isso é importante que a pessoa veja que, sem uma identidade construída além da carreira, a aposentadoria deixa de ser conquista para virar ameaça”, conta.Antes de entrar na transição, a pessoa precisa se perguntar:1) Quem sou eu sem o trabalho?2) O que eu farei com o tempo livre?3) Como continuo sendo útil para a família e a sociedade?O papel das empresasSe a aposentadoria é uma transição longa e delicada, as empresas não podem mais tratá-la como um evento burocrático, como explica Tiago Calçada, diretor de investimentos da Mercer, empresa responsável pelo ranking dos melhores países parar se aposentar.Para o executivo, as empresas precisam ajudar seus funcionários a enfrentar os principais desafios nessa fase de incerteza, especialmente sobre a adequação da renda para manter o padrão de vida com um planejamento antecipado.Segundo Calçada, muitas organizações, inclusive, estão montando programas de preparação para aposentadoria que vão além da palestra pontual, incluindo educação financeira focada em previdência e planejamento de longo prazo; consultorias individuais com planejadores certificados; orientação sobre benefícios corporativos e como convertê-los em renda futura; programas de transição gradual, com redução de jornada ou trabalho parcial, e, em alguns casos, apoio a requalificação para empreendedorismo, ajudando quem quer abrir um negócio próprio após se aposentar.Auxílio para novas geraçõesJoana Coelho acrescenta que há um ponto-chave nesse caminho, que é a necessidade de as empresas olharem para o ambiente multigeracional em seus quadros. “Profissionais 50+ concentram conhecimento histórico e capacidade de decisão valiosa. Quando a empresa os empurra para fora, perde capital intelectual.”. A consultora indica modelos em que esses colaboradores passam a atuar como consultores internos, mentores ou em projetos específicos, com carga horária adaptada. “Isso permitirá ajudá-lo não só na transição como na transferência de conhecimento para as novas gerações, assim como garantir o engajamento e senso de utilidade para quem está perto de se aposentar, garantindo uma transição menos brusca, tanto financeira quanto emocional.”Saiba como se planejar financeiramenteNo campo financeiro, os números ajudam a transformar medo em estratégia, segundo a planejadora financeira Rejane Tamoto. Para isso, ela fez simulações simples com uma meta: garantir R$ 4.000 por mês, dos 60 aos 100 anos (40 anos), com uma taxa real de 4% ao ano acima da inflação. Para isso, o valor necessário aos 60 anos seria de R$ 967 mil, sem considerar o Imposto de Renda sobre resgates futuros.Para chegar lá, o esforço mensal varia de acordo com a idade de início:quem começa cedo, aos 20 anos, precisa poupar cerca de R$ 833 por mês;quem começa aos 30 anos, tem de guardar R$ 1.412 por mês;quem começa mais tarde, aos 40 anos, o valor já sobe para R$ 2.659 por mês.A mesma lógica vale se a meta for apenas complementar o INSS. Suponha alguém com potencial de receber R$ 2.000 de aposentadoria pública e queira mais R$ 2.000 de um plano privado. O valor a acumular, segundo Tamoto, cai para R$ 483,6 mil, e os aportes ficam na faixa de:R$ 417 por mês se começar aos 20;R$ 706 se começar aos 30;R$ 1.329 se começar aos 40.Tempo como aliadoA mensagem do planejamento financeiro é clara: tempo é o principal aliado. “A construção de uma reserva para ter liberdade financeira na aposentadoria é um projeto tão grande quanto a compra de um imóvel. Mas por ser objetivo de longo prazo, quanto mais cedo a pessoa inicia o investimento mensal com esse propósito, menor é o esforço necessário para atingir o mesmo objetivo”, afirma Tamoto. Mas ela acrescenta que quem começa tarde não está condenado, só precisará poupar mais, rever estilo de vida, usar patrimônio já construído e, muitas vezes, prolongar o tempo de trabalho.Para a fase de acumulação, Rejane destaca vantagens de produtos voltados ao longo prazo, como fundos de previdência (sem come-cotas, com possibilidade de dedução fiscal via PGBL para quem declara no modelo completo e com nomeação de beneficiários) e também o Tesouro Renda+, desenhado para pagar uma renda mensal por determinado período. A melhor solução, porém, raramente é única: a aposentadoria tende a ser mais segura quando construída em camadas, com um mix de fontes de renda como:INSS (como base);previdência privada;títulos públicos de longo prazo;outros investimentos (fundos, renda fixa, ações, imóveis, FIIs), conforme o perfil.“Regularidade dos aportes, reajuste anual pela inflação, automatização dos investimentos e acompanhamento profissional são peças-chave para que o plano não fique apenas no papel”, diz ela.Medo não é fraquezaOs especialistas convergem em um ponto: o medo da aposentadoria é legítimo, especialmente em um país desigual, com sistema previdenciário em constante revisão e uma população que envelhece mais rápido do que se pensava. Mas, em vez de paralisar, ele pode servir como gatilho para três movimentos concretos importantes:Planejamento financeiro de longo prazo, com educação financeira, uso consciente de produtos e diversificação de fontes de renda.Planejamento jurídico e previdenciário, para entender direitos, regras, tributos e proteção patrimonial.Planejamento emocional e de propósito, com autoconhecimento, construção de interesses fora do trabalho e redes de apoio social.Dessa forma, a aposentadoria deixa de ser um “vazio” no fim da carreira para se tornar uma nova fase de vida – mais longa, mais complexa, mas também potencialmente mais livre. Quanto mais cedo essa conversa começa, dentro das casas, das empresas e das políticas públicas, maior a chance de que os medos de hoje se transformem em decisões melhores para o futuro, segundo os especialistas. The post Medo da aposentadoria: como planejar finanças e propósito para o futuro com segurança appeared first on InfoMoney.

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