Após o Comitê de Política Monetária (Copom) decidir, na última quarta-feira, por um corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros, levando a Selic a 14,5%, os holofotes se voltam para as variáveis que ditarão o ritmo dos próximos passos do Banco Central. Para Daniela Lima, economista da Kinea para o Brasil, uma peça central na economia está sendo negligenciada, a força da moeda brasileira.Em entrevista ao InfoMoney, a economista destacou que as projeções atuais do mercado focam muito nos choques externos, mas falham em precificar o impacto positivo do câmbio.Leia também: Comunicado do Copom acende alerta para risco de pausa à frente, dizem economistasEla explica que a moeda brasileira tem grande resiliência no cenário atual porque o país é um grande exportador líquido de petróleo e pela taxa de juros elevada em comparação aos seus pares globais. Para muitos investidores estrangeiros, o país é visto como um mercado estratégico para alocação de capital, dado o câmbio historicamente barato e os juros altos, o que atrai divisas, fortalece a moeda e compensa parte do choque gerado pelo cenário de guerra.“O fator do BRL está sendo pouco considerado nas projeções. A curva de juros no mercado está seguindo rigorosamente o preço do petróleo Brent, mas ignora outros fatores, principalmente o câmbio”, avalia Lima. Leia também: Bens industrializados e guerra no Oriente Médio acendem alerta no IPCA-15 de abrilGuerra, câmbio e inflaçãoOs impactos do conflito internacional já são sentidos internamente, especialmente com o choque nos preços de petróleo e fertilizantes. Lima comenta que, embora a Petrobras não tenha reajustado a gasolina recentemente, os distribuidores elevaram os preços muito além do custo de importação, aumentando suas margens. “Já vemos efeitos na inflação de diesel e derivados de petróleo, como sabão (que depende de Nafta, derivado do petróleo) e fertilizantes”, diz Lima.Isso fez com que a inflação via combustíveis já sinalizasse que está chegando aos indicadores de preços, como o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), como mostrou a divulgação mais recente, com dados de março.Leia mais: Efeito guerra chega ao IPCA em março, e projeção do ano já vai acima do teto da metaComo reflexo dessa conjuntura, a Kinea revisou sua projeção de IPCA de 2026, que saiu de 4% para 4,6%.A especialista faz um alerta para um cenário de risco extremo, que ela classifica como de “não linearidade”. “Se a guerra escalar, os estoques de petróleo acabarem e o preço [do brent] chegar a US$ 150, haverá uma aversão ao risco global que faria a moeda brasileira sofrer. Esse cenário de petróleo elevado combinado com um câmbio muito depreciado representa, hoje, o principal risco para que o Banco Central consiga manter o ritmo de cortes em 0,25 ponto percentual”, afirma. Câmbio em R$ 5 e o impacto na inflaçãoA economista da Kinea ressalta que o cenário poderia ser mais brando caso o câmbio se mantenha estável. Se o dólar ficar “flat” (estável) na casa dos R$ 5,00, em oposição aos R$ 5,25 projetados pelo boletim Focus, o Brasil terá uma inflação menor do que a prevista pelo mercado, explica Lima. Por outro lado, caso o câmbio siga as projeções do Focus, a inflação pode encostar em 4,9%.Juros altos para frear X incentivos à atividadeAvaliando o último comunicado do Copom, Lima opina que o texto ficou “mais duro”, com o Banco Central indicando que observará de perto as próximas informações para ajustar a extensão do ciclo de cortes. O cenário base da Kinea aponta para a continuidade dos cortes no ritmo de 0,25 ponto percentual, amparado justamente por um câmbio bem comportado.O contexto macroeconômico, porém, também traz mais complexidade para as decisões de política monetária. Lima explica que, enquanto o Banco Central está “pisando no freio” com juros restritivos, o governo federal está “pisando no acelerador” por meio políticas que injetam mais dinheiro na economia, estimulando a demanda.“Essa política de aumento de gastos implica juros de equilíbrio e inflação mais elevados. É uma escolha política da sociedade”, explica a economista. Entre os exemplos dessa política governamental de estímulo, Lima cita o Desenrola 2.0 e iniciativas no Minha Casa Minha Vida, que são tentativas do governo de auxiliar setores sensíveis que sofrem com as taxas restritivas, a exemplo da construção. Além da frente fiscal, a economista adiciona o fator político à equação monetária. Segundo ela, o Banco Central prefere manter os juros em patamares que lhe garantam mais “gordura” para entrar no período eleitoral, uma fase que sabidamente “traz volatilidade cambial”. Apesar dos ruídos e da ausência de reformas estruturais, a gestora trabalha com a perspectiva de que o Banco Central conseguirá entregar a taxa Selic em torno de 12,5% ao final do ciclo.The post Mercado subestima força do real, que pode ser ‘âncora’ contra a inflação, diz Kinea appeared first on InfoMoney.
