Nem mesmo a forte disparada das ações brasileiras após o primeiro turno das eleições esgotou o potencial de valorização da Bolsa, na avaliação do Morgan Stanley. Após o rali registrado na segunda-feira (5), o banco ainda projeta ganhos de 15% a 20% ou mais até o fim de 2026, além de enxergar espaço para novos avanços em 2027 em direção ao seu cenário otimista de 250 mil pontos para o Ibovespa.Assim, após o JPMorgan, o Morgan Stanley elevou as ações do Brasil de neutra para overweight (exposição acima da média, equivalente à compra) e aumentou o beta (índice de volatilidade) de suas carteiras brasileira e latino-americana. Para os estrategistas, o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais, com Flávio Bolsonaro (PL) na dianteira ante Lula (PT) ampliou a possibilidade de mudança na política econômica e abriu espaço para o que chamam de“Great Rebalancing”, um grande rebalanceamento da economia e dos mercados brasileiros, da dívida para ações e investimentos.Segundo a casa, a consolidação fiscal é condição indispensável para esse processo e, se a percepção de risco continuar em queda, o Morgan Stanley vê potencial para as ações brasileiras avançarem mais cerca de 10% e para o real se valorizar outros 10% até o fim do ano, além do movimento já ocorrido.Leia tambémAté onde vai Ibovespa em meio a rali com “Flávio Day”? Analistas veem alta de até 45%Índice supera 209 mil pontos após resultado eleitoral, mas bancos ainda veem espaço para alta; Morgan Stanley mira 250 mil pontos, enquanto BTG calcula potencial de até 45% em cenário mais otimistaA ideia central é que juros menores e redução do prêmio de risco possam desencadear dois movimentos simultâneos: no mercado financeiro, capital deixaria gradualmente a renda fixa em direção às ações; na economia real, o crescimento migraria de um modelo sustentado pelo gasto público e consumo para outro com participação maior do investimento privado.De onde pode vir o capital?Para o Morgan, uma eventual continuidade do rali não precisaria ser sustentada apenas pelo investidor estrangeiro.O posicionamento doméstico em ações permanece próximo aos menores níveis históricos, uma vez que as alocações locais em renda variável estão próximas de 5%, ligeiramente acima da mínima histórica de 4,6%, bem abaixo da média histórica de 8,5% e do pico de 15%.O banco aponta ainda que, enquanto os gestores de mercados emergentes já estão bastante posicionados em Brasil, os investidores locais continuam com baixa exposição às ações. Os estrangeiros, por sua vez, foram os compradores marginais predominantes dos últimos anos.Se os juros domésticos caírem e o dinheiro local começar a retornar de maneira mais expressiva à renda variável, o tamanho desse fluxo poderia ser substancial.Num cenário em que a participação dos fundos de ações no patrimônio da indústria retornasse ao pico histórico de 15%, o Morgan Stanley estima uma entrada potencial de cerca de R$ 945 bilhões, arredondada pelo banco para aproximadamente R$ 950 bilhões. Se a participação voltasse a 12%, o fluxo potencial seria de R$ 615 bilhões; em um cenário mais conservador de 8%, de R$ 176 bilhões.Leia tambémComprar ou realizar? O que fazer na Bolsa e na renda fixa após o rali do 1º turnoGestores e analistas divergem sobre o fôlego do rali na Bolsa e nos títulos públicos; veja o que fazer com a carteira nesse momentoNo caso mais otimista, o volume corresponderia a aproximadamente 25% da capitalização de mercado do MSCI Brazil, segundo os cálculos da casa.Por que o Ibovespa pode levar vantagem?Nesse cenário de retorno do investidor doméstico, o Morgan Stanley afirma preferir o Ibovespa ao MSCI Brazil, índice que possui participação maior de investidores estrangeiros.O argumento está na composição dos índices. Cerca de 90% do Ibovespa é formado por ações que também pertencem ao MSCI Brazil, mas existem diferenças setoriais importantes. As utilities representam cerca de 15% do Ibovespa, ante aproximadamente 11% do MSCI Brazil, enquanto os bancos e demais financeiras representam perto de 40% do MSCI Brazil e 27% do Ibovespa.Segundo o banco, essas diferenças tornam o índice local mais sensível aos juros, característica relevante em um cenário de queda das taxas.Entre os papéis com recomendação overweight que mais poderiam receber recursos locais em relação à liquidez negociada, a instituição chama atenção para Smart Fit (SMFT3), Vibra (VBBR3) e BTG Pactual (BPAC11).Financeiras são principal apostaAo aumentar a exposição ao Brasil, o Morgan Stanley privilegia empresas domésticas e, particularmente, serviços financeiros. O banco reforçou posições em B3 (B3SA3), XP (BDR: XPBR31) e BTG Pactual (BPAC11), que considera as melhores relações entre risco e retorno para capturar tanto o rebalanceamento da economia quanto um ciclo potencialmente mais profundo de cortes de juros. Também aumentou posições em Nubank e Mercado Livre (BDR: MELI34) e adicionou Vamos (VAMO3) à carteira.Para o banco, serviços financeiros representam uma das poucas áreas cujo lucro operacional poderia crescer diretamente com o processo de rebalanceamento. O motivo é que gestores de recursos e de patrimônio podem obter resultados maiores com uma migração para ações, enquanto a própria B3 se beneficiaria do aumento da atividade no mercado de capitais.Entre as ações relacionadas pelo banco a uma mudança de política econômica estão Petrobras (PETR4), Mercado Livre, Nubank, Axia Energia (AXIA3), B3 (B3SA3), BTG Pactual (BPAC11), XP, Banco do Brasil (BBAS3), Equatorial (EQTL3), Vibra (VBBR3), Rumo (RAIL3), Cyrela (CYRE3), Motiva (MOTV3), Energisa (ENGI11) e Vivara (VIVA3).O banco, contudo, aponta que não basta comprar empresas alavancadas simplesmente porque os juros devem cair. A instituição recomenda evitar companhias altamente endividadas que também enfrentem problemas operacionais, ainda que esses papéis possam participar inicialmente do rali.Menos commodities, mais ações domésticasA mudança de estratégia passa por reduzir a exposição a algumas exportadoras, com Morgan Stanley retirando Suzano (SUZB3) da carteira diante da expectativa de que um real mais forte seja negativo para o papel. A exposição a Vale (VALE3) também foi reduzida, acompanhando a rotação de exportadoras para empresas domésticas.Ainda assim, a casa mantém preferência seletiva por exportadoras, citando Embraer (EMBJ3), JBS (BDR: JBSS32) e São Martinho (SMTO3). A rotação reflete a visão de que uma eventual mudança na política econômica favoreceria ações diretamente ligadas à redução do custo de capital e ao investimento doméstico, em vez de uma simples exposição às commodities.Inteligência artificialO relatório adiciona outra dimensão de longo prazo ao chamado rebalanceamento: o investimento em infraestrutura para inteligência artificial e data centers. O Morgan Stanley estima que investimentos relacionados a data centers poderiam representar 49% do capex total do Brasil em 2030, ante 29% em 2027, dentro de seu cenário. Com esses investimentos, a razão investimento/PIB poderia chegar a 22% em 2030, comparada aos 17% atuais indicados pelo relatório.Nesse contexto, o banco cita a Axia Energia (AXIA3), maior geradora de eletricidade da América Latina segundo o relatório, como uma das potenciais beneficiárias do aumento da demanda energética proveniente de inteligência artificial e data centers.Valuation já subiu, mas bull case ainda está distanteA disparada pós-eleição já alterou consideravelmente as contas de valuation já que, antes do rali, as ações brasileiras negociavam a cerca de 8,4 vezes o lucro esperado em 12 meses, 0,9 desvio-padrão abaixo da média histórica. Os cálculos preliminares do Morgan Stanley após o fechamento de segunda colocam esse múltiplo em aproximadamente 9,5 vezes.Ainda assim, o cenário otimista do banco contempla uma expansão para 11,6 vezes, apoiada pela expectativa de ajuste fiscal e redução do prêmio de risco.No cálculo elaborado a partir do fechamento da semana anterior, o cenário otimista representava 30% de valorização em moeda local e 51% em dólares, enquanto o cenário-base indicava ganho de 11% em dólares. O cenário pessimista apontava queda de 41% em dólares.Fiscal é condição centralO Morgan Stanley aponta que o segundo turno ainda não ocorreu e que a consolidação fiscal é indispensável para justificar permanentemente um custo de capital mais baixo.A instituição usa a Colômbia como exemplo do risco de a melhora das expectativas não ser acompanhada por execução. Após as eleições colombianas, houve forte compressão dos juros diante da expectativa de ajuste fiscal, mas parte da redução do prêmio de risco acabou sendo revertida porque o ajuste necessário para reforçar a credibilidade fiscal ainda não havia aparecido.Neste sentido, expectativas de mudança podem reduzir o custo da dívida, mas um plano de ajuste será necessário para sustentar a credibilidade. Por isso, apesar da disparada inicial, o Morgan Stanley considera que a reprecificação do mercado brasileiro ainda está em seus estágios iniciais, com potencial de migração de capital da renda fixa para ações e de um modelo alimentado por gasto público para outro mais dependente do investimento privado.The post Morgan eleva Brasil para compra, vê Ibovespa até 250 mil e aposta em rotação de ações appeared first on InfoMoney.
