Ted Turner, o bilionário irreverente que fundou a CNN e transformou sua empresa em um dos maiores sistemas de TV a cabo dos Estados Unidos antes de vendê-la para a Time Warner, morreu aos 87 anos.Ele morreu na quarta-feira, informou a CNN, citando um comunicado da Turner Enterprises, sua empresa. Em 2018, Turner havia revelado que sofria de demência com corpos de Lewy, uma doença neurodegenerativa progressiva, e desde então praticamente sumiu da vida pública.Poucos magnatas da mídia tiveram uma carreira tão conturbada e multifacetada — e viveram suas paixões de forma tão escancarada — quanto o homem que colecionava apelidos como “Captain Outrageous” (“Capitão Desbocado”) e “The Mouth of the South” (“O Língua Solta do Sul”).Dono de tiradas afiadas que tanto divertiam quanto irritavam, Turner criou redes de TV a cabo como Cartoon Network, TBS e Turner Classic Movies, além da CNN, o primeiro canal de notícias 24 horas do mundo; comprou o time de beisebol Atlanta Braves e o time de basquete Atlanta Hawks; e se casou e se divorciou da atriz Jane Fonda. Ganhou o prêmio de Velejador do Ano mais vezes do que qualquer outra pessoa e foi o comandante da bem-sucedida defesa da America’s Cup em 1977.Defensor ferrenho do meio ambiente, tornou-se um dos maiores proprietários individuais de terra nos EUA, com cerca de 809 mil hectares espalhados por oito estados — onde mantinha também um rebanho de mais de 45 mil bisões. Como filantropo, prometeu US$ 1 bilhão à Organização das Nações Unidas em 1997.“Se eu tivesse só um pouquinho de humildade, eu seria perfeito”, costumava dizer.Dave Bristol, ex-técnico dos Braves, resumiu para um biógrafo: “Ele simplesmente funciona em outro tipo de combustível que não é o nosso”.A venda que deveria ser o grande ato final da carreira corporativa de Turner — a aquisição, por US$ 8 bilhões, da Turner Broadcasting System Inc. pela Time Warner, em 1996 — acabou tirando dele o controle do império que construiu e, depois, o próprio cargo.Fusão com a AOLA Time Warner foi vendida para a America Online em 2001, e Turner se tornou o maior acionista individual da nova empresa e vice-chairman. Com o estouro da bolha da internet e a frustração das sinergias prometidas, o valor da fatia de Turner despencou cerca de US$ 7 bilhões, destruindo boa parte de sua fortuna. Ele passou a criticar abertamente executivos da companhia antes de renunciar ao cargo em 2003, permanecendo no conselho até 2006, enquanto vendia gradualmente suas ações da Time Warner.Em 2016, a Time Warner anunciou a venda do conglomerado de mídia que Turner ajudou a erguer — incluindo os canais a cabo CNN e TBS — para a AT&T Inc. por US$ 85,4 bilhões. A CNN se transformou em alvo frequente do então presidente Donald Trump, que rotulava a emissora de “fake news”. E o setor que Turner ajudou a desbravar passou a enfrentar ainda mais dificuldades com a onda de cancelamentos da TV a cabo, substituída por serviços de streaming como Netflix e Amazon Prime Video.Segundo a revista Forbes, seu patrimônio era estimado em US$ 2,8 bilhões.Turner sempre viveu de risco, tanto na vida pessoal quanto nos negócios. Os olhos azul-claros, o queixo marcado e o cabelo castanho-avermelhado — que mais tarde ficou completamente grisalho — ajudavam na fama de conquistador, e a falta de freio, em vários momentos, o colocava em apuros. Durante seus dois primeiros casamentos, ele fez pouco esforço para esconder casos extraconjugais.Competidor duro e obstinado, Turner gostava do papel de outsider: um sulista em uma indústria dominada por Nova York e Los Angeles. Era capaz de ir a extremos em busca de vantagem. Numa promoção envolvendo o Braves, certa vez empurrou uma bola de beisebol com o nariz ao redor do infield até deixar o rosto em carne viva e sangrando.‘Fanáticos por Jesus’Turner também tinha uma veia de insensibilidade e falta de tato. Em determinado momento, chamou opositores do aborto de “bozos” (idiotas) e católicos que seguem o ritual de Cinzas na Quarta-Feira de Cinzas de “Jesus freaks” (“fanáticos por Jesus”). Mais tarde, pediu desculpas pelas declarações.“É como se uma criança estivesse falando, sem nenhum filtro social”, disse o então CEO da AOL Time Warner, Gerald Levin, ao jornalista Ken Auletta, da revista New Yorker, em 2001.Robert Edward Turner III nasceu em 19 de novembro de 1938, em Cincinnati, o primogênito de Florence Rooney Turner e Robert Edward Turner Jr., um vendedor que, depois da Segunda Guerra Mundial, comprou diversas empresas de outdoors na Geórgia. A família se mudou para Savannah, mas Ted foi enviado primeiro para a Georgia Military Academy, perto de Atlanta, e depois para uma escola militar em Chattanooga, no Tennessee.Num padrão que se repetiria ao longo da vida, Turner bateu de frente com o orientador do time de debates e com o veterano responsável pelo dormitório, a ponto de ser obrigado a mudar de alojamento no último ano do ensino médio, segundo o livro Citizen Turner, biografia de 1995 escrita por Robert e Gerald Jay Goldberg.Na Brown University, a história foi parecida: seus colegas de quarto no primeiro ano rapidamente se cansaram de suas estripulias e se mudaram. Dois anos depois, ele foi expulso da casa da fraternidade. Em seguida, acabou expulso da própria universidade por receber uma estudante em seu quarto enquanto ainda estava suspenso. Hoje, Brown o promove como um de seus ex-alunos mais ilustres.A empresa do paiDepois de uma breve passagem pela Guarda Costeira dos EUA, Turner voltou para a Geórgia para trabalhar na empresa do pai. Seus pais haviam se divorciado em 1957 e o pai já tinha se casado novamente. A irmã de Turner, Mary Jane, travava a fase final de uma batalha perdida contra o lúpus, doença que a mataria aos 19 anos.Foi nessa época que Turner pediu em casamento Julia Nye, estudante da Northwestern University que ele conhecera durante uma regata em Chicago. Os dois se casaram em 1960 e tiveram dois filhos, Laura e Robert IV.Nye contou aos biógrafos que pegou Turner nu com outra mulher, tarde da noite, em seu escritório. Mesmo assim, só decidiu pôr fim ao casamento depois que ele abalroou, de propósito, o barco que ela comandava numa regata para impedir que ela vencesse a prova.Turner tinha 24 anos quando o pai mergulhou em depressão ao duvidar da capacidade de honrar a compra de US$ 4 milhões que havia acabado de fazer, expandindo o negócio para Atlanta, Richmond e Roanoke, na Virgínia. O pai chegou a acertar a venda das novas propriedades, mas se suicidou antes que o negócio fosse concluído.Poucos dias após o funeral, Ted cancelou a venda que o pai havia arrumado.No meio da década de 1960, ele se casou com Jane Smith, uma aeromoça que conheceu em Atlanta. Eles tiveram três filhos — Beau, Rhett e Jennie — e Turner ainda ficou com a guarda dos filhos do primeiro casamento. O relacionamento terminou em divórcio.O conceito de “super-emissora”Inquieto com o negócio de outdoors, Turner decidiu apostar em radiodifusão. Comprou algumas rádios e, em 1970, adquiriu uma emissora de TV em dificuldades em Atlanta, que rebatizou como WTBS. Em 1976, criou o conceito de “superstation”: usando satélites para distribuir o sinal da WTBS para operadoras de TV a cabo, num momento em que a TV por assinatura ganhava espaço sobre o sinal aberto tradicional.Nessa época, Turner já havia se tornado um velejador de nível mundial, competindo em regatas na Austrália, na Noruega e em outros países. Ganhou quatro vezes o prêmio de Velejador do Ano e foi incluído no National Sailing Hall of Fame.A defesa vitoriosa da America’s Cup em 1977, à frente do iate Courageous, rendeu a ele a capa da Sports Illustrated. As façanhas — somadas a cenas como sua aparição claramente bêbado na coletiva após a regata — renderam apelidos como Captain Outrageous e Terrible Ted.Em 1978, Turner começou a desenhar o projeto da Cable News Network, hoje CNN. Teve dificuldades inesperadas para levantar financiamento e garantir espaço em satélites, além de não conseguir contratar as maiores estrelas do telejornalismo, mas, ainda assim, cumpriu a promessa de estrear o canal em 1º de junho de 1980.No fim de 1981, lançou a CNN Headline News para enfrentar um serviço concorrente criado pela Westinghouse e pela ABC. A parceria Westinghouse–ABC perdeu US$ 60 milhões com o Satellite News Service antes de aceitar US$ 26 milhões de Turner para encerrar a operação em 1983.Questões globaisO entusiasmo quase messiânico de Turner pela CNN contagiava quem estava à volta e ampliou seu interesse por temas globais. No livro CNN: The Inside Story (1990), Hank Whittemore relata que Turner recebeu um grupo de novos funcionários com o seguinte discurso: “Olhem só: vamos pegar as notícias, colocar num satélite e mandar lá pra Rússia. A gente vai trazer a paz mundial — e ainda vai ficar rico no processo!”Fidel Castro era fã da CNN, e Turner aceitou um convite para visitar Cuba em 1982. Os dois chegaram a ir caçar patos juntos, o que levou Turner a brincar que era “o único americano que chegou tão perto de Fidel com uma arma na mão em 20 anos”. De volta aos EUA, disse: “Fidel não é comunista. Ele é um ditador, igual a mim”, segundo o ex-presidente da CNN Maurice “Reese” Schonfeld, em suas memórias Me and Ted Against the World (2001).Em 1985, Turner tentou uma jogada ainda mais ousada: fez uma oferta hostil pela CBS Inc., oferecendo um pacote sem dinheiro vivo, baseado em ações e títulos de alto rendimento, avaliado em US$ 5,41 bilhões. A CBS reagiu, se endividou em quase US$ 1 bilhão para recomprar cerca de 20% das próprias ações e, assim, tornou a proposta de Turner inviável.Ainda digerindo a derrota, Turner aceitou o convite do investidor Kirk Kerkorian para disputar o controle da MGM/UA Entertainment Co., da qual Kerkorian tinha 50,1%. Após uma análise apressada de duas semanas nos números do estúdio, Turner topou pagar US$ 1,5 bilhão. Pouco depois, teve de reestruturar o negócio e vendeu a UA de volta a Kerkorian. Mais tarde, se desfez do nome MGM e de outros ativos, mas manteve a biblioteca de filmes produzidos até 1986, com 3.650 títulos, incluindo clássicos como Gone With the Wind (E o Vento Levou) e Casablanca.Perdendo o comandoA incursão em Hollywood foi, em essência, um movimento tático para garantir conteúdo, mas o negócio ficou grande demais para Turner tocar sozinho e marcou o fim do controle absoluto que ele exercia sobre a empresa. Para manter a operação de pé, em 1987 ele aceitou um investimento de US$ 562 milhões de um grupo de operadoras de TV a cabo. As duas mais fortes — Tele-Communications Inc. e Time Inc. — passaram a ter poder de veto sobre aquisições.O faro de negócios de Turner falhou de vez quando ele tentou se projetar como embaixador da boa vontade global. Idealizou os Goodwill Games, uma espécie de antídoto aos Jogos Olímpicos marcados por boicotes políticos, e realizou a primeira edição em 1986. O evento foi encerrado em 2001, acumulando um prejuízo de cerca de US$ 150 milhões, segundo o New York Times.Turner conheceu Jane Fonda em 1987 e passou anos cortejando a atriz e ativista até que, em 1991, os dois se casaram em uma plantação de sua propriedade perto de Tallahassee, na Flórida. O casamento acabou em 2001.Ele nunca desistiu da ideia de continuar expandindo o império, mas passou a enfrentar resistência sistemática do conselho. Turner acusava especialmente a Time Warner de barrar uma investida pela NBC em 1993 e outra pela CBS em 1995.Em 1995, ele acabou concordando, de forma abrupta, em vender o restante da Turner Broadcasting para a Time Warner, que já detinha 20% da empresa.Turner apoiou a decisão do então CEO Gerald Levin de vender a Time Warner à AOL em 2001, mas, ao fim daquele ano, já deixava claro o arrependimento.“Eu sabia que estávamos nos vendendo”, disse. “Nunca imaginei, nem nos meus sonhos mais loucos, que eu realmente perderia o meu emprego.”© 2026 Bloomberg L.P.The post Morre Ted Turner, bilionário fundador da CNN, aos 87 anos appeared first on InfoMoney.
