As mudanças climáticas, a revolução tecnológica, as transformações nas relações de trabalho e a transferência de riqueza entre gerações estão alterando estruturas que durante décadas pareciam consolidadas. Para empresas e investidores, o desafio deixou de ser apenas acompanhar essas mudanças e passou a envolver a capacidade de antecipar movimentos, coordenar diferentes interesses e transformar riscos em oportunidades.Essa transformação exige também uma nova concepção de liderança. Em vez de estruturas centralizadas e modelos construídos para um mundo que já não existe, os participantes do episódio mais recente do videocast O Clima na Faria Lima, do InfoMoney, defenderam uma atuação mais aberta, capaz de conectar diferentes setores e construir uma visão de longo prazo para o país.Apresentado por Marina Cançado, o programa recebeu Daniela Rogatis, educadora e fundadora do Legado, iniciativa voltada à formação de jovens de famílias empresárias, e Sérgio Suchodolski, CEO da Fama Re.capital.A discussão passou pelas mudanças na tomada de decisão de empresas e investidores, pelo papel das famílias empresárias e da sociedade civil e pelas vantagens que o Brasil possui diante das transformações globais.Leia mais: Economia climática pode criar as próximas gigantes globaisLiderança e responsabilidade no século XXIPara os participantes, a transição em curso muda não apenas os mercados, mas também as competências necessárias para tomar decisões. No setor financeiro, fatores ambientais e climáticos começaram a ser incorporados aos modelos de análise de risco há mais de uma década. O movimento mais recente, porém, é considerar essas transformações também sob a perspectiva das oportunidades de geração de valor.É essa mudança que Suchodolski identifica como uma das principais transformações no processo de decisão de empresas, gestoras e investidores. Segundo ele, o foco sai de uma postura exclusivamente defensiva para uma análise sobre como as próprias transições podem gerar novos negócios.“Buscamos a construção de valor não apenas mitigando riscos, mas identificando a alocação de oportunidades em transições técnicas, como agricultura regenerativa, descarbonização industrial e transição energética. Vejo oportunidades gigantescas”, afirmou Suchodolski.Segundo os especialistas, a mudança alcança diferentes agentes. Para uma empresa, pode significar rever o pacote de investimentos para o próximo ciclo. Já para uma família empresária, pode envolver a reorganização do portfólio com a chegada de uma nova geração. Em conselhos de administração e gestoras de recursos, a questão passa a fazer parte da estratégia de longo prazo.Na visão de Daniela, o mesmo princípio vale para quem está entrando agora no mercado de trabalho ou assumindo posições de liderança. Em vez de buscar estabilidade em setores conhecidos, a recomendação é desenvolver capacidade de adaptação para lidar com um ambiente de maior volatilidade.Para ela, a mudança também altera a própria relação das empresas com os problemas gerados por suas atividades. Externalidades ambientais, em vez de serem tratadas apenas como custos ou riscos reputacionais, podem indicar espaços para inovação e criação de novos negócios.“Se a sua organização gera uma externalidade negativa para o meio ambiente, não há o que temer: é exatamente ali que moram as oportunidades”, disse.Leia também: Potência climática, Brasil ainda captura pouco do investimento globalO raciocínio também aparece nas empresas que já iniciaram processos de transição. Suchodolski afirmou que alguns negócios intensivos em emissões estão adotando novos processos e investimentos para reduzir seus impactos. Em horizontes de 15 ou 20 anos, segundo ele, o negócio original pode deixar de existir, mas dar lugar a uma atividade diferente, mais rentável e duradoura.O papel da sociedade civil e do setor privadoA discussão sobre liderança se estende para além das empresas e dos mercados. Para Daniela, famílias empresárias e outros grupos que acumulam recursos e influência têm uma responsabilidade adicional na construção do futuro do país.“O desafio era: no mundo globalizado, onde os jovens desse universo de privilégios podem estudar e morar em qualquer lugar, como manter o compromisso da terceira, quarta ou quinta geração de uma família empresária com o país que originou seu patrimônio?”, questionou Daniela.Ainda, Daniela pontua que esse papel não deve ficar restrito às famílias empresárias. A sociedade civil também precisa assumir maior protagonismo na construção de soluções para o país.Na mesma linha, Suchodolski defendeu que as transformações nas relações de trabalho e na economia exigem novos modelos de governança.“Precisamos criar uma nova governança porque os desejos e sonhos desse novo Brasil estão muito mais em sintonia com essas novas dinâmicas do que com a estrutura legada de 1943, que já dá sinais de ter chegado ao fim do seu ciclo”, disse.Leia mais: Brasil pode atrair trilhões em investimentos verdes, projeta especialista da FGVPotencial do Brasil e janelas de oportunidadeNa avaliação dos participantes, o Brasil reúne vantagens competitivas em áreas diretamente ligadas às transições globais, como agricultura, energia e meio ambiente. Para Suchodolski, esse potencial já desperta o interesse de investidores estrangeiros em busca de diversificação geográfica.O executivo destacou oportunidades em áreas como bioeconomia, agricultura regenerativa, descarbonização industrial e transição energética, além da expansão das fontes eólica e solar.Daniela, por sua vez, afirmou que o país reúne condições para dar um salto de desenvolvimento se conseguir transformar suas vantagens em estratégia de longo prazo.“Mais do que uma janela que se fecha, temos a oportunidade de fazer um salto e participar dessa transição de forma mais dinâmica. O Brasil reúne hoje excelentes condições para isso”, afirmou.Entre essas vantagens, ela destacou a agricultura, que pode avançar para além da exportação de commodities e ampliar a produção de tecnologia e novas cadeias industriais.Para Suchodolski, transformar esse potencial em desenvolvimento depende de construir um projeto capaz de mobilizar diferentes setores da sociedade.“Considero, na verdade, uma ideia bem radical: a capacidade de unir uma sociedade em torno de um plano de desenvolvimento estratégico, convergindo as diversas forças vivas do tecido social para um objetivo de avanço econômico e social – o que, no fundo, é o sonho de todos nós”, concluiu Suchodolski.The post Mudanças climáticas e IA: por que o modelo de liderança atual precisa mudar appeared first on InfoMoney.
