WASHINGTON — O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, adotou uma medida incomum durante a primavera e o verão no Hemisfério Norte: ligou diretamente para comandantes militares americanos no Oriente Médio, Europa e Ásia para obter avaliações sem filtros sobre a guerra com o Irã, segundo autoridades atuais e ex-integrantes do governo.Vance, que se opôs ao conflito desde o início e recebeu do presidente Donald Trump a missão de ajudar a encerrá-lo, queria ouvir a avaliação individual de cada comandante, em suas próprias palavras, antes que essas análises fossem consolidadas em uma posição oficial do Pentágono.As conversas abordaram uma ampla gama de temas relacionados à guerra, incluindo seus objetivos, táticas, estimativas de baixas, possíveis ações do Irã no Estreito de Ormuz, a capacidade de adaptação das forças iranianas e quanto desgaste o governo de Teerã seria capaz de suportar. Vance também pediu um levantamento detalhado dos estoques militares disponíveis e de como o envio de armas para o Oriente Médio poderia comprometer a capacidade dos EUA de dissuadir China, Rússia e Coreia do Norte.Nesse último ponto, os comandantes foram diretos. A principal preocupação era a redução dos estoques dos interceptadores Patriot, considerados a espinha dorsal da defesa aérea americana. No fim da primavera, uma das regiões sob comando militar dos EUA tinha menos de 100 unidades disponíveis. A guerra também consumiu estoques dos mísseis Army Tactical Missile Systems (ATACMS), com alcance de até 305 quilômetros, além dos novos Precision Strike Missiles, que deveriam substituí-los. Segundo os comandantes, os níveis desses armamentos estratégicos eram os mais baixos já registrados.O relato é baseado em entrevistas com mais de meia dúzia de autoridades atuais e ex-integrantes do governo que receberam anonimato para discutir informações sensíveis.Segundo pessoas que conversaram com Vance, ele saiu de algumas dessas reuniões profundamente preocupado com a estratégia geral da guerra e com as chances de sucesso da campanha. As avaliações deixaram claro o nível extraordinário de sofrimento que o governo iraniano estava disposto a suportar para sobreviver, além da limitada capacidade americana de defender-se de ataques retaliatórios do Irã ou responder a ameaças em outras partes do mundo.O vice-presidente levou essas preocupações para suas conversas privadas com Trump e o círculo mais próximo do presidente. Ao mesmo tempo, Trump vinha ouvindo cada vez mais, durante suas reuniões de inteligência, os alertas do general Dan Caine, presidente do Estado-Maior Conjunto, sobre a pressão sobre os estoques militares americanos e a resiliência das forças iranianas, algo que inicialmente o presidente teve dificuldade em acreditar.Os relatos mostram como Vance tentou trazer mais detalhes e nuances ao debate interno sobre a guerra. Também ajudam a esclarecer uma questão amplamente discutida em Washington: que tipo de informação Trump realmente recebe sobre o conflito e quem influencia suas decisões. Para Vance, que tinha experiência limitada em segurança nacional antes de assumir a vice-presidência, o episódio mostra sua imersão em uma guerra cara e sem desfecho claro, que pode acompanhá-lo caso dispute a Presidência em 2028.Havia, porém, uma diferença significativa entre as avaliações privadas recebidas por Vance e o discurso público da Casa Branca. Trump continuou afirmando que os Estados Unidos já venceram a guerra, que as forças armadas iranianas foram destruídas e que não existem problemas de abastecimento de armamentos. Vance, por sua vez, chegou recentemente a minimizar a ideia de que os EUA estariam efetivamente envolvidos em uma guerra.Nos bastidores, Trump demonstrou irritação com reportagens sobre a redução dos estoques militares, classificando jornalistas como “traidores” por divulgarem essas informações. Após a publicação dessas matérias, investigadores do governo submeteram dezenas de oficiais superiores do Pentágono a testes de polígrafo. Outros integrantes do governo manifestaram preocupação de que a divulgação dos números pudesse transmitir uma imagem de fraqueza para China e Rússia, que acompanham atentamente a capacidade militar americana.Segundo autoridades com conhecimento direto do assunto, as ligações de Vance foram realizadas com o conhecimento de Trump; do secretário de Defesa, Pete Hegseth; do general Caine; do secretário de Estado Marco Rubio, que acumula a função de conselheiro de Segurança Nacional; e da chefe de gabinete da Casa Branca, Susie Wiles.Opiniões diretas e sem filtrosAntes do início da guerra, em 28 de fevereiro, Hegseth e Caine haviam restringido o planejamento militar a um grupo excepcionalmente pequeno de oficiais do Pentágono e do Comando Central dos EUA, por razões de segurança operacional e para evitar vazamentos. Autoridades importantes, como os secretários do Tesouro e de Energia, ficaram fora das reuniões preparatórias.Esse nível de sigilo fez com que muitos comandantes ao redor do mundo só descobrissem os preparativos cerca de uma semana antes do início dos bombardeios, quando receberam mensagens confidenciais ordenando a transferência de quantidades específicas de munições para o Comando Central, responsável pelas operações no Oriente Médio.Poucos dias após o começo da guerra, Vance informou a colegas que desejava receber briefings mais detalhados para formar suas próprias opiniões e aconselhar melhor o presidente.Enquanto isso, Caine entendia sua função como a de apresentar opções militares imparciais ao presidente, sem defender qualquer alternativa específica. Sua tarefa consistia em interpretar os objetivos de Trump e oferecer diferentes caminhos para alcançá-los, destacando riscos, implicações e efeitos colaterais de cada decisão.O vice-presidente, porém, buscava algo além dos relatórios formais: queria ouvir comandantes militares de carreira oferecendo opiniões francas e recomendações sem filtros. Essas conversas passavam a compor seus próprios conselhos ao presidente.A oposição de Vance à guerra era um segredo aberto dentro da Casa Branca. Nas semanas que antecederam o início do conflito, ele argumentou contra a operação em reuniões no Salão Oval e na Sala de Situação, em alguns momentos irritando consideravelmente Trump, segundo pessoas que discutiram o assunto com o presidente. Ainda assim, quando Trump decidiu avançar, Vance defendeu a decisão publicamente, inclusive em entrevistas de televisão consideradas tensas.O vice-presidente também se tornou o principal rosto dos esforços diplomáticos, liderando uma série de negociações que resultaram em um memorando de entendimento em junho. O prazo de 60 dias expirou em agosto sem qualquer acordo definitivo, e os dois lados pareciam mais distantes do entendimento do que quando as negociações começaram.Trump não havia considerado seriamente a possibilidade de a guerra durar tempo suficiente para pressionar os estoques militares americanos. Ele vinha embalado pelo sucesso de uma operação rápida contra o governo da Venezuela e pela campanha conjunta dos EUA e Israel contra instalações nucleares iranianas no ano anterior. Antes da guerra, acreditava, em conversas reservadas, que o regime iraniano poderia ruir em poucos dias.Mas, enquanto Vance telefonava para os comandantes, os combates ultrapassavam com folga as cerca de seis semanas originalmente previstas pelos planejadores do Pentágono. Assessores da Casa Branca passaram a reconhecer que não tinham uma compreensão clara sobre o impacto dos ataques na estratégia do governo de Teerã.Com o prolongamento da guerra, os comandantes receberam ordens para enviar ainda mais munições ao Oriente Médio e observaram com preocupação a redução contínua de seus estoques.Em abril, Trump percebeu que o conflito não seguia o rumo esperado. Então autorizou sua equipe, incluindo Vance, o genro Jared Kushner e o enviado especial Steve Witkoff, a buscar uma fórmula para negociar o fim da guerra com o Irã, mesmo que isso significasse a permanência do atual regime no poder.Vance também ganhou reputação dentro do governo por mergulhar profundamente em detalhes operacionais. Enquanto o estilo de Trump frequentemente deixa até seus assessores sem entender exatamente como ele chegou a uma decisão, o vice-presidente acompanha obsessivamente dados cotidianos, operações militares, dinâmicas internas da política iraniana e a origem dos relatórios de inteligência.O diretor da CIA, John Ratcliffe, chegou a conceder a Vance acesso direto a analistas da agência. Segundo fontes de inteligência, o vice-presidente conhece alguns deles pelo primeiro nome e liga diretamente para suas mesas para discutir informações brutas ou detalhes presentes em seus relatórios diários.Mas esse grau de acesso é uma exceção. Para a maior parte das autoridades de alto escalão, informações detalhadas sobre a guerra continuam difíceis de obter.©2026 The New York Times CompanyThe post Nos bastidores, JD Vance busca avaliações “sem filtros” sobre guerra dos EUA com Irã appeared first on InfoMoney.
