O caso Mascavo: disputa entre Mari Saad e Black Rocket revela riscos societários

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Quando anunciou sua saída da operação da sua própria marca de maquiagem, a Mascavo, a influenciadora Mari Saad disse que continuava sendo sócia majoritária da marca, mas já não tinha controle sobre o negócio. A declaração parece contraditória à primeira vista: afinal, como alguém que detém a maioria das cotas pode dizer que perdeu o controle da empresa que fundou e que carrega a sua imagem?A resposta está no centro da disputa judicial envolvendo a marca de maquiagem e seus sócios investidores, Igor Damásio, Leandro Lima e Roney Costa, donos da Black Rocket, que agora reúne discussões sobre um contrato de mútuo de R$ 11,1 milhões cuja aprovação pelos demais sócios é questionada no processo; a abertura de um novo CNPJ pela influenciadora com o mesmo nome da Mascavo; acusações de descumprimento do acordo de sócios e, em segundo plano, até mesmo tratativas relacionadas à nova marca de maquiagem ligada à cantora e apresentadora Juliette.Mariana Saad detém 50,625% da Bikini Cosméticos, empresa titular da marca, enquanto seu pai, Dario Carvalho, tem 5,625% de participação. Juntos, formam o “bloco Mariana”, com 56,25% de participação societária na Bikini. Enquanto isso, a sócia, Black Rocket, detém os 43,75% remanescentes. Acontece que, diferente do que os números sugerem, participação societária e poder de decisão não são sinônimos – e nem sempre caminham juntos.Leia mais: Juliette, campeã do BBB 21, diz que investir no ramo da maquiagem está nos planosCrisesMuito antes de qualquer disputa nos tribunais, a Mascavo já enfrentou duas grandes crises. A primeira ocorreu logo após o seu lançamento, em 2024, gerando forte repercussão nas redes sociais. Consumidores questionaram a representatividade da cartela de tons para pessoas negras dos produtos da Mascavo, uma crise que obrigou a empresa a rever parte de sua estratégia de produto.Mais recentemente, a marca vem enfrentando um grande volume de reclamações envolvendo a embalagem de sua base líquida, com consumidores relatando falhas nos frascos e vazamentos. Em seu pronunciamento na semana passada, Mari Saad, que disse que, internamente, defendeu medidas mais amplas para lidar com o problema, como o recolhimento dos produtos e uma comunicação mais direta com os clientes afetados, mas que encontrou dificuldades para implementar as medidas que considerava necessárias – mesmo sendo CEO e a cara da Mascavo. Do outro lado, a Black Rocket sustentou que “a gestão seguiu rigorosamente o acordo societário estabelecido e, nesta divisão de tarefas, as atribuições relacionadas a marketing, portfólio, desenvolvimento de produtos e embalagens (incluindo bases) não ficaram sob responsabilidade da Black Rocket”.Leia também: e.l.f. Cosmetics chega ao Brasil com mais de 150 produtos e preços a partir de R$ 45Governança e repassesA estrutura desenhada pelos sócios atribuía à Mari Saad funções relacionadas à marca, marketing, desenvolvimento de produtos e comunicação, enquanto a Black Rocket concentrava áreas como operação, logística, estoque, distribuição, governança financeira e gestão do negócio.“Apesar do bloco da Mari e do Dario possuir a maioria das cotas, a parte operacional da empresa ficou concentrada na Black Rocket. Você tinha um lado majoritário no papel e um lado minoritário, mas com poderes extremamente relevantes na gestão do negócio”, explica a advogada especialista em Direito Empresarial, Fernanda Rúbia Machado, que teve acesso ao processo.O conselho de administração da Bikini, detentora da Mascavo, tinha sete pessoas: três indicadas pelo bloco Mariana, três indicadas pela Black Rocket, e a sétima pessoa indicada pelo bloco Mariana, com necessidade de aprovação obrigatória pela Black Rocket. “Para várias decisões estratégicas, a Mari tinha voto decisivo como sócia majoritária, mas a Black Rocket tinha poder de veto, desde que justificado em ata”. Na prática, a participação societária definia quem era dono da empresa, mas as atribuições definidas no acordo de sócios era que determinavam quem efetivamente conduzia a operação.Outro ponto central da disputa envolve a utilização de múltiplas empresas do mesmo ecossistema empresarial na operação da Mascavo. Segundo a defesa da influenciadora, partes importantes da operação teriam sido executadas por companhias ligadas ao mesmo grupo econômico dos sócios da Black Rocket, esvaziando a Bikini Cosméticos, detentora da Mascavo.“A possibilidade de contratação de outras empresas existia nos acordos. Contudo, haviam limites específicos de markup [indicador relacionado a preço], de repasses para a Bikini, entre outros. É isso que deve ser avaliado”, explica Machado. Um dos pontos do processo envolve a remuneração da Bikini. Em documentos apresentados à Justiça, aparece a referência a um faturamento superior a R$ 60 milhões em pouco mais de um ano de operação da Mascavo. Contudo, a defesa da influenciadora sustenta que a Bikini teria recebido pouco mais de R$ 1 milhão em royalties apenas depois do início da disputa judicial.A defesa da Black Rocket, por outro lado, argumenta que recursos chegaram à Bikini por meio de aportes que somam quase R$ 10 milhões, vinculados à operação estruturada entre empresas do grupo. Já os autores do processo sustentam que esses valores não substituem a remuneração devida à detentora da marca e questionam por que os pagamentos de royalties só passaram a ocorrer após o litígio chegar à Justiça.Segundo Machado, royalties, investimentos e empréstimos são coisas completamente diferentes dentro da estrutura financeira de uma empresa e o questionamento envolvendo os valores não será resolvido apenas por interpretação contratual, mas sim por meio de perícia contábil.“Todos os repasses devidos, incluindo o pagamento de remuneração de pró-labore, foram integralmente calculados e quitados dentro das condições combinadas. A estrutura operacional e de faturamento adotada é legítima, planejada e aprovada por todas as partes desde o início da operação e tem como objetivo assegurar a eficiência do negócio. Todas as partes sempre tiveram acesso às contas e aos relatórios da operação”, disse a Black Rocket em nota. Leia também: Suplementos, concierge e menos remédios: a proposta de luxo da Drogaria IguatemiComo a implementação de sistemas de planejamento afetaram até as receitas da NaturaDívida é investimento? Um dos elementos mais relevantes – e pouco comentados – do processo é um contrato de confissão de dívida e mútuo firmado entre uma das empresas ligadas à sócios da Black Rocket, a Omnibeauty, em 11 de maio de 2026, ao qual a reportagem teve acesso.O documento, divulgado em maio de 2026, mas que estabelece efeitos retroativos a outubro de 2023, reconhece aproximadamente R$ 11,1 milhões em obrigações financeiras entre as empresas. Pelo contrato, R$ 9,7 milhões referem-se a uma linha de crédito utilizada para cumprir compromissos assumidos pela Black Rocket na Bikini Cosméticos, enquanto outros R$ 1,3 milhão estão ligados à cessão de posição contratual anteriormente ocupada pela Omnibeauty. Em uma réplica a qual o InfoMoney obteve acesso, a defesa de Saad afirma que os recursos apresentados como “investimento” na Bikini eram, na verdade, dívidas contraídas pela Black Rocket na Omnibeauty – duas empresas que, segundo a acusação, pertencem a um mesmo grupo econômico. Outro questionamento está relacionado ao fato de o contrato ter sido assinado após o início da disputa judicial e possuir efeitos retroativos.“O acordo de cotistas permitia linhas de crédito por mútuo ou de AFAC [Adiantamento para Futuro Aumento de Capital]. Mas esses dois instrumentos funcionam de formas muito diferentes. O AFAC é uma receita para a empresa, e não um empréstimo. O mútuo é um empréstimo e, nesse caso, todos os sócios precisariam concordar em contrair um empréstimo de milhões de reais com a Omnibeauty – o que parece que não foi o caso (…) Não encontrei documentos que comprovam a aprovação do empréstimo por todos os sócios”, avalia Machado.Leia também: Mercado de luxo nas redes sociais: Yves Saint Laurent Beauty chega ao TikTokAnvisa proíbe venda de perfumes, máscaras capilares e maquiagens; veja quaisOutra Mascavo e JulietteDo outro lado, a Black Rocket questiona a criação de uma nova empresa por Mariana Saad, a MS Beauty, com o registro do nome fantasia “Mascavo”, já em março deste ano, em meio ao litígio entre as partes e à tentativa da Bikini de remover a Black Rocket da sociedade. “A empresa foi aberta com referência à Mascavo. Juridicamente, isso é sensível e certamente será explorado pela outra parte”, avalia Machado.A defesa de Mariana sustenta que os próprios executivos ligados à Black Rocket teriam defendido alterações contratuais para permitir o desenvolvimento de novos negócios no setor de beleza. Como evidência, os autores citam tratativas envolvendo um projeto de maquiagem com Juliette em parceria com a Omnibeauty, anexando, inclusive, um print de tela de uma reunião online entre a artista e executivos da companhia. Ainda não existem respostas definitivas, uma vez que o caso ainda aguarda avaliação da Justiça. Ainda assim, ele expõe uma realidade pouco intuitiva para muitos empreendedores: ser dono não significa necessariamente estar no controle. “A Mari não estava em uma posição de ‘cara da marca’ apenas. Ela respondia como porta-voz da marca, CEO e componente ativo da administração (…) Ainda assim, vejo um desequilíbrio no acordo de sócios. Isso pode ter sido feito exatamente pra balancear o fato de estarem em minoria, permitindo algumas aberturas para ‘decidir sozinho’ na operação e tendo apenas a obrigação de reportar para a maioria – e é esse reportar que está sendo analisado no processo. Mas concordo que possa ter existido um pouco de amadorismo na hora de entender como esse acordo ia funcionar na prática, as nuances de deter a maioria, mas havendo poder de veto do outro lado e a necessidade de unanimidade em outras decisões, o que configura uma minoria com poderes de gestão enormes”, finaliza Machado.A reportagem não conseguiu contato com a Black Rocket. Já a assessoria de Juliette Freire não respondeu questionamentos sobre o potencial projeto de maquiagem da artista até o momento da publicação. O espaço segue aberto. A assessoria de Mariana Saad disse que a influenciadora não falaria neste momento e disponibilizou a nota já divulgada na semana passada.Leia também: Como um pequeno laboratório virou uma fábrica que fatura mais de R$ 200 milhõesNatura pede desculpa a consultoras e entra em modo controle de danos: veja o que mudaNota da Black Rocket na íntegraA Black Rocket, sócia da Bikini Cosméticos, detentora da marca Mascavo, reafirma seu compromisso com a ética, a moral e a transparência e esclarece que todas as operações financeiras, logísticas e comerciais da marca sempre foram – e continuarão sendo – executadas em absoluto cumprimento à lei e aos contratos firmados entre os sócios.Lamentamos que uma divergência societária tenha sido levada às redes sociais de forma unilateral, com acusações graves envolvendo uma empresa que permanece em plena operação e, sobretudo, expondo uma estrutura formada por colaboradores, clientes, fornecedores, parceiros e consumidores que não fazem parte dessa disputa.A gestão seguiu rigorosamente o acordo societário estabelecido e, nesta divisão de tarefas, as atribuições relacionadas a marketing, portfólio, desenvolvimento de produtos e embalagens (incluindo bases) não ficaram sob responsabilidade da Black Rocket.Por outro lado, desde a constituição da parceria, a integralidade dos recursos financeiros investidos na operação foi aportada pela Black Rocket, que também assumiu responsabilidades essenciais para viabilizar a estruturação, o desenvolvimento e o crescimento do negócio.Da mesma forma, todos os repasses devidos, incluindo o pagamento de remuneração de pró-labore, foram integralmente calculados e quitados dentro das condições combinadas. A estrutura operacional e de faturamento adotada é legítima, planejada e aprovada por todas as partes desde o início da operação e tem como objetivo assegurar a eficiência do negócio. Todas as partes sempre tiveram acesso às contas e aos relatórios da operação. As obrigações fiscais e tributárias relativas às operações sob responsabilidade da Black Rocket também foram cumpridas nos termos da legislação aplicável.A atual disputa societária ocorre em um contexto muito distinto daquele normalmente associado à dissolução de uma empresa: a Mascavo é uma marca em plena operação, com trajetória de forte crescimento e resultados expressivos.Esse desempenho, no entanto, não pertence a uma única pessoa. É resultado do trabalho e da dedicação de um time de profissionais, parceiros e fornecedores que contribuíram e continuam contribuindo, de forma determinante para a construção e o desenvolvimento da marca.Neste momento, nossa prioridade é preservar a continuidade e a solidez da operação, bem como proteger as pessoas e relações construídas ao longo dessa trajetória. Reafirmamos aos nossos colaboradores, parceiros, clientes e consumidores nosso compromisso inegociável com a verdade, a transparência, a responsabilidade e o cumprimento de todas as nossas obrigações.Por fim, informamos que nossa defesa e os devidos esclarecimentos técnicos estão sendo apresentados diretamente à Justiça desde março de 2026, ambiente adequado para a análise dos fatos e das provas. Reiteramos que, até o presente momento, os pedidos judiciais da outra parte foram negados por três vezes, inclusive em instâncias superiores.Desde o início, a Black Rocket defendeu a transparência na condução do processo e requereu que ele permanecesse público, em contraposição ao pedido de tramitação sob sigilo formulado pela outra parte. A Justiça acolheu a manutenção da publicidade, e o processo segue disponível para consulta pública.Seguiremos conduzindo nossas atividades com serenidade, responsabilidade e respeito às instituições, preservando a operação da Mascavo e todas as pessoas que contribuíram para a construção da marca.Nota de Mari Saad na íntegraMari Saad decidiu encerrar seu ciclo à frente da Mascavo e já se pronunciou publicamente sobre as razões que levaram a essa decisão.A empresária permanece formalmente como sócia da companhia, mas afirma que, ao longo dos últimos anos, passou a enfrentar divergências relacionadas à gestão, à governança, à estrutura operacional e ao acesso a informações necessárias para acompanhar integralmente o negócio.Segundo Mari, diferentes etapas da operação eram executadas por meio de empresas ligadas à estrutura de seus sócios de investimento. Questões relacionadas ao funcionamento dessa estrutura, aos fluxos financeiros, ao acesso a informações e às responsabilidades de cada parte integram atualmente uma disputa judicial e serão tratadas no processo, com base nos documentos e nas manifestações das partes.Em relação às reclamações envolvendo a embalagem da base, Mari informou que buscou uma solução internamente e anunciou uma iniciativa voltada às consumidoras afetadas. Conforme explicado publicamente, será disponibilizado crédito correspondente a R$ 129,90, em seu novo projeto. Caso o projeto não esteja disponível em 2027, o valor correspondente será devolvido.Mari não pretende transformar a disputa societária em uma discussão pública permanente. Os aspectos jurídicos, societários e financeiros continuarão sendo tratados no processo. Sua comunicação, daqui em diante, estará concentrada na solução das questões relacionadas às consumidoras e nos próximos passos de sua trajetória profissional.The post O caso Mascavo: disputa entre Mari Saad e Black Rocket revela riscos societários appeared first on InfoMoney.

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