O preço do dinheiro subiu e “concorrência brutal” vai penalizar o Brasil, diz gestora

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Os juros dos títulos públicos dos países desenvolvidos voltaram a dominar a agenda dos mercados globais nesta semana, em movimento que se estendeu por seis pregões seguidos até o fechamento de quarta-feira. O rendimento do Tesouro americano de dez anos alcançou o maior patamar desde novembro de 2023, o de trinta anos ficou acima de 5,2%, o título japonês de dez anos voltou a operar acima de 3% e o alemão foi ao nível mais alto desde 2011.A leitura predominante atribui o movimento a petróleo mais caro e temor de inflação resistente, que pioraria o quadro de necessidade crescente de financiamento dos governos. Mas a Adam Capital, gestora comandada por Márcio Appel, não enxerga essa relação e trabalha há meses com outra explicação: a de que o juro pode continuar subindo mesmo que a inflação ceda, porque o custo do capital em si aumentou.”No longo prazo, a IA pode reduzir a inflação ao mesmo tempo em que aumenta o preço do dinheiro”, afirmou a casa em sua última carta a cotistas.O que sustenta a alta do juro real, na avaliação da casa, é uma competição por poupança sem paralelo recente. A construção de data centers, energia e capacidade computacional exige capital em volume elevado antes que os ganhos de produtividade apareçam, e essa demanda concorre com a emissão de dívida pública. Segundo a gestora, “a enorme necessidade de financiamento da infraestrutura de IA concorre pela mesma poupança disponível que precisa absorver uma emissão crescente de títulos públicos”.“Se a inflação implícita cair 100 pontos-base, mas o juro real subir 200, o resultado não será uma queda dos juros nominais. Será uma abertura de 100 pontos-base”, afirma a gestora, defendendo que o nível de exigência de remuneração do mercado deve se sobrepor às expectativas de inflação: “Não precisamos de inflação persistentemente alta para termos juros persistentemente altos”O JPMorgan calcula que os cinco maiores provedores de nuvem somados à Nvidia emitiram cerca de US$ 320 bilhões em dívida em 2026, e que essa emissão, quando convertida em equivalentes de dez anos, uma métrica que ajusta o volume pelo prazo dos papéis, corresponde a 70% do endividamento longo novo do Tesouro americano no ano. A pressão se concentra justamente na ponta da curva mais sensível ao prêmio exigido pelo investidor. Para a Adam, o desdobramento é que os títulos públicos seguirão enfrentando uma “concorrência brutal pelo capital, que acaba sugado pela alta lucratividade da IA”.Efeitos no BrasilA Adam lembra que as taxas dos Estados Unidos, da Europa e do Japão funcionam como uma espécie de “taxa básica” mundial, na medida em que definem o custo de oportunidade de investir em mercados emergentes, e que esse custo subiu de forma consistente desde 2015. Sobre a continuidade do movimento, a gestora propõe um exercício ao leitor. “Imagine o impacto sobre o Brasil e outros mercados emergentes caso os rendimentos das Treasuries de 10 anos retornem a patamares superiores a 6%, nível comum em boa parte dos anos 1990.”O país chegaria a esse ambiente com fragilidades próprias, entre elas o PIB medido em dólares, que segundo a gestora ainda não retomou de maneira convincente os níveis alcançados há cerca de quinze anos, uma conta corrente deteriorada mesmo descontado o efeito do petróleo e uma margem discricionária no Orçamento inferior a 1% do PIB. “Enquanto o mundo pode estar migrando para um regime no qual o capital se torna mais escasso e mais caro, a política fiscal brasileira continua operando com pouca margem para absorver choques externos”, diz a casa.A Adam avalia ainda que a variável decisiva pode migrar da ponta curta da curva, definida pelos bancos centrais, para a ponta longa, e pondera que o regime de liquidez abundante entre 2010 e 2025 talvez seja “uma referência ruim para pensar os próximos dez anos”. Coerente com essa leitura, a gestora mantém posições compradas em ações de tecnologia americana, em dólar contra uma cesta de moedas e em NTN-B, o título público atrelado à inflação, com parte do juro real travado, além de posição vendida em ouro.No curto prazo, os ativos brasileiros têm andado na direção inversa ao exterior. O Ibovespa subiu 3,05% na quarta-feira, aos 185.205 pontos, na décima primeira alta consecutiva, com dólar na região de R$ 5,10 e juros futuros em queda ao longo de toda a curva, em sessão pautada por pesquisas eleitorais que mostraram disputa mais apertada. A Selic está em 14% desde agosto, com nova redução esperada na reunião do Copom de 15 e 16 de setembro.Leia também: É mesmo só fiscal? Cresce a parcela de culpa dos EUA no problema do juro brasileiroContra a maré Parte relevante do mercado interpreta os mesmos fatos de forma mais conjuntural. Em nota a clientes, o UBS estima que a emissão das empresas de tecnologia responde por cerca de 20% da aceleração recente do crédito nos EUA e argumenta que há pouca evidência histórica de que uma oferta maior de dívida privada eleve o prêmio exigido nos títulos públicos. O banco observa que os spreads de crédito, que medem o prêmio pago por empresas em relação ao governo, permaneceram comportados mesmo diante de um agosto de emissões recordes.A Allianz, também em relatório, reconhece a contribuição da emissão ligada à inteligência artificial, que segundo a casa saltou para US$ 356 bilhões no ano contra US$ 174 bilhões em todo o ano passado, mas pondera que a velocidade do movimento recente não caracteriza pânico. A alta dos juros de dez anos desde julho ficou entre 30 e 55 pontos-base conforme o país, avanço inferior ao registrado no início do conflito entre EUA e Irã. A casa observa ainda que indicadores de liquidez e demanda em leilões não apontam disfunção de mercado e estima que os bancos centrais só interviriam diante de um salto próximo de 70 pontos-base em poucos dias.Ao contrário da carteira da Adam, o UBS recomenda manter posição estratégica em ouro, tratado como proteção contra pressão fiscal americana e perda de valor das moedas, além de reduzir concentração em dólar e privilegiar títulos públicos de prazo curto e médio.o fundo multimercado Adam Macro entregou 4,43% de retorno em agosto, o equivalente a mais de 400% do CDI. No ano, o fundo rende 18%, ou 193% do benchmark.Leia também: Títulos de longo prazo são armadilha ou o melhor investimento da próxima década?The post O preço do dinheiro subiu e “concorrência brutal” vai penalizar o Brasil, diz gestora appeared first on InfoMoney.

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