Conteúdo XPManter uma rotina quando o resultado demora, a recompensa não aparece e a vontade desaparece é um dos desafios de quem busca alta performance. Essa dificuldade pode surgir na repetição do plano, no controle dos impulsos e na capacidade de continuar executando mesmo nos dias menos favoráveis.Paulo Muzy foi o convidado do episódio 14 da 4ª temporada do programa Mapa Mental, no canal GainCast. Médico ortopedista, traumatologista e especialista em medicina do esporte, ele apresentou sua definição de disciplina e explicou por que esse comportamento começa antes da repetição diária de uma tarefa.O propósito vem antesPara Muzy, a disciplina não nasce no instante em que alguém começa a repetir uma atividade. Antes de cobrar frequência ou desempenho, é necessário compreender por que aquele esforço merece ser mantido mesmo quando se torna desagradável. “Disciplina é a capacidade de você fazer as coisas que você não gosta, porque você tem um propósito”, define.Nesse raciocínio, objetivos eventuais não necessariamente sustentam uma rotina. Portanto, é preciso distinguir um desejo momentâneo de uma razão capaz de produzir envolvimento mais duradouro. “Tem aquela coisa eventual que você tem uma motivação passageira e que ela não chega a se tornar um compromisso”, observa.Assim, o propósito aciona uma sequência na qual a motivação representa apenas uma etapa. Depois, o compromisso conduz à repetição, enquanto o tempo transforma o comportamento em algo consistente. “O propósito vai gerar motivação, vai gerar o compromisso. Isso gera consistência, e essa consistência ao longo do tempo a gente começa a chamar de disciplina”, explica.Por isso, a disciplina não aparece como uma qualidade reservada a determinadas pessoas. Na avaliação do médico, ela pode ser desenvolvida, embora o processo dificilmente aconteça sem aprendizado ou orientação. “Então eu crio essa disciplina, e que eu acredito, que é uma coisa que precisa ser ensinada. É muito difícil aprender isso sozinho, e muitas vezes ela precisa ser tutelada”, sustenta.Leia também: Flávio Ferraz explica por que felicidade começa no amor próprioCombate ao imediatismoNo cotidiano, porém, construir esse comportamento exige renunciar ao alívio oferecido pelo presente. Por isso, o aprendizado exige manter a escolha alinhada ao resultado mais distante. “Buscando sempre o sim para aquilo que é o objetivo final”, afirma Muzy.Ao mesmo tempo, a recompensa sustenta tarefas desconfortáveis. Sem uma razão que compense o incômodo, a execução tende a perder força. Portanto, é preciso atravessar o desconforto em vez de evitá-lo. “Se expor ao desconforto de ter de fazer aquilo que você não quer na hora que você não quer e do jeito que você não gostaria”, explica.Entretanto, esse esforço passou a disputar espaço com estímulos capazes de entregar prazer quase instantaneamente. O desafio, portanto, não está apenas na tarefa que precisa ser cumprida, mas também nas alternativas disponíveis para adiá-la. “A gente entra na nossa era, onde o que mais existe é satisfação imediata. Ou formas de oferta de satisfação imediata”, comenta.Dessa forma, Muzy não atribui o imediatismo exclusivamente às gerações atuais. Para ele, a tecnologia ampliou a variedade e o volume de oportunidades para atender impulsos que já existiam. “Acho que as pessoas sempre foram imediatistas. A questão é que não existia tecnologia ou volume suficiente para que elas conseguissem exercer isso”, argumenta.Leia também: A jornada de transformação de Marci Mota até unir psicanálise e day tradeO exemplo de Cristiano RonaldoUm exemplo aparece na relação profissional com Cristiano Ronaldo. Muzy conta que presenteou o jogador com um curso sobre fisiologia do exercício, emagrecimento e desenvolvimento muscular. Mesmo podendo delegar o tema, o atleta estudou o conteúdo. “Cristiano Ronaldo é capaz de sentar e assistir 60 horas de aula em três semanas. É esse o nível da inteligência dele”, revela.Além disso, o jogador não encerrou o processo depois de assistir às aulas. Em seguida, pediu uma ligação para aprofundar os assuntos e esclarecer os pontos que haviam despertado interesse. “A gente ficou conversando duas horas e meia, tirando dúvidas das coisas que ele achava interessante, que ele queria saber mais”, conta.Segundo Muzy, o comportamento ganha relevância porque o jogador não dependia daquele curso para receber as informações. Ainda assim, dedicou tempo ao material e buscou compreender o conteúdo em vez de se limitar a respostas prontas. “Ele sentou na cadeira, estudou aquilo e recebeu de presente”, recorda.Consequentemente, o episódio funciona como uma demonstração de disciplina aplicada longe dos estádios e dos treinamentos físicos. O diferencial estaria em continuar fortalecendo os fundamentos mesmo depois de alcançar resultados que permitiriam transferir essa responsabilidade. “Ele é uma pessoa que está sempre investindo naquilo que é a base daquilo que ele faz”, destaca.Confira mais conteúdos sobre análise técnica no IM Trader. Diariamente, o InfoMoney publica o que esperar dos minicontratos de dólar e índice. The post O que vem antes da disciplina? Paulo Muzy explica por que motivação não basta appeared first on InfoMoney.
