Os jovens de 20 e poucos anos que comandam a máquina de guerra da Ucrânia

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KIEV, Ucrânia — Nesta primavera, uma funcionária do Ministério da Defesa da Ucrânia revisava os compromissos de ajuda militar da Dinamarca quando encontrou um problema escondido nas letras miúdas. Milhares de projéteis de artilharia destinados à Ucrânia eram do tipo errado — munição de curto alcance, que não permitiria que os canhões atingissem alvos muito atrás das linhas russas.Ignorando o processo burocrático usual, a funcionária passou dias ao telefone, pressionando autoridades dinamarquesas a modificar o pacote de ajuda, segundo seu chefe, Oleksii Antoniuk, vice-chefe do departamento de cooperação do Ministério da Defesa. Em poucas semanas, ela havia garantido 15 mil projéteis de longo alcance.Leia tambémEUA destroem torre de vigilância iraniana para Ormuz e Irã sinaliza retaliaçãoTorre era usada por décadas pela Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC) para rastrear e alvejar navios comerciais que transitam pelo Estreito de OrmuzRússia intensifica ataques a portos ucranianos no Mar Negro, 3 pessoas morremUm ataque com drones russos à infraestrutura portuária na cidade de Mykolaiv, no ‌sul do país, danificou três embarcações civis “Se não fosse por ela, isso não teria acontecido”, disse Antoniuk. “Esses projéteis realmente podem significar mil russos mortos. Essa é, literalmente, a contribuição dela para o esforço de guerra.”A funcionária, cuja identidade não pode ser revelada por motivos de segurança, não é uma veterana especialista em compras militares. Ela tem pouco mais de 20 anos e acabou de sair da universidade.Antoniuk é apenas um pouco mais velho: tem 24 anos.Eles simbolizam uma mudança geracional que atravessa o setor de defesa da Ucrânia, onde homens e mulheres jovens — muitos deles com menos de 30 anos — vêm substituindo gradualmente uma velha guarda da era soviética e se consolidando como uma força motriz do esforço de guerra do país.A mudança atravessa cada elo da máquina de guerra ucraniana. Engenheiros na faixa dos 20 anos projetam drones sofisticados. Jovens empreendedores transformam esses protótipos em linhas de produção, alguns usando sua formação no Ocidente para atrair financiamento estrangeiro. No Ministério da Defesa, recém-formados cortam burocracia para acelerar o envio de armas à linha de frente.Na quinta-feira, esses mesmos jovens foram às ruas protestar contra a destituição do ministro da Defesa da Ucrânia, Mykhailo Fedorov, expondo a divisão geracional que atravessa o esforço de guerra do país. Fedorov, de 35 anos, havia defendido reformas nas compras de armamentos e uma guerra orientada por tecnologia, conquistando forte apoio entre os jovens ucranianos, mas irritando parte do establishment militar e da indústria de defesa, que pressionou por sua saída.A ascensão de uma geração mais jovem foi impulsionada, em parte, pela necessidade militar. Incapaz de igualar a Rússia em efetivo e poder de fogo, a Ucrânia apostou em superar seu adversário maior pela inovação. Isso abriu espaço para uma nova geração imersa na cultura de startups e nas novas tecnologias — uma mudança que se tornou especialmente visível na adoção da guerra com drones por Kiev.“Esse nível de inovação, e a forma como ela foi integrada à luta da Ucrânia, não seria possível sem esses jovens”, disse Per Holst, adido adjunto de defesa da embaixada da Dinamarca em Kiev, que supervisionou a entrega dos projéteis de longo alcance.Com o tempo, o setor de defesa superou a tecnologia da informação como o maior polo de atração para os jovens talentos da Ucrânia. Parte do apelo está no quanto os dois campos se sobrepõem, com mudanças igualmente rápidas. Outra parte é que trabalhar com defesa oferece um papel na luta nacional pela sobrevivência, mas sem os perigos do serviço militar — e alguns desses empregos isentam homens do alistamento.“A humanidade sobreviverá sem aplicativos”, disse Andriy Zagorodnyuk, ex-ministro da Defesa da Ucrânia e hoje analista de segurança. “Mas, trabalhando para a defesa, você está salvando seu país. É um significado completamente diferente.”O caminho de Mykhailo Rudominski para a defesa começou com uma ligação de um amigo, um soldado que ajudava a defender Kiev da invasão russa em 2022.As tropas ucranianas tinham um problema, disse o amigo. Sem rádios militares caros, dependiam de modelos comerciais baratos que as forças russas conseguiam facilmente bloquear e interceptar. Rudominski, de 26 anos, havia criado startups de hardware antes da guerra. Será que ele poderia ajudar?Os dois amigos decidiram criar um sistema alternativo capaz de resistir à interferência russa, ao mesmo tempo em que fosse simples de usar e barato o bastante para ser comprado aos milhares. Assim nasceu a Himera, empresa que desenvolve rádios resistentes à guerra eletrônica.Rudominski seguiu a cartilha das startups — mas em uma zona de guerra, com soldados atuando como testadores beta. Ele levou protótipos para a linha de frente, coletou feedback e aprimorou seus produtos.O desafio mais difícil foi vender seus rádios para o Exército. Os responsáveis pelas compras confiavam em empresas tradicionais de defesa, não em uma recém-chegada com uma ideia nova. “Ouvi muitos ‘nãos’”, disse Rudominski.Mas, eventualmente, ele conseguiu colocar seus produtos nas mãos de unidades das forças especiais, ajudando a construir credibilidade. Hoje, mais de 10 mil soldados ucranianos usam a tecnologia da Himera, que se mostrou tão eficaz que a Força Aérea dos EUA a testou como uma possível aquisição.Os jovens que experimentavam com drones encontraram o mesmo ceticismo. No início da guerra, as autoridades ucranianas estavam focadas em adquirir artilharia, mísseis, tanques e caças — os instrumentos que dominaram a guerra durante décadas.“O governo não via drones como armas de verdade”, disse Kateryna Mykhalko, de 25 anos, que trabalhou para uma startup de drones no primeiro ano da guerra e depois lançou as Forças Tecnológicas da Ucrânia, um grupo de lobby para fabricantes de drones. O grupo começou com cinco membros em 2023 e hoje reúne mais de 100 empresas, à medida que a Ucrânia se transformou em uma potência global de drones.A ascensão dos jovens em um setor tão estratégico, porém, não foi universalmente bem recebida.No ano passado, o deputado Oleksiy Honcharenko questionou a capacidade de Mykhalko de liderar um grupo da indústria de armamentos na sua idade. “Podemos ver o currículo dela?”, escreveu em uma postagem no Facebook. “Bonita — sim. Vejo as sessões de fotos. Mas onde está o profissionalismo?” A crítica teve efeito contrário, e políticos e figuras da sociedade civil saíram em sua defesa.Desde então, Mykhalko expandiu seu trabalho para além da Ucrânia, assumindo a liderança da New Age Defense, que representa os principais fabricantes europeus de drones.Muitos atribuem a Fedorov, o recém-demitido ministro da Defesa, o mérito por acelerar essa mudança geracional.Ele atuou primeiro como ministro da Transformação Digital da Ucrânia, indo além de sua pasta oficial para defender empreendedores do setor de defesa. Sua principal criação é a Brave1, uma plataforma do governo que financia startups de defesa e ajuda a transformar protótipos em produtos testados em combate. Em três anos, a iniciativa canalizou centenas de milhões de dólares em subsídios e capital de risco para empresas, incluindo a Himera.Um encontro recente da Brave1 em Kiev parecia mais uma conferência de tecnologia do que uma feira tradicional de defesa. Jovens engenheiros de camiseta se aglomeravam em pequenos estandes exibindo os drones mais recentes, enquanto música eletrônica ecoava pelo local. No andar de cima, dois apresentadores na casa dos 30 gravavam um podcast ao vivo, conversando com fundadores de startups.Artem Moroz, de 29 anos, responsável pelas relações com investidores da Brave1, lembrou sua surpresa ao entrar na organização em 2024 e encontrar colegas falando a linguagem do Vale do Silício.“Não parecia um projeto de governo”, disse. “Parecia uma grande empresa de tecnologia.”Quando Fedorov se tornou ministro da Defesa da Ucrânia no começo deste ano, levou essa mudança geracional para uma burocracia da velha guarda, em grande parte liderada por generais e burocratas formados na era soviética.Agora, os corredores do ministério estão cheios de jovens como Antoniuk, cuja funcionária encontrou o erro nos compromissos de ajuda da Dinamarca e que hoje conduz a cooperação de defesa da Ucrânia com parceiros estrangeiros.Para isso, ele montou uma equipe de gestores por país, alguns ainda mais jovens do que ele. O que ele procura, disse, é fluência em línguas estrangeiras, grande capacidade analítica e, acima de tudo, habilidade para se adaptar rapidamente. “Muitas dessas qualidades você encontra nos jovens”, afirmou.A maioria das pessoas contratadas por Antoniuk, formado pela Universidade Yale, também estudou no Ocidente e poderia ter permanecido no exterior, construindo carreiras mais seguras e lucrativas. Mas, com a guerra em curso em casa, disse ele, apenas um caminho parecia fazer sentido: “Voltar para a Ucrânia e ajudar a vencer esta guerra”.A questão agora é se essa geração continuará avançando ou enfrentará a mesma resistência da velha guarda que encerrou o mandato de Fedorov como ministro da Defesa. Na quinta-feira, Rudominski e Mykhalko participaram do protesto em Kiev contra a demissão de Fedorov, em meio a uma multidão de jovens segurando cartazes de papelão expressando seu descontentamento.Yeo Bondar, de 21 anos, segurava um cartaz com a frase: “Essa reforma ministerial é um passo rumo à derrota”. Ela disse que a bem-sucedida adoção da guerra com drones pela Ucrânia foi impulsionada por jovens como Fedorov.“Não estamos animados para voltar à forma como a guerra era conduzida antes”, disse. “As pessoas querem seguir em frente, e Fedorov era o símbolo desse avanço.”c.2026 The New York Times CompanyThe post Os jovens de 20 e poucos anos que comandam a máquina de guerra da Ucrânia appeared first on InfoMoney.

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