‘Pendrive’ e ‘encomenda’ eram códigos para propina a ex-presidente do INSS, aponta PF

Blog

A Polícia Federal (PF) afirma que o ex-presidente do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) Alessandro Stefanutto recebia propinas “recorrentes” para viabilizar as fraudes a aposentados e pensionistas. Para mascarar as entregas de dinheiro em espécie, em pacotes de R$ 50 mil ou R$ 100 mil, segundo a PF, as conversas citavam códigos como “pendrive com processo para analisar” ou uma “encomenda”.As vantagens indevidas, porém, eram pagas também em outras modalidades, segundo investigadores: foram cheques e até pix. Segundo a PF, Stefanutto recebia uma mesada que aumentou significativamente, para R$ 250 mil, após assumir a presidência do INSS.A PF mapeou os repasses a partir das conversas de integrantes da Conafer, entidade que operava os descontos ilegais. Foram identificados pagamentos para diferentes agentes públicos, alguns tratados como “heróis”, “notáveis” e “amigos”.Leia tambémGoverno de SP faz operação contra créditos falsos de ICMS em fraude de R$ 3,8 biMandados são cumpridos em quatro cidades paulistas e duas do Paraná; investigação aponta que escritórios de advocacia e consultorias ofereciam créditos tributários irregulares a centenas de empresasEmpresas de advogado Nelson Wilians sofrem buscas após fraude tributária de R$ 3,8 biSão cumpridos 38 mandados de busca e apreensão nesta quarta-feira (15)Dentre eles estava Stefanutto, que tinha o codinome “Italiano” nos registros de pagamento. O ex-procurador foi indiciado pela Polícia Federal, junto de outros 47 investigados. Durante as investigações, ele negou ter cometido qualquer crime.Segundo a corporação, o ex-presidente do INSS tinha o “domínio do fato e determinava os pagamentos indevidos”. Em uma das mensagens interceptadas, um dos integrantes da Conafer pede a um colega que faça “contato” com o ex-procurador e lhe entregue uma “encomenda de 100”.A PF aponta que as conversas revelam uma série de encontros pessoais dos membros da Conafer com Stefanutto em São Paulo em 2022. O inquérito aponta que parte de tais reuniões ocorriam com a presença de José Carlos Oliveira, então ministro do Trabalho, que era tratado como ‘Abou yasser’ nos diálogos.Ainda segundo o inquérito, os encontros ocorriam fora da agenda oficial, geralmente marcados para o “finalzão da noite” ou “madrugada”, em hotéis da capital paulista, como o Hotel Hudson, no Itaim Bibi.O ex-presidente do INSS também recebeu repasses por meio de cheques, destaca a PF. Em um áudio encontrado pelos investigadores, enviado em janeiro de 2023, um dos operadores da propina afirma: “O italiano não dá para ser TED (transferência bancária). Eu vou levar uma folha pra ele lá de cheque. Eu quero que você me passe o valor”.O inquérito ainda identificou uma mensagem anterior, de outubro de 2022, em que um dos integrantes da Conafer diz que vai mandar “italiano” depositar o cheque de “250k”. Naquele mesmo mês, o próprio Stefanutto entrou em contato com o operador das propinas, porque teria compensado um cheque antes da hora certa. Nas mensagens, o ex-procurador pede “desculpas mil”.Ainda a partir das prestações de contas trocadas entre o operadores de propina, a PF encontrou um extratos de transferências pix que teriam beneficiado Stefanutto. Os investigadores rastrearam repasses a um escritório de advocacia e também destacaram que o ex-procurador recebeu dinheiro, em 2024, por meio de uma pizzaria.A Delícia Italiana Pizzas recebeu um pix de R$ 250 mil de uma empresa de agropecuária, para viabilizar a propina a Stefanutto, diz a PF. A pizzaria recebeu R$ 900 mil entre junho e agosto de 2024, pagos pelo operador financeiro da Conafer, com dinheiro proveniente da fraude contra aposentados e pensionistas. A corporação indica ainda que o ex-presidente do INSS se utilizava de uma imobiliária para o recebimento dos valores. Esta recebeu R$ 1,5 milhão das companhias vinculadas à Conafer entre novembro de 2023 e abril de 2024.Segundo a PF, foram encontradas “muitas” mensagens com conteúdo relacionado ao pagamento de propinas. Para os investigadores, não há dúvidas de que os valores operados pela Conafer vinham diretamente da entidade – “ou seja, dos aposentados e pensionistas do INSS que tiveram os descontos indevidos”, destacou a Polícia Federal.Proximidade entre ex-presidente do INSS e operador de propinasA Polícia Federal ainda aponta que, segundo os diálogos, Stefanutto se aproximou do operador de propinas da Conafer. Em março de 2024, por exemplo, este enviou, no grupo de sua família, o contato pessoal do ex-presidente do INSS, afirmando que ele teria um escritório na Itália que facilita a aquisição de cidadania daquele país. O operador disse que o processo poderia ser feito “de graça” para toda a família.Nas conversas, Stefanutto ainda chama Carlos Roberto Ferreira Lopes – presidente da Conafer, apontado como líder da organização criminosa que fraudou aposentados – como “rei”.Propinas “massivas e sistemáticas”A PF trata Stefanutto como “peça institucional de sustentação da organização criminosa” que fraudou aposentados e pensionistas, desde o início dos desvios. Segundo os investigadores, o ex-procurador “utilizou o prestígio e o poder de seus cargos públicos de alta relevância para garantir a blindagem regulatória e a viabilidade do esquema de descontos previdenciários indevidos”.O inquérito cita a atuação de Stefanutto desde 2017, com a facilitou a entrada da Conafer no INSS. Em contrapartida aos “atos de ofício e à omissão fiscalizadora deliberada que viabilizaram a milionário extração financeira dos idosos”, o ex-procurador passou a receber “propinas massivas e sistemáticas”, diz a PF. O fluxo dos repasses era mensal e saltou de R$ 50 mil para R$ 250 mil após Stefanutto assumir formalmente a presidência do INSS.Ainda segundo o inquérito, o ex-procurador usou uma “complexa estrutura de ocultação patrimonial” para lavar as propinas. A PF cita como principal “duto” da lavagem um escritório de advocacia. Além disso, indica que R$ 1,5 milhão em propinas foram pagas via uma imobiliária, sendo os valores usadas para comprar imóveis, custear reformas e outras despesas. O inquérito ainda destaca o repasse de R$ 900 mil para a conta de passagem da pizzaria ‘Delícia Italiana Pizzas’, aberta em nome de laranjas “inconscientes”, fora o depósito de cheques.The post ‘Pendrive’ e ‘encomenda’ eram códigos para propina a ex-presidente do INSS, aponta PF appeared first on InfoMoney.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *