TROMSO, Noruega — Seguindo em um carro descaracterizado, a polícia passou a observar com atenção uma minivan cinza-escuro com placa estrangeira. O anda e para na direção chamava atenção. As mensagens frenéticas no celular do motorista, também.Quando ele finalmente chegou à entrada tomada por neve e lama do aeroporto de Tromso, na Noruega, embarcou dois passageiros.“Assim que eles começaram a andar, ligamos a sirene azul”, relembrou o superintendente Lars Holtedahl, falando da operação realizada em fevereiro. “Eles foram pegos completamente de surpresa.”Leia tambémVance ou Rubio? 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Trabalhar como guia de turismo de aurora boreal sem licença.A infração pode parecer pequena para quem vê de fora, mas, para os moradores de Tromso, uma pequena cidade norueguesa acima do Círculo Polar Ártico, esses guias se tornaram praticamente o Inimigo Público nº 1.Fiscalização de carros em busca de guias ilegais em Tromso (Nicole Tung/The New York Times)Operadores não regulados têm causado caos em Tromso, que fica em uma posição perfeita, entre fiordes e montanhas nevadas, para observar a aurora boreal, o espetáculo de luzes coloridas sobre o Polo Norte.Durante boa parte do ano, Tromso é uma tranquila cidade universitária de cerca de 80 mil habitantes. Nos últimos anos, porém, o número de visitantes explodiu, em grande parte por causa das redes sociais. Na alta temporada, de setembro a abril, turistas podem superar os moradores na proporção de 3 para 1.Só em fevereiro, mais de 137 mil visitantes passaram pelo terminal internacional recém-ampliado do aeroporto de Tromso, segundo a empresa estatal Avinor, que administra os aeroportos noruegueses.Esse setor não regulado, dizem autoridades locais, semeou o caos nas ruas e prejudica tanto operadores licenciados quanto a arrecadação de impostos da cidade.A maioria dos operadores ilegais vem da China. O mesmo vale para o número crescente de turistas, alguns dos quais acabam sendo enganados. Muitos dos guias não autorizados chegam de fora da Noruega, trabalham sem a documentação adequada e levam os lucros embora.Mergulho em águas geladas em Tromso (Nicole Tung/The New York Times)“Não vemos aumento de receita no município, só vemos as despesas”, disse Helga Bardsdatter Kristiansen, primeira responsável por sustentabilidade da cidade, apontando para a pressão sobre ruas e serviços públicos. Quase metade das operadoras de turismo em Tromso é irregular, acrescentou.Nesta temporada, a polícia apreendeu cerca de 10 veículos por mês e prendeu mais de uma dúzia de pessoas por transporte ilegal de turistas, deportando os guias que não eram noruegueses.O motorista preso em fevereiro na operação descrita por Holtedahl era um cidadão chinês de cerca de 40 anos, que foi expulso do país. Quando foi parado, mentiu dizendo que estava levando parentes, segundo a polícia. Mensagens em seu telefone mostravam que ele havia vendido um pacote de cinco dias por 31 mil yuans (mais de US$ 4.500).“É uma grande indústria”, disse Holtedahl. “Tem muita gente ganhando dinheiro, de forma honesta e desonesta.”Passeio de esqui cross-country em Tromso (Nicole Tung/The New York Times)Um tour típico começa em cerca de US$ 115 por pessoa e pode ser cheio de paradas, com motoristas verificando aplicativos de rastreamento da aurora e dirigindo até a fronteira com a Finlândia, a 160 quilômetros dali, em busca das luzes.A barreira de entrada é baixa.“Você precisa saber para onde ir e precisa do carro”, disse Kurt Kolvereid Jacobsen, um dos responsáveis por uma equipe especial, chamada unidade A-Crime, criada no ano passado para se concentrar na indústria da aurora boreal.Em Tromso, a unidade local da A-Crime sai às ruas ao anoitecer, quando ônibus lotam as vias à espera de passageiros. Vestidos com macacões fluorescentes, os agentes revistam veículos em busca de guias ilegais.Os operadores irregulares costumam estar um passo à frente.Autoridades que atuam com a A-Crime disseram ter descoberto um grupo de mensagens em que guias ilegais trocavam dicas para escapar de fiscalizações. Fingir que os clientes eram familiares era uma tática comum.No Red Note, um aplicativo de mídia social chinês, há centenas de postagens reclamando de golpes. Uma usuária, moradora de Chengdu, no sul da China, relatou que a única coisa que viu durante o tour foi o interior de uma delegacia — depois que o guia ilegal que a buscou foi preso.“O motorista ficou extremamente agitado e exigiu que eu mentisse para a polícia: ‘Diga apenas que somos amigos, caso contrário isso é uma operação ilegal e serei punido!’”, ela escreveu, contando que foi interrogada por quatro horas.Outra turista, Tingting Wang, pagou US$ 1.400 para que ela e seus pais idosos pudessem ver a aurora boreal. Na primeira noite, o céu estava totalmente encoberto. Na segunda, o guia não apareceu.Ela voltou para Xangai e mentiu para os pais, dizendo que tinha conseguido reembolso.Tromso, ela nos contou, “é muito bonita e parece um conto de fadas”, mas “o turismo é muito caótico”.Na via principal, turistas fazem fila para comer batata frita no que se anuncia como o McDonald’s mais ao norte do mundo ou tiram selfies ao lado de estátuas de trolls tornadas famosas pela franquia “Frozen”, da Disney. Quase sempre há uma fila em frente à barraca de cachorro-quente de rena.A multidão incomoda muitos moradores, mas especialmente veteranos na caça à aurora, como Gunnar Hildonen.Motoristas não registrados aceitam uma fração dos US$ 250 que ele cobra por um assento em seu micro-ônibus de 16 lugares, contou.“Esta temporada deveria ser uma celebração porque é a minha 20ª aurora”, disse ele, depois de abrir caminho na neve para os hóspedes. “Mas tudo foi por água abaixo.”Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times.The post Quando a aurora boreal vira pesadelo para a Noruega appeared first on InfoMoney.
