Queda no setor de serviços pode ser apenas acomodação em patamar menor?

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O setor de serviços continuou em março a mostrar sinas de acomodação da atividade em patamares mais baixos que os observados no setor nos últimos cinco anos, mas há estímulos ao consumo em vigor que devem impedir retrações maiores, segundo a opinião de economistas. O IBGE divulgou nesta sexta-feira (15) que o volume de serviços caiu 1,2% ante fevereiro, em parte refletindo os efeitos defasados da política monetária restritiva.Luiz Carlos de Almeida Junior, analista da Pesquisa Mensal de Serviços, destacou que, nos últimos 5 meses, foram observados um mês de estabilidade e 4 meses de variação negativa, o que faz com que o setor de serviços acumule queda de 1,7% desde outubro de 2025 — mês em que foi observado o ponto mais alto da série.“Setorialmente, todas as 5 atividades investigadas mostraram queda na comparação com o mês imediatamente anterior. O setor de transportes foi o principal responsável pela queda observada no Brasil neste tipo de comparação. O recuo no setor foi influenciado principalmente pela queda observada no transporte rodoviário de cargas e no transporte aéreo de passageiros”, explicou o analista em nota.Leia também: Setor de serviços recua 1,2% em março, diz IBGE, bem pior do que o esperadoA XP comentou que o resultado do setor de serviços em março ficou muito abaixo das expectativas, com retração em todos os principais grupos. Ainda assim, foi feita a ponderação de o dado deve ser interpretado com cautela.A explicação é que aumento do comprometimento de renda das famílias com o serviço da dívida continua sendo um importante vetor negativo, limitando a demanda discricionária e impedindo uma expansão mais consistente do consumo de serviços. Por outro lado, foi lembrado que o mercado de trabalho segue robusto e, combinado ao aumento das transferências fiscais e medidas de estímulo, deve sustentar a demanda doméstica nos próximos meses.A XP projeta crescimento de 2,5% para a receita total do setor de serviços em 2026, após alta de 2,9% em 2025.Rafael Perez, economista da Suno Research, comentou que os serviços prestados às famílias, apesar da queda no mês, tiveram alta de 0,3% no trimestre, beneficiados pelas medidas recentes de estímulo ao consumo, como a reforma do imposto de renda e o crescimento real do salário-mínimo.“Os dados mais recentes sugerem uma acomodação da atividade em patamares mais baixos, refletindo os efeitos defasados da política monetária restritiva, mas também uma moderação do forte crescimento observado no setor de serviços nos últimos cinco anos”, disse.Na opinião de André Valério, economista sênior do Inter, o resultado aponta uma desaceleração mais intensa no setor de serviços. Ele disse que, por ser a primeira leitura após o início do conflito no Irã é cedo para se tirar conclusões, mas ponderou que o recuo parece ser efeito de realocação de consumo, dado o aumento nos preços dos combustíveis. “Isso se notou nos dados da PMC ontem, e o comportamento dos serviços prestados às famílias reforçam essa hipótese. Com os dados de março, esperamos que o IBC-Br apresente uma retração de 0,2%”, estimou.Efeito da inflação?Para Matheus Pizzani, economista do PicPay, uma possível explicação para a retração nos serviços prestados às famílias no mês podem ser efeitos negativos do aumento da inflação no período, que se concentrou em larga escala nos bens essenciais da cesta de consumo, “além de fatores que carregados por períodos mais longos, como o nível elevado de juros e endividamento das famílias, responsáveis por corroer fração importante da renda real disponível destes agentes e limitar suas respectivas capacidades de consumo”.Na visão do economista, a expectativa é de que a parcela positiva do componente sazonal de crescimento do setor de serviços mude de característica, migrando dos serviços prestados às famílias para os serviços de transporte, que devem recuperar dinamismo em função da externalidade positiva gerada pela maior demanda externa por commodities agropecuárias brasileiras.“Todavia, este movimento deve funcionar apenas como limitador de possíveis retrações tão intensas quanto à observada hoje, uma vez que a expectativa é que o cenário de desaceleração da demanda por serviços por parte das empresas e de maior estagnação do consumo das famílias tornem o quadro das próximas divulgações da PMS relativamente semelhante ao que foi visto hoje”, disse.E o PIB?Mesmo com a retração dos serviços no mês bem acima do esperado pelos economistas, as projeções para o PIB do primeiro trimestre não mudaram, uma vez que as pesquisas de indústria e comércio até março vieram positivas.O XP Tracker, por exemplo, indica crescimento ao redor de 1,0% para o PIB no 1° trimestre de 2026 ante o último trimestre de 2025 – e de 1,8% ante os primeiros três meses de 2025. “Mantemos nossa projeção de alta de 2,0% em 2026”, diz o relatório da casa de investimentos.Rafael Perez, da Suno, também segue projetando alta de 1,0% do PIB no 1T26, “mas com uma tendência de desaceleração gradual ao longo dos próximos trimestres”.Para ele, mesmo com a desaceleração do setor de serviços no primeiro trimestre, o desempenho mais forte da indústria e do varejo deve contribuir para um avanço robusto da atividade econômica no período.Pizzani, do PicPay, concorda que o cenário não altera a visão otimista em relação ao PIB do primeiro trimestre do ano, que deve encerrar com alta de 0,8%. “Também seguimos projetando alta de 1,7% para o PIB no encerramento de 2026”.A avaliação do Bradesco é que, após números mais fortes em fevereiro, o resultado de março das pesquisas conjunturais do IBGE indica uma acomodação da atividade doméstica. “O número de março deixa um ritmo de largada mais baixo para o segundo trimestre. Esperamos um crescimento próximo de 1% nos primeiros três meses do ano e uma desaceleração para em torno de 0,5% no segundo trimestre”.Para o Itaú, o setor de serviços mostrou desempenho desigual entre os segmentos: informação e comunicação apresentaram um aumento sólido, enquanto o transporte declinou, prejudicado pelo transporte aéreo. “Esse desempenho misto deve se refletir na divisão do PIB do 1º trimestre, provavelmente mostrando um aumento geral no PIB dos serviços, mas com dispersão significativa entre as atividades.”Já Heliezer Jacob, economista do C6 Bank, comentou que apesar do desempenho mais fraco dos serviços, outros dados de atividade, como indústria e varejo, devem ter contribuído para impulsionar a economia no período. “Além disso, a própria composição da PMS apontou resiliência nas séries com maior peso no PIB. Nossa projeção é que o PIB tenha avançado 1,7% no primeiro trimestre.”The post Queda no setor de serviços pode ser apenas acomodação em patamar menor? appeared first on InfoMoney.

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