Durante décadas, a lógica dos mercados foi relativamente simples: juros mais altos subiam o custo de capital, reduziam o valor das empresas e pressionavam as bolsas de valores. Mas esse comportamento vem mudando nos Estados Unidos, segundo a avaliação de Andrew Reider, da WHG. No programa Aftermarket, apresentado por Lucas Collazo, Reider pontuou que o excepcionalismo americano está voltando, com a economia americana demonstrando força mesmo após um dos maiores ciclos de aperto monetário dos últimos anos, impulsionada pelo volume de investimentos corporativos e pelo crescimento dos resultados das empresas.Para Reider, esse cenário exige que os investidores revisem uma série de premissas tradicionalmente utilizadas para avaliar o mercado acionário. Ele afirma que o boom da inteligência artificial (IA) levou bilhões de dólares a diversas empresas de capital aberto, recursos que foram destinado à construção de data centers, compra de chips e semicondutores. Ele pontua que a expansão da capacidade computacional passou a funcionar como um estímulo permanente à atividade econômica dos Estados Unidos. Esse ciclo gera empregos, impulsiona o consumo e mantém elevada a demanda por capital, reduzindo o espaço para uma queda mais rápida das taxas de juros.Leia mais: Fitch alerta: correção em IA está se tornando importante risco de crédito global“Não é porque os juros estão subindo que a IA deveria ir mal; talvez seja o contrário: a IA indo muito bem faz com que os juros fiquem mais altos, e as outras coisas que não estão indo tão bem vão sofrer com esses juros mais altos”, afirmou.Essa dinâmica criou uma concentração de capital nos índices americanos que surpreende até gestores experientes. Christian Keleti, da AlphaKey, disse durante o Aftermarket que ficou surpreso de ver o dinheiro continuar circulando dentro do próprio S&P 500, mesmo com correções pontuais em grandes empresas de tecnologia.“O dinheiro, o rotation, fica dentro do S&P. O índice está a 3%, 4% do high, com várias companhias que valem quase trilhão, tendo caído bastante do topo… Mas o dinheiro fica circulando, ele não sai para outros lugares; ele está circulando ainda dentro do sistema de IA”, analisou Keleti.Reider acrescentou que essa rotação criou um cenário doloroso para os fundos (conhecido por pain trade), onde setores mais defensivos sobem e seguram o índice enquanto papéis de tecnologia de menor porte sofrem desvalorizações acentuadas.Leia também: IA muda o research, mas fator humano ganha pesoLucros sustentáveisTodas essas alterações também mudam como investidores analisam empresas de tecnologia. Para Reider, discutir apenas valuation ou múltiplos como preço sobre lucro (P/L) deixou de ser suficiente. O principal desafio passou a ser avaliar até quando o ritmo acelerado de crescimento dos resultados financeiros poderá ser sustentado.O gestor citou como exemplo empresas sul-coreanas ligadas ao mercado de chips, que registraram revisões expressivas nas estimativas de lucro impulsionadas pela demanda por inteligência artificial. A dúvida do mercado, segundo ele, não é mais se essas empresas crescerão, mas por quanto tempo conseguirão manter esse ritmo.“Eu acho que o desafio não é nem olhar P/E, o desafio é o lucro mesmo. Será que está tendo uma bolha de lucro? Será que isso é sustentável?”, afirmou.Apesar da correção recente das ações ligadas à IA, Reider disse que os indicadores acompanhados pela gestora continuam apontando aceleração da demanda por infraestrutura tecnológica. Segundo ele, dados sobre adoção de modelos de inteligência artificial, expansão da computação em nuvem e investimentos das grandes empresas seguem surpreendendo positivamente.“Quando a gente olha dados alternativos de adoção dos modelos, de compute, capex das empresas, resultados das pesquisas que as empresas estão anunciando… está tudo em linha ou até acima do que a gente esperava”, disse.Ao mesmo tempo, o gestor reconhece que o mercado atravessa um período de forte volatilidade, marcado por uma rotação entre empresas consideradas vencedoras e perdedoras na corrida pela inteligência artificial. Na avaliação dele, ainda é cedo para saber se esse movimento representa apenas uma realização técnica ou uma mudança mais estrutural na percepção dos investidores.The post Relação de juros e Bolsa dos EUA foi alterada drasticamente pela IA, dizem gestores appeared first on InfoMoney.
