Dez anos após a Olimpíada, o Rio ainda convive com dois dos principais desafios que prometeu superar para receber os Jogos. Na mobilidade, obras emblemáticas como a Linha 4 do metrô e o VLT mudaram a paisagem da cidade, mas a expansão da rede ficou pela metade e o crescimento da Barra voltou a pressionar o trânsito. Na segurança, a política de pacificação que ajudou a vender a candidatura olímpica não resistiu ao tempo, enquanto operações cada vez mais letais e a expansão do crime organizado mostram que a promessa de um legado duradouro permanece distante.O GLOBO mostra, a seguir, como estão hoje dois dos principais pilares do legado olímpico: a mobilidade urbana e a segurança pública.Mobilidade avançou, mas estrutura segue incompletaEm 2016, foram inaugurados os primeiros serviços de VLT, no Centro, e a Linha 4 do metrô, que conecta a Barra da Tijuca à Zona Sul. O BRT Transolímpico, que hoje liga a região da Barra Olímpica a bairros da Zona Oeste, também surgiu no ano dos Jogos no Rio, assim como uma terceira faixa no Elevado do Joá, entre a Barra e a Zona Sul, que opera como reversível, atendendo aos sentidos de trânsito conforme o rush.Dez anos depois, o processo de expansão de moradias e escritórios comerciais nas zonas Oeste e Sudoeste cobra seu preço. Nos horários de pico, há congestionamentos até mesmo em vias que foram duplicadas, como as avenidas Carlos Carvalho, Embaixador Abelardo Bueno e Salvador Allende, todas nas imediações do Parque Olímpico, principal espaço de competições em 2016. Os gargalos fizeram a prefeitura iniciar a construção de uma nova rótula para reorganizar o trânsito na chegada à Barra, na tentativa de reduzir engarrafamentos na orla, que, em alguns horários, se estendem à Praia da Reserva — a obra deve ser concluída até novembro. Em andamento, há licitações para alargar a Avenida Ayrton Senna, no acesso à Linha Amarela, e um novo trecho da Salvador Allende até o Riocentro.— O investimento público em vias não seguiu no mesmo ritmo que o crescimento da Barra. Há necessidade desses projetos em andamento, assim como da conclusão de outras vias previstas no Plano Lucio Costa (projeto urbanístico para a região criado em 1969) — afirma o presidente da Câmara Comunitária da Barra, Delair Dumbrosck.Dumbrosck acrescenta que, para convencer o morador a deixar o carro em casa, a melhor opção seria expandir o metrô. Licínio Rogério, coordenador do Fórum de Mobilidade Urbana, concorda:— Esses recursos em novas vias poderiam ser melhor aplicados no metrô. Intervenções, como levá-lo da Barra até o Galeão, são essenciais. Mas, antes de tudo, é preciso concluir a conexão entre as estações da Carioca e do Estácio, que ficou incompleta e é essencial antes de qualquer expansão. Já a promessa da prefeitura, de que toda a frota de ônibus seria climatizada até o fim de 2016, não se concretizou. Dez anos e várias renegociações — inclusive por acordos judiciais — depois, falta pouco: em julho, o índice de coletivos com ar-condicionado chegava a 99,2%. Por outro lado, um plano de racionalização de linhas, para evitar a concorrência com outros modais, está suspenso desde 2015. A expectativa é retomar o processo com a realização de novas concessões de linhas até 2028.Entenda melhor: Consórcio de Carro: como funciona, vantagens e dicas para escolher umObras na Gávea retomadasA construção da estação do metrô da Gávea ficou cerca de dez anos parada, até ser retomada no ano passado. A previsão é que seja finalmente inaugurada em 2028, mas conectada apenas à estação de São Conrado — quem embarcar na Gávea vai precisar ir até lá para acessar outras paradas do sistema. Nos trilhos do VLT, por sua vez, as obras só terminaram há dois anos.Da esperança com as UPPs a 121 mortes em megaoperaçãoDois de outubro de 2009, Copenhague, capital da Dinamarca. Com a participação do então presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman, e de Sérgio Cabral, que governava o estado na época, o Rio de Janeiro fez sua última defesa da candidatura da cidade à sede da Olimpíada. O tema em questão, segurança pública, foi considerado fundamental para que o Rio superasse os concorrentes: Madri, Tóquio e Chicago. Na apresentação, o governo fluminense defendeu o programa das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), lançado em 2008, apontando-o como parte de uma estratégia de redução dos índices de criminalidade e garantia de segurança do megaevento.As quatro UPPs existentes em outubro de 2009 chegaram a 38 na época da Olimpíada, mas, até hoje, a segurança é um desafio que está longe de ser superado. — O projeto começou com os batalhões da PM fixando metas de desempenho e o conceito de que deveria ser uma política de Estado, e não de um governo. A princípio, deu certo. O problema é que o programa das UPPs foi se expandindo de maneira desordenada e faltaram recursos — observa o ex-secretário de Segurança Pública José Mariano Beltrame, responsável pela implantação das UPPs.Já em 2016, problemas afetaram a rotina dos cinco mil integrantes da Força Nacional mobilizados para o evento. Um dos alojamentos reservados aos agentes foi o condomínio Vila Carioca, do Minha Casa Minha Vida, recém-construído na Gardênia Azul, área dominada pela milícia e hoje controlada pelo tráfico. Na época, houve relatos de que paramilitares teriam imposto uma espécie de toque de recolher, gerando constrangimentos, o que era negado pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp).Leia também: Campo de Marte terá operação por instrumentos a partir de 15 de setembroIntervenção federalApós a Olimpíada, a questão da segurança pública no Rio levou a uma intervenção federal em 2018, mas a preocupação persistiu. Em outubro do ano passado, a megaoperação mais letal da história do Rio, realizada nos complexos do Alemão e da Penha, resultou em 121 mortes — entre as quais as de quatro policiais. O Cidade Integrada, novo projeto de retomada de territórios lançado pelo então governador Cláudio Castro, jamais saiu do papel. Em meio a esse cenário, investigações revelaram o envolvimento de políticos com o tráfico, caso do ex-deputado TH Jóias, e no assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes — os irmãos Chiquinho e Domingos Brazão foram condenados pelo duplo homicídio.— Segurança nunca foi um problema nos megaeventos pela quantidade de efetivos envolvidos de várias esferas. Mas é uma estrutura que não é possível ser sustentada por muito tempo. A questão principal é que o Estado brasileiro não consegue. É preciso planejamento de operações eficientes e inquéritos policiais bem-feitos — diz o coronel da reserva e antropólogo Robson Rodrigues, ex-coordenador das UPPs.Leia tambémRay-Ban: a briga de família que pode desmontar um império de € 40 biHolding Delfin, que controla EssilorLuxottica e o banco mais antigo do mundo, vive crise de governança; herdeiros não se entendem e ações já caíram 49%“Riqueza não é dinheiro”: o alerta de Ray Dalio sobre a bolha de IABilionário compara momento atual a 1929 e 2000 e diz que investidores estão confundindo patrimônio de papel com capacidade real de gastoOutros impactosSambódromoLocal das competições de tiro com arco, foi ampliado de 60 mil para 75 mil lugares. A expectativa é que nos próximos anos o Sambódromo passe por novas reformas, como uma das âncoras do projeto Praça Onze Maravilha, que prevê a revitalização de seu entorno.Parque dos AtletasApós receber R$ 44 milhões em infraestrutura para ser uma área de lazer, o terreno do Parque dos Atletas, vizinho ao Parque Olímpico, foi devolvido aos antigos proprietários em 2022, porque a prefeitura não pagou as indenizações pela desapropriação.AutódromoA construção do Parque Olímpico levou ao fechamento do autódromo internacional que funcionava no Rio. Após duas tentativas malsucedidas, há um projeto para construir nova pista em Guaratiba. Contudo, a iniciativa ainda depende do licenciamento ambiental.EscolasLocal das provas de taekwondo e esgrima, uma das arenas da Barra se transformou em escola pública. Outras quatro escolas foram construídas com a desmontagem da arena de handebol. As cinco unidades da rede municipal têm 2.577 alunos.ConcessãoO grupo Rock In World ganhou uma concessão da prefeitura para explorar comercialmente e manter o complexo de tênis, o velódromo e o Museu Olímpico, no bairro Barra Olímpica. A Vila Olímpica que funciona no velódromo será mantida.Parque Rita LeeA área de lazer foi inaugurada em 2024, com a separação física das arenas dos demais espaços públicos do Parque Olímpico original. O Rita Lee tem mais de 100 mil metros quadrados, mas usuários reclamam da pouca arborização.Hotéis e eventosA concessão de benefícios fiscais e mudanças nas regras urbanísticas incrementaram a oferta de vagas de hotéis, o que foi essencial para receber os visitantes e atletas na Rio 2016. Uma reforma ampliou o Riocentro, permitindo captar mais eventos.Piscina olímpicaNo início de 2026, a piscina olímpica onde o americano Michael Phelps, maior recordista de medalhas da natação, fez sua última prova antes da aposentadoria, foi reaberta no Parque Oeste, em Inhoaíba. Os moradores fazem aula de natação e hidroginástica.Leia na quinta-feira a segunda reportagem do especial do GLOBO sobre os 10 anos da Rio 2016. O próximo capítulo mostra os impactos dos Jogos no turismo. The post Rio 10 anos após Olimpíada: metrô incompleto e segurança em crise appeared first on InfoMoney.
