Russos não ligaram para guerra, mas, quando Putin restringiu internet, a coisa mudou

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MOSCOU — O presidente Vladimir Putin e seus serviços de segurança mantiveram sob controle o dissenso público mesmo enquanto ele invadia um país vizinho, enviava centenas de milhares de soldados para a morte e elevava drasticamente os impostos para pagar por tudo isso.Depois, passaram a restringir aplicativos populares e a cortar o acesso à internet de forma intermitente. De repente, muitos russos se indignaram.Leia também: Desastre de Chernobyl completa 40 anos; legado é de alerta sobre risco nuclearCidadãos comuns, políticos e até estrelas de reality show criticaram as restrições. Ao se manifestarem, deram um sopro de vida ao sistema político russo, que já não permite uma oposição genuína, mas ainda deixa algum espaço nas margens para opiniões divergentes.Influenciadores do Instagram que normalmente são apolíticos passaram a defender direitos digitais com veemência. Políticos da “oposição sistêmica” — facções de fachada que o Kremlin permite no Parlamento para se oporem ao partido governista Rússia Unida, mas que quase sempre votam com ele — reprovaram o governo por restringir o Telegram, o aplicativo de mensagens mais usado do país.O descontentamento vem crescendo meses antes das primeiras eleições parlamentares da Rússia desde a invasão da Ucrânia em 2022. E, junto com a insatisfação com a economia enfraquecida e o aumento de impostos, ajudou a derrubar a taxa de aprovação de Putin. O índice caiu por sete semanas consecutivas e agora está em 65,6%, segundo o VTsIOM, instituto estatal de pesquisas, nível semelhante ao de pouco antes da guerra.“As restrições à internet colocaram um grande número de pessoas contra a classe governante, ainda que não necessariamente contra Vladimir Putin pessoalmente”, disse Mikhail Komin, cientista político do Center for European Policy Analysis. “É por isso que estamos vendo a queda nas taxas de aprovação e pessoas que nunca se manifestaram sobre política de repente se politizando.”Poucos aspectos do aprofundamento da repressão na Rússia ao longo da guerra foram sentidos de forma tão ampla quanto os esforços do Kremlin, sob pretextos de tempo de guerra, para colocar a internet do país totalmente sob seu controle.Citando razões de segurança, as autoridades bloquearam por meses o acesso à internet móvel por dias seguidos na grande maioria das regiões russas. Também bloquearam ou reduziram a velocidade de um número crescente de aplicativos estrangeiros — incluindo Facebook, YouTube, WhatsApp e Telegram — pressionando os russos a usar alternativas nacionais, mais fáceis de monitorar. Muitos recorreram a soluções tecnológicas conhecidas como redes privadas virtuais, ou VPNs.À medida que os apagões e bloqueios passaram a interferir na vida cotidiana, russos tentaram realizar protestos em algumas cidades. As autoridades os impediram, em alguns casos alegando receio de que as manifestações pudessem crescer demais.Em vez disso, os russos levaram suas queixas para as redes sociais. Mensagens furiosas inundaram a seção de comentários da página do Ministério do Desenvolvimento Digital. Quando as falhas de internet atingiram o pico, também cresceram as buscas no Google por “como sair da Rússia”.As críticas vieram de vozes inesperadas. Victoria Bonya, influenciadora de beleza e ex-estrela de reality show que vive em Mônaco, disse em um vídeo no Instagram que as restrições à internet “tornam a Rússia [um lugar] impossível de viver”.Ela foi cuidadosa ao criticar diretamente Putin, recorrendo a um clichê russo para sugerir que talvez ele não tivesse sido devidamente informado por seus assessores. E falou a partir da relativa segurança de viver no exterior. Ainda assim, afirmou: “Não acho que as pessoas devam ter medo do próprio presidente.”O vídeo recebeu mais de 30 milhões de visualizações. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, foi pressionado por repórteres por dois dias seguidos a comentar o caso e, por fim, disse que Bonya poderia ficar tranquila, pois o Kremlin estava trabalhando nas questões levantadas por ela.Gennady Zyuganov, líder do Partido Comunista russo, elogiou Bonya durante um discurso no Parlamento. Disse que, com a economia estagnada e o aumento das restrições à internet, o descontentamento crescente poderia ameaçar o atual governo da mesma forma que uma guerra impopular, dificuldades econômicas e a supressão de liberdades derrubaram a monarquia russa em 1917.Bonya deu voz a frustrações há muito reprimidas de muitos russos, disse Abbas Gallyamov, ex-redator de discursos do Kremlin que deixou a Rússia após a invasão da Ucrânia.“O ataque à internet é visto como um ataque à vida privada”, disse por telefone. “As pessoas estão perdendo serviços básicos. Isso gera um ressentimento muito forte.”Até membros leais do próprio partido de Putin, o Rússia Unida, se manifestaram.Vyacheslav Gladkov, governador da região de Belgorod, no oeste da Rússia — alvo de ataques quase diários do Exército ucraniano — disse nas redes sociais que estava “preocupado” com o fato de as restrições ao Telegram poderem colocar em risco a vida de moradores que dependem do aplicativo para alertas de ataques aéreos.Mais de 100 milhões de russos usavam o Telegram todos os meses para comunicação, notícias e transações comerciais. O Kremlin pressiona para que migrem para o MAX, um “superaplicativo” não criptografado desenvolvido pelo governo.Russos estão pedindo que partidos de oposição tentem fazer algo. O Partido Comunista foi “inundado por reclamações de todo o país”, disse por telefone Alexander Yushchenko, deputado veterano da legenda. A reação dos eleitores às restrições, afirmou, vai de “consternação a um radicalismo aberto”.O que mais irrita as pessoas, segundo ele, é o sigilo em torno das medidas. O governo tem falado apenas de forma vaga sobre ameaças à segurança para justificar as restrições à internet.Neste mês, os comunistas apresentaram uma moção para obrigar o Ministério do Desenvolvimento Digital a fornecer uma explicação oficial sobre os apagões e bloqueios. A proposta fracassou porque os membros do Rússia Unida votaram contra.Em um desdobramento curioso, as críticas constantes aos bloqueios da internet beneficiaram um partido de fachada criado antes das eleições parlamentares de 2021 para captar o voto jovem após a repressão do Kremlin ao movimento de oposição genuíno liderado por Alexei Navalny.Antes, o partido Novas Pessoas buscava se posicionar em temas menos sensíveis, como a redução da burocracia para pequenas empresas. Agora, foca nas liberdades na internet, tomando cuidado para não atribuir culpa diretamente a Putin.O Novas Pessoas, que obteve 5% dos votos em 2021, agora superou os outros três partidos de oposição alinhados ao Kremlin, recebendo o apoio de 13% dos eleitores em uma pesquisa recente.Embora em grande parte silenciados desde 2022, os partidos de oposição mantêm certo grau de independência e vêm testando os limites do dissenso antes das eleições parlamentares previstas para ocorrer até setembro. (Representantes do Novas Pessoas recusaram múltiplos pedidos de entrevista do The New York Times.)O jornal Nezavisimaya Gazeta, que por vezes faz críticas moderadas ao governo russo, escreveu em editorial que “a internet é essencialmente o único tema em que todos os partidos podem aumentar sua aprovação neste momento”.Ainda assim, esses lampejos de atividade política não vão reverter a desilusão dos russos com o que é amplamente visto como um sistema manipulado.“Eu não participo desse teatro”, disse Svetlana, uma engenheira aposentada na faixa dos 50 anos, ao relatar sua experiência passada em uma comissão local de organização de eleições.Svetlana, que temia fornecer seu sobrenome, estava na Praça Vermelha para prestar homenagem a Vladimir Lenin em seu mausoléu durante um evento organizado pelo Partido Comunista.“Com o governo atual, estamos basicamente confinados a uma prisão a céu aberto, e as coisas só pioram”, afirmou.Denis Parfyonov, deputado do Partido Comunista que participou do evento, disse que o descontentamento público cresceu tanto que “talvez não falte muito tempo” para que os russos estejam prontos para “medidas muito mais decisivas”.Até agora, porém, o sistema de poder construído por Putin parece protegido contra o tipo de mudança revolucionária que os comunistas russos, em teoria, celebram.“Podemos ver um novo processo político em curso, isso é certo, mas ele não representa ameaça à estabilidade do regime político”, disse Komin.c.2026 The New York Times CompanyThe post Russos não ligaram para guerra, mas, quando Putin restringiu internet, a coisa mudou appeared first on InfoMoney.

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